Nesse brevíssimo instante do piscar, instante esse que o espirro causa, instante entre o cheiro e a memória, instante que o vento sopra a folha de uma janela causando estrondo, instante que o escritor em sua mesa deixa o lápis cair no chão sem se dar conta, instante que um grão de milho estoura na panela se dando o privilégio de tornar flor branca, instante que uma mensagem sai de um dispositivo, atravessa as ondas habitantes do ar e chega a outro dispositivo, instante que um salmão salta contra a corrente e percebe que o que o espera não é a água que acabou de deixar, mas sim a boca de um urso-pardo, instante que Picasso, depois de 63 dias de trabalho e constantes alterações, dá a pincelada definitiva em Mulheres de Argel, quadro este que atingiu o incrível status de obra a ser vendida pelo maior preço da história dos leilões de arte (precisamente 573 milhões), nesse instante dois olhos brilharam entre as árvores.

Excerto do conto Em uma clareira era noite, de José Vianna.

Em outra intervenção na mesma exposição, desta vez anônima e no trabalho do Nico Las, Pense, Jandir escreveu “Pisque”. A ação de piscar, involuntária e cotidiana, reverte a autoridade do imperativo. Ou, por outro lado, a autoridade imperativa se faz confortável por ser inescapavelmente cumprida. Pisque brinca com a relação de poder. Seja como for, a operação parece ser a de desnudamento. É em Pique-Pedra, e também em Pisque, que sua ação é um rearranjo do real. Um rearranjo enviesado, transversal, itálico. Um rearranjo que encontra novas e possíveis lógicas perturbantes, que opera por dentro.

Excerto do texto crítico de Pollyana Quintella sobre minha participação no Diálogos Expandidos/Ocupação, na exposição Novas Poéticas – Diálogos expandidos em arte contemporânea, em 2014.

(Não havia pensado ainda no piscar como um instante.)

(Mas isso é um clichê, né? É meio estranho não ter pensado nisso.)