“Atualmente, eu penso que meu processofóliio documenta certa forma de estar em arte fora da hegemonia e de ser feliz assim; fazendo coisas numa escala menor, no âmbito privado, para além da publicização, numa produção desviante dentro do meu ambiente de trabalho remunerado, fora das exposições de arte, do circuito etc. E percebo essa minha vontade de praticar o artístico na vida corriqueira, de uma forma mais autônoma e simples, influenciada por minha posição de raça/classe.
Por exemplo, a autonomia alimentar das famílias que tinham hortas e galinhas em casa para sobrevivência era para que consumissem menos da indústria alimentícia, para que não gastassem tanto com isso. A economia solidária das famílias pobres trocando entre si diversos produtos cria uma segunda circulação econômica, menor, que não existe para subverter o capitalismo, mas para suprir a carência de papel moeda. E essas e tantas outras soluções-gambiarras são daquelas pessoas que vivem na linha da miséria ou, numa outra escala, das que ocupam os postos de trabalho de subserviência, de base, como, por exemplo, toda minha família trabalhando como rodoviários, motoristas de ônibus, vendedores de gás, churrasqueiros, ambulantes vendendo cerveja; como meus amigos de infância, funcionários do mc’donalds, do bob’s, guardas municipais, hoteleiros, domésticas e vigilantes; e até minha mesmo, universitario, trabalhando num trabalho base dentro da estrutura da arte (sendo monitor de exposições), ainda que esse emprego em nada se compare com a época em que eu instalava câmeras de vigilância e portões eletrônicos ou com o trampo do meu amigo Renato, que até pouco trampava no bob’s, ainda que tivesse mais de 30 anos.
O Renato (estudante de geografia atualmente) e eu somos parte de uma geração de pessoas que foram as primeiras de suas famílias a entrarem na universidade (e, com isso, ocuparem algumas posições – pequenas que sejam – de poder no social). Em todo meu percurso de atuação no artístico tenho visto então refletido esses dados da minha origem: desde a denúncia e o desconforto que a Amador e Jr. quer propiciar no circuitão das artes até a vontade de pôr meus pés no chão e dizer: “meu lugar é o da simplicidade, do comum, não o da vontade de estar com o meu nome de batismo num museu, numa moldura”, que tenho buscado tornar documento (logo, informação) através do processofólio. Percebo que reflito a sabedoria da minha ancestralidade preta/nativa e a sabedoria da posição de classe da minha família branca – trabalhadora da base – no que faço como arte. Acho que essas coisas precedem e tornam afins minha pesquisa individual e o que temos feito eu e Antonio em nossa empresa.”