Rasguei ao meio uma fotografia, com o texto abaixo manuscrito em seu verso, e inseri seus pedaços em dois livros da Biblioteca da Pivô, em São Paulo, por ocasião do evento Cinco livros comentando entre si sobre outros volumes que compõem a biblioteca que os hospeda, organizado por Pedro Zylbersztajn e com participação minha, de Maíra Dietrich, Flora Leite e Paulo Pasta.

Eu sou um homem negro olhando para dois homens brancos com animais no colo. É 2011, um ano depois da minha entrada no curso de artes. Um deles, Joseph Beuys, carrega uma lebre morta em uma performance, guiando-a, sussurrando para ela sobre cada quadro em uma exposição de pinturas, e seu rosto está completamente coberto de mel e folhas de ouro. O outro é Iberê Camargo, um pintor em seu ateliê, levando Martim nos braços, seu gato. Eu resolvo juntar as duas imagens, irmãs partidas entre épocas e continentes distintos, parentes estranhas, e guardo a montagem no meu computador. 12 anos depois, imprimo a junção, escrevo este texto no verso, mas rasgo a foto ao meio. Libero as imagens, separo-as novamente. Em uma biblioteca, então, insiro a foto de Iberê entre as páginas do único livro de Joseph Beuys que encontrei. Já a imagem de Beuys ponho num livro sobre Iberê Camargo. Certamente, para este texto ser lido novamente, suas duas partes precisariam extravasar as páginas em que as contive, num reencontro. Mas é possível que as fotos permaneçam dentro dos livros, é possível que sejam roubadas, é possível que sejam mudadas de lugar por ume bibliotecárie. E nisso nunca mais se unam, e a coincidência entre Beuys e Iberê vá se perdendo, minhas palavras aqui sumindo, sumindo essa memória de 2011. Ou, talvez, uma das imagens seja vista entre as páginas do livro de seu correspondente e testemunhe uma pista, quando muito, sobre o contato improvável entre nós, e a tinta, e o gato, e a lebre, e a morte, e o mel, e o ouro.


