As próprias mãos
(um bilhete para pôr dentro da capa do celular)




É isso, botar os olhos em certas coisas, objetos sem relação entre si. O que está disposto numa mesa. Uma pedrinha no chão. Revirar o fundo da bolsa. Convidar as pessoas, talvez por uma mensagem no próprio telefone: escolhe um, só um objeto, e troca pelo celular que você usa. Deixa o celular no lugar de algo que caiba na mão. Vamos pra fora, longe dele. Sala fechada, tampas por cima, abandoná-lo a céu aberto, se preferir. Caminhar, e ter só isso. Uma folha seca, um pregador de roupa, olhando, lidando, sentindo suas ranhuras. Depois, se quiser, volta, abre o pote, retoma o celular, ou aceita: perdê-lo. Se a gente quiser, nessa uma hora, uma hora e meia, a gente sai pra almoçar, pega em garfos, colheres, suja os dedos. Segura cédulas, um cartão do banco. Roça as unhas contra o chapisco do muro. Gira a maçaneta da porta trancada. Morde a cutícula; um filete de sangue. 

fotos: rennan carmo