(nas imagens, uma impressão em papel sulfite, frente e verso, que abandonarei, um dia, no chão da central do brasil.)

Por um segundo, levar todas as pessoas que circulam na Central do Brasil, na hora do rush, para um mesmo deserto.

Alguém se acotovelando em meio a multidão, passos curtos em direção à catraca. Enquanto isso, no chão, esta impressão em papel A4, jogada na Central do Brasil, local de entroncamento de estações de trens, metrô, de uma rodoviária intermunicipal, inaugurada em 1858 no Rio de Janeiro, uma das mais massivas vias de circulação na cidade. Agora pense: foi ao longo das linhas férreas que o subúrbio do Rio se fez. Não ao redor do próprio centro da cidade, mas correndo os ferros no chão, seguindo à oeste. Talvez a Central seja tão cheia porque o Rio – mas não só ele – tenha o grosso de sua cidade cimentada num vai-e-volta. Como se o trem fosse um sofá de casa e as estradas se fizessem pracinhas possíveis. Como se o concreto caminhasse, com bueiros se movendo lentamente, edifícios se arrastando, bocejando, as calçadas indo trabalhar às cinco da manhã.

(fotos: Rafael Salim)