Um blog a menos.: e-mail enviado para o técnico de informática e youtuber William Azarado.

Oi, William.

Um dia, percebi que eu não conseguia abrir certas páginas da internet. Não o YouTube, Facebook, Instagram: eram páginas de blogs, portais feitos no WordPress, sites que eu carregava, apertando o botão F5, e quase nunca concluíam seu carregamento. Diziam algo como “esta página web não está disponível”.

Comecei, a partir daí, uma saga em busca de solução. Limpei o cache e o histórico do meu navegador, percebi a mesma ocorrência em meu celular, busquei alterar configurações de DNS, até mesmo reiniciar meu roteador. Nada resultava no fim do problema. Cheio de incertezas, entrei em contato com o provedor de internet, que enviou um técnico até minha casa:

– Falaí, meu bom! Quê que tá pegando?

– Então, parcero, ó que bagulho estranho: alguns sites tão entrando, mas outros não. Se carregam, é só depois de umas dez tentativas!

– Hum… peraê.

– Já tentei de tudo, cara. Mudei DNS do computador, limpei cache, reiniciei meu roteador, mas nada! É um bagulho que, inclusive, tá rolando em todos os aparelhos daqui de casa.

– Já é. Tô tentando abrir aqui esses sites no meu celular e abri um chamado pra ajustarem tua rede, tá ligado? Mas esse bagulho aí tá estranho… sei lá. Esses sites que cê tá entrando são do Brasil mermo?

– Alguns são. Mas é estranho. Eles não tinham que funcionar independen…

– Ih, mané. Esses sites que tu tá entrando tão mandado, ein! Hahaha!

A conversa não desenvolveu muito para além daí. Nem precisaria dizer: a vinda do técnico em nada resolveu o que se passava. E eu, desacreditado, parecia àquela altura o único que percebia qualquer problema acontecendo.

Convivo com mais quatro pessoa em casa. Meu sobrinho usa celular para acessar a internet e, pelo que observo, é jogador online cativo. Minha mãe de quase setenta anos consegue passar um longo tempo sem tecnologias dessas, mas usa o aplicativo do seu banco para pagar as contas. Já minha irmã e meu cunhado têm celulares para, quase que exclusivamente, assistirem audiovisual. As risadas e os sons que saem dos alto-falantes e de suas gargantas chegam até meus ouvidos, por isso sei.

Por fim, sobra eu. E talvez só eu seja quem ainda visite websites utilizando a rede Wi-Fi do meu lar. Jogar, ouvir, assistir filmes e vídeos, pagar contas, tudo isso prescinde do uso de páginas autônomas na rede. É facilmente realizável ora por aplicativos, ora por redes sociais. Não há necessidade nem de se sair de dentro do WhatsApp para assistir um vídeo do YouTube enviado numa mensagem, por exemplo. E eu conheço bem minha casa: fácil fácil que a queda na internet iria fazer alguém se manifestar raivosamente num outro cômodo. Mas era só eu que percebia esse defeito. Só eu sentia a falta de certas páginas que não o Facebook, que não a inoperância de um app. Após a saída do técnico que foi enviado – e que foi embora de minha casa achando que o problema relatado não existia, que era um defeito das páginas que eu visitava -, percebi com mais firmeza como tenho feito um uso antiquado da internet hoje em dia, em 2020.

Tenho escrito um blog. Quer dizer, falar que escrevo um blog é equivocado. Mais correto seria dizer que tenho encerrado um blog, dia após dia, a cada postagem. Seu nome é ‘Um blog a menos.’ e está neste endereço: https://umblogamenos.blogspot.com/.

Nele – e por isso é incorreto falar que o escrevo – simplesmente coleto os últimos posts de diversos blogs perdidos na world wide web. Mas somente os posts que dão justificativas, pronunciamentos, porquês para o fim das páginas. É o caso do blog ‘Musings of life’, que tem no seu último post as palavras do pai de seu autor, comunicando a morte do filho, que há mais de vinte anos sofria com uma doença degenerativa. Uma série de blogs vinculados ao projeto Amores expressos, proposta da Companhia da Letras a alguns escritores, tiveram tocantes postagens de encerramento a partir de 2007. Há também muitos blogs com encerramentos mais prosaicos: mudanças de endereço, criação de websites pessoais, abandono de plataformas antiquadas. Vi muitas páginas Blogger abandonadas, mas também pude verificar Tumblrs com pontos finais, blogs institucionais, páginas de jornalistas alimentadas há muitos anos que, quase subitamente, encontrei esquecidas e finalizadas num site de qualquer portal da grande imprensa. E me permiti colecionar também alguns sites que, a despeito de não serem blogs por assim dizer, tinham em muito uma pulsão por registro diarístico. Por isso o ‘Um blog a menos.’ contém certas palavras finais de newsletters e, pioneiro a elas, também contém o texto que finalizou ‘Cardosonline’: reunião de fanzines, em formato de e-mails, enviados por escritores sulistas à milhares de caixas de entrada, entre 1998 e 2001.

São alguns exemplos que trago para dizer: poderíamos ter mais interesses por essa literatura-de-fim-de-blog. Tantos são os filmes que retratam a morte biológica, tantas são as epopéias a tratar do término da vida. De contornos trágicos, essas obras de arte nos põem de frente com encerramentos de vidas que não nos parecem prosaicas, e quase sempre são mortes de seres como nós. Enquanto que temos entes que, profundamente vivos, morrem, e não os pensamos assim. É certo que a vida e a morte deles não poderiam ser como as nossas: não são seres biológicos por assim dizer. São documentos, páginas de internet, palavras escritas. Não foram animados pela chama misteriosa que acendeu e, um dia, apagará dentro de nós. Mas – e não deveríamos esquecer – suas vidas e mortes são coadunadas às nossas. Como coisas nascidas de nossas mãos, coextensivas às nossas memórias, vivem na mesma medida em que nos fazem sobreviver, morrem e nos matam um pouco quando se vão.

Se não, qual seria o sentido de ver alguém perguntando se “a internet está morta”? Pois foi o que encontrei ao ler as palavras de uma mulher chamada Hito Steyrel, dizendo que há uma internet não exatamente viva, mas morta-viva, afeita à vigilância e ao controle, em extrema discrepância com o que constituiu o ambiente virtual em que cresci como adolescente.

Como num ataque zumbi, temos agora uma internet que nos aparece por todos os lados. Nem tanto uma interface, é agora uma rede virtual que modula nosso meio ambiente. E por isso comanda a vida cotidiana: desde transações bancárias até anúncios em outdoors virtuais, tudo é informação transitável, sem fios, por nuvens de dados. Nela, as dinâmicas de distribuição se tornam mais e mais centralizadas. Antes baixávamos mp3 de muitas fontes, agora ouvimos músicas por streamings de uma ou duas empresas, não mais que isso. Antes, nos revezávamos entre os mensageiros ICQ, MSN e as páginas HTML. Agora, muitos vivem imersos nas redes sociais, como se o Facebook Inc. os tivesse engolido, lhes fazendo desaprender até mesmo a como abrir uma aba em um navegador. Talvez por alguns de nós que Hito Steyrel tenha usado essa metáfora: chamar a nossa internet de zumbi, morta-viva, me faz pensar que, por estarmos vivos, nós, algumas das pessoas que usaram a internet de uma maneira menos conduzida, estranhamos a realidade asséptica e algorítmica da internet de agora. E por isso nos perguntamos sobre a morte dela. Não sei bem, mas reconhecemos um tanto menos de vida em seu maravilhoso funcionamento. Talvez por isso só eu tenha percebido o problema em minha casa. Porque temos uma rede mundial super tecnológica, cheia de vantagens, que se desenvolveu a beça, sabe? Nem todo mundo se importa com isso – com o fato dela ser, lá no fundo, uma zumbi.

Isso me lembra uma história. Hossein Derakhshan foi preso, no Irã, por coisas que postava em seu blog. À época, ele era como um rockstar: tinha cerca de vinte mil acessos diários em seu endereço, incentivava iranianos e iranianas a se compartilharem em páginas pessoais, poderia constranger ou enaltecer quem quer que fosse através de umas poucas palavras. Suas declarações como iraniano tinham imenso vulto político no país, cujo Estado busca controle da internet dia após dia. E esse foi o contexto em que sua prisão – por suspeita de espionagem para Israel, propaganda política e insulto a figuras religiosas – se concretizou. Foi condenado a vinte anos na cadeia, dos quais cumpriu apenas seis. Um dia, surpreso, foi avisado publicamente pelos alto-falantes da prisão onde estava, em Evin: “Queridos prisioneiros, o pássaro da sorte mais uma vez pousou sobre os ombros de um de nossos companheiros. Senhor Hossein Derakhshan, você está livre a partir de agora”.

Contudo, a realidade que encontrou do lado de fora lhe pareceu de ponta-cabeça. Duas semanas depois de sua chegada em casa, decidiu escrever um blog. Já sabia, por amigos, que a era geológica da internet havia mudado; que, agora, era necessário se engajar em redes sociais para promover seus escritos. Assim o  fez. E qual não foi sua surpresa ao descobrir que o hiperlink de um blog, quando postado numa timeline, parece um anúncio chato dos classificados? Sem imagens, sem descrições, com um título voando no meio do nada e num design pré-formatado nada atrativo; seu mais novo texto – compartilhado em seu perfil do Facebook – recebeu somente três curtidas.

Eu queria fazer algumas contas, mas os números já surpreendem por si mesmos: de 20.000 acessos diários a 3 curtidas, muita coisa realmente mudou. A partir disso, Derakhshan chega a comentar que não vivemos no futuro da internet, e sim no futuro da televisão: onde qualquer declaração trivial de uma celebridade recebe mais engajamento que o parágrafo genial de uma blogueira. Daí, temos toneladas de textos, vírgulas e mais vírgulas, letras escorrendo pelas bordas da internet como algo excedente. Poderíamos até não ver nada além dos filmes da Netflix, mas ainda assim teríamos um tanto de blogs abandonados, cheios de conteúdo, surpreendendo por vezes os olhos dos desavisados que abrissem seus hiperlinks. E acho que o que coleciono dessas páginas em meu blog é pouco: são somente suas últimas palavras, seus últimos suspiros. Porque há nelas, antes de seus pontos finais, uma grande quantidade de textos, aparentemente infindável. E se essa grande quantidade estivesse numa só frase, imensa, eu me percebo curioso: quanto tempo demoraria sua leitura?

Pois tento pensar em que tipo de leitor leria tal frase. E reconheço rapidamente que não consigo imaginá-lo. Não há um só tipo a quem eu pudesse atribuir a tarefa. Monges em clausura, nerds ermitões, bibliófilas, acadêmicas, ninguém, absolutamente nenhum humano me parece capaz de cumpri-la. É algo que testemunha a falência de todas essas palavras digitais. Em certa medida, testemunha inclusive a falência de toda e qualquer palavra, de nossos acúmulos em livros empoeirados, em tantas bibliotecas que nossa espécie nunca dará conta de ler. E talvez faça mesmo sentido falar da internet em termos de morte, ou falar dela como uma morta-viva. Se autores escreveram blogs que deixarão de ser vistos mas, ainda assim, existirão ocupando espaço na internet, podemos pensar, por fim, que sua audiência última, derradeira, será a dos bits, dos gigabytes, da maquinaria tecnológica que a mantém viva para ninguém além dela mesma. Também é por isso que enxergo a internet sem vida; na medida em que lhe falta e lhe faltará companhia humana em certas partes suas.

Lidamos com uma rede que parece independente de nossos comandos, habitada por inteligência artificial e algoritmos que nos preveem de modo cada vez mais acurado. Nos vigiam, conhecem nossos gostos, nos oferecem umas paradinhas que queremos comprar. E por se mover com eles a internet pode nos parecer vigorosa, fazendo-nos duvidar de qualquer argumento a respeito de sua falência. Mas voltemos às suas letras esquecidas. Aos seus parágrafos, blogs perdidos. Voltemos a organizar suas muitas letras numa só frase.

Em 1994, Douglas Davis deu início à primeira frase feita colaborativamente por todo o mundo. Com a ajuda de uma galeria de arte em Nova Iorque, criou uma página na internet que permitiu a seus visitantes escreverem coletivamente. Apesar disso, havia uma instrução, previamente posta no site, que não conclamava quem o visitava, mas sim a todo o planeta. Ou seja: à escrita dessa frase não havia um convite à população do globo, mas ao globo mesmo.

Talvez por esse convite tão amplo a sentença não era redigida somente com letras: havia nela fotografias, sons, faxes, links etc. Mas a esse texto, a despeito de tantas liberdades, havia uma regra: não terminá-lo com um ponto. Dessa maneira, a frase continuaria uma, tornando-se imensa. E Douglas previa, com isso, que seria a maior já escrita.

Ainda assim lhe estipulara um fim. O dia 15 de fevereiro de 1995, ou quando a frase atingisse a extensão de um pouco mais de quatro quilômetros, marcaria o momento em que a pontuaria. Em certo momento, contudo, havia se passado meio ano desde a data exata de sua criação. A frase já tinha o comprimento de alguns quarteirões quando Douglas percebeu que não queria interrompê-la. Foi quando enxergou que só haveria justiça se fosse o próprio Deus a lhe dizer “chega”, a encerrá-la; que só Deus poderia parar o mundo. Foi então que Davis se eximiu de dar-lhe o ponto final.

A partir de sua decisão, acreditava que a frase continuaria crescendo enquanto o mundo existisse. Era 1995, e se pensava a informática como aquilo que permitiria à informação ser transmitida idêntica, através de eras e gerações, diferente do que ocorrera até então, por exemplo, com a xerox e os videocassetes, que copiavam informações sempre lhes manchando um tanto. Mas voltemos a 2020. Agora, a primeira frase colaborativa do mundo é parte do acervo de um museu estadunidense. Com o passar dos anos, a experiência da frase deixou de funcionar. Os links dela já não abrem. Alguns de seus caracteres coreanos tornaram-se ilegíveis. Arquivos cruciais foram perdidos. E apesar do museu ter criado uma segunda versão da frase em 2013, novamente passível de interação, ela já não funciona.

Então é isso: uns anos podem ser mais que suficientes para tornar algo da internet uma peça de museu. Dos blogs encerrados, por exemplo, vi muitos que existiam até pouco tempo atrás. Tem um que acabou faz pouco tempo. No início de 2020, agora. Que engraçado…

Digo, não há muito por que citar mais um blog neste e-mail que te envio, William. Mas me recordo com tanto carinho dele… Veja: não era um blog profissional, de um prêmio Nobel, jornalista, nada disso. Seu último texto falava de coisas prosaicas. Falava sobre a espiritualidade, que lhe intuiu a escrever um post de encerramento. Falava sobre o baque da morte de seu pai, dos cuidados com a mãe, falava sobre não deixar um adeus definitivo, dando esperanças de um retorno àquela página. Era tudo tão pessoal, tão confessional, que me pareceu, de súbito, uma janela aberta em meio aos montes de textos engravatados na internet afora. E agora, lhe escrevendo sobre isso, vejo semelhanças com quando eu soube de pessoas que se emocionaram ao encontrarem certos vídeos no YouTube. Tem a história de um homem solitário que, ao procurar uma música, encontrou-a como trilha sonora em um vídeo simples, de alguém consertando sozinho a porta de sua casa – e a de outra pessoa que viu, com lágrimas nos olhos, um vídeo em baixa resolução de uma estrada chuvosa, com certa canção antiga ao fundo.

São vídeos feitos por pessoas comuns, assim como esse blog de que me recordei. Vídeos e palavras encontradas de surpresa: por pessoas que buscavam até então uma música no YouTube; por quem, porventura, abriu um navegador e seguiu por links antigos. E sei que falei da internet como uma morta-viva. Sei que falei dessas páginas perdidas na web como partes mortas de uma internet zumbi. Mas mudei de ideia. Talvez, em contrapartida, elas sejam o suspiro de uma internet ainda viva. O suspiro de uma internet feita por pessoas. E não por profissionais, celebridades e grandes empresas.

Seu vídeo também me foi um suspiro dessa internet feita por pessoas, William: um vídeo antigo, no seu canal do YouTube, de 2015, que me ajudou profundamente em meu problema de rede. Seu título é “Estou conectado, mas não abre páginas.” e, apesar das suas mais de um milhão e trezentas mil visualizações – prova do tanto de gente que foi afetada por esse problema -, é um vídeo bem simples, curto, direto ao ponto. Tem uma captação de áudio com um microfone caseiro, não é um vídeo com cortes, é feito de uma captura direta da tela do seu computador. Tem nele certas inserções de frases engraçadas, como os balõezinhos de diálogos que aparecem no cachorro retratado na tela do seu desktop. E a primeira solução oferecida por você: a configuração manual do DNS no computador.

Eu já havia tentado mudar o DNS no meu notebook. Como disse no começo deste e-mailzão, nada tinha dado certo. Nem o técnico tinha dado certo. Mas decidi retornar a procurar dicas no YouTube. Buscando instruções novas, encontrei seu vídeo. Lhe assisti uma vez e o deixei de lado, pensando “Ah, Já fiz isso!”. Mas voltei depois de algum tempo, desolado pelo cenário que via surgir na minha frente, da impossibilidade de utilizar plenamente meu Wi-Fi. Foi quando atentei a um pequeno detalhe, esquecido por mim: ao final das configurações, depois de preencher o DNS nas propriedades de protocolo TCP/IPv4, ouvi e vi seus gestos ao dizer: “e dá OK”, seguido de um outro “OK”, ao clicar nos OK’s das janelas abertas em seu computador.

Juro que foi isso: meu problema, conquanto já tivesse encontrado solução possível na reconfiguração do DNS, restava no meu esquecimento em dar OK na página. Só isso.

Ri muito. De felicidade também. E posteriormente cheguei a configurar o DNS direto no meu roteador. Encontrei outro número que me atendeu melhor que o que aparece em seu vídeo. Fiz meus ajustes. Tudo está bem com minha rede. Daqui, só vim lhe dizer de tudo isso para lhe agradecer com generosidade. Foi contigo que me informei do quão importante é saber que OK’s são parte fundamental dos problemas que temos. Atentar com calma a todas as etapas do processo – inclusive as mais miúdas, como apertar os botões de confirmação – se equipara a olhar, enternecido, em direção aos detalhes mais apequenados na internet de agora. Observar esses sites perdidos, esses vídeos caseiros, essa literatura-de-fim-de-blog e poder se emocionar por vê-los, por continuar navegando, por ainda conseguir participar de uma internet feita à mão, entre ajustes de TCP/IPv4 e sites do tipo GeoCities-anos-90. Penso: a primeira frase feita colaborativamente a partir da internet, guardada e paralisada num museu, ainda assim pode ser lida e testemunhar o princípio da sobrevida de uma rede de computadores humana e caseira, que desestabiliza os streamings, os  grandes portais, as redes sociais, lhes mostrando no que são zumbis, sem tanto fôlego, sem variedades. Lhes mostrando não muito diversos, mas com portas, saídas. E, assim, apontando o lado de fora dessa internet-morta-viva através de uma janela aberta. Numa outra aba, num navegador.

William, muito obrigado.

Atenciosamente,

“um proferimento performativo será, digamos, sempre vazio ou nulo de uma maneira peculiar, se dito por um ator no palco, ou se introduzido em um poema, ou falado em um solilóquio, etc. […] Nossos proferimentos performativos, felizes ou não, devem ser entendidos como ocorrendo em circunstâncias ordinárias.”

[de J. L. Austin, no livro Quando dizer é fazer.]

 

Tô um tempão olhando as telas. E nas telas só são 3 coisas: vídeo, áudio ou textos. Digo isso pra dizer que, daqui, sinto falta do cheiro, da temperatura, dessas paradas. Sinto falta do cheiro do capim daquele espacinho que eu costumava pisar pra ir e voltar da universidade. Sinto falta da chuva me pegando de surpresa, das poças de lama sujando minhas calças. Três meses que tenho me permitido estar isolado, em casa. E tenho percebido, agora, do que meu computador não tem dado conta. Engraçado eu ter acreditado, nem que por um momento, que ele poderia dar conta de alguma coisa. Vai ver é porque ele se propõem a mim como um ilusionista, representando meu mundo miniaturizado no seu ecrã.

Isso me faz pensar. Quando nós, humanos, falamos ao vivo, nossas informações são enviadas com sensações térmicas, ventos, suores, toques… O que o nosso corpo sente é um dado tão importante quanto o que ele escuta. E isso tudo compõem, ao final, a mensagem do que nos vem.

Já quando usamos sistemas informáticos, celulares, computadores, relembramos porque alguns chamaram nossa era como a da economia da informação. Tudo que circula nos navegadores e redes sociais é informação, e ali, caso se queira fazer sensações, ventos e calores presentes, elas e eles precisariam ser codificados para, só aí, serem – talvez! – assimilados pelas pessoas que recebessem os códigos cifrados. Num cenário como esse, é fácil perceber que só quem é mais bem aparelhado dentro da informática das máquinas, das letras, das imagens, dos áudios e vídeos, só essas pessoas estão aptas para, mais que entender, sentir frente à uma tela. É mais um capital que nem todos têm.

Por isso tenho cogitado a existência de homens e mulheres insensíveis à tela, sabe? Homens e mulheres que, ainda assim, usam e assistem a tela. Essas pessoas insensíveis, empobrecidas do capital sensório que só a informação transmite, avaliam o mundo virtual com o pouco que têm. Mas suas medidas, ocas, impossíveis de serem mensuradas por dentro de suas carapaças vazias, formam opinião em pé de igualdade com a opinião formada por aqueles com o mais sólido e inteiriço olhar capaz de sentir pela informação. A produção informática é tanta que os critérios dos que a fazem passeiam pela mesma definição que lancei acima: dos que leem, insensíveis, algumas telas. O embaraço é tamanho, perceba, que já não há porque falar somente em nome de pessoas insensíveis que recebem as letras, as imagens e os sons. Falo também de insensíveis que produzem as letras, sons, vídeos, imagens ou o que seja. Falo, talvez, das pessoas que são acusadas de serem robôs, floodando as redes sociais em defesa de fake news. Falo dos mais velhos, com um celular numa mão e a bíblia na outra. Falo da juventude, enxurrada por problemas que veem através de releituras meméticas, dum humor violento que corre timelines. Falo dos sabichões – mas olha só!: eles nada sabem sobre o que é vaporwave. Falo de mim.

Convenhamos: não há porque ficar falando de gente insensível: todo mundo é sensível em algum ponto. E nem de gente sensível! Frente a essas coisas, percebo inclusive em mim que temos muito duma pele carrancuda. É difícil sentir dessas telas.

Então vo mudar meu jeito de falar, tá?

 

 

 

(Mas antes:

É… então… Pensando nas conversas que eu tive recentemente com…. própria Silvana… é… e com outras pessoas também, sobre… é…. a falta que eu tenho sentido sobre… falta da oralidade, assim… já que tô ficando muito no digital. Falta de responder com a voz. De… vindo de um certo receio de desaprender a falar, eu optei por responder… esse e-mail com a voz. Mesmo.

Esse é o Robledo. É um amigo que, um dia, decidiu nos responder um e-mail coletivo sem palavras digitadas, só com um áudio anexado; gravação da sua própria voz, da qual extraio o trecho acima, seu primeiro dizer.)

Fwd: Desculpe pela demora é um projeto que buscou retomar trocas de e-mails interrompidas. Por meio de uma convocatória pública, recebi dezenas de mensagens — com dias, meses e até anos de atraso — cobrando respostas que nunca vieram ou se desculpando pelo próprio atraso. Ao longo de um mês atuei como um mediador entre remetentes e destinatários, promovendo uma espécie de anistia temporária para e-mails atrasados.

Atualmente, estima-se que 145 bilhões de e-mails sejam enviados diariamente em todo o mundo e que mais de 11 horas semanais sejam gastas por seus usuários para ler e responder essas mensagens. Mas essa escalada promovida pela tecnologia apenas nos faz recordar de uma verdade antiga: como qualquer tipo de transação econômica, também a comunicação configura-se como uma dívida. E um círculo vicioso, pois é ao mesmo tempo necessária e impagável.

É o que diz o escritor argentino Ricardo Piglia em seu romance Respiração Artificial, de 1980: “Não é o caso de confundir a correspondência com uma dívida bancária, embora de fato haja alguma ligação entre as duas: as cartas são como letras que se recebem e se devem. Sempre se fica com um pouco de remorso em relação a um amigo a quem se deve uma carta, e nem sempre a alegria de recebê-las compensa a obrigação de responde-las”.

Daniel Jablonski, 2017.

carta tem muito a ver com casa, né? cada dia mais tenho percebido isso

 

[…]

 

cassio, teve um dia que eu tava conversando com celio pelo google duo. tava falando com ele sobre meu gosto atual em mandar cartas. em como tem me feito estar feliz enviar cartas pra lugares, pessoas com quem até então ainda não tinha contato. e, conversa vai conversa vem, ele disse que nem todo mundo pode receber suas correspondências em casa. logo eu, que sempre precisei receber as cartas e correspondências suas e do seu irmão na minha casa, tive que ser relembrado disso de novo por ele, ha essa altura do meu encantamento pelo que vem e vai nos correios. quem vive em favelas não tem esse serviço disponível como nós que vivemos na rua. Para além das balas, da pobreza, dos deslizamentos de terra, das valas abertas, os envelopes não chegam tb, é óbvio.

Eu tava com ela em Búzios, e ela tinha mania de carta. Ela mandava muita carta, pra todo mundo, né? Carta, carta, carta. Aí eu disse: “Ana, vamo fazer um livro.” […] Então eu falei: “Ana, escreve uma carta longa aí, uma cartona, e a gente faz um livrinho chamado Correspondência Completa.” Não é a correspondência completa e é uma carta só, aqui dentro. […] aí foi tudo xerox aqui dentro. Cortado com a mão e grampeado. E […] ele começa na segunda edição, esse livro. Ele é todo mentiroso. Eu acho engraçado porque Ana Cristina se deliciava com o engano, enganar. Então ele não tem primeira edição. Eu me lembro tanto desse momento em que a gente botou a segunda edição. Ela disse: “Os bibliófilos vão ficar procurando a primeira edição, e não existe.” Então eu tô contando esse episódio porque eu acho que isso tem a ver com a estética dela, com a dicção dela. Ela realmente tinha isso. “Cadê a primeira edição?” Começou pela segunda. Quer dizer, é sempre um despistar. Ela bota atrás uma bibliografia dela falando de uma coisa que não existe. É o próximo, na gráfica, no prelo. Ou então é o livro anterior. Enfim, é um livro que não existe. Quer dizer, é de enlouquecer um cristão, que sai procurando. Gente que faz tese, coitada…

Heloisa Buarque de Hollanda sobre Correspondência Completa, publicado em 1979 por Ana Cristina Cesar.

 

(a correspondência, por exemplo, é por natureza uma escrita perdida)

ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. Revista Estudos Históricos: Arquivos Pessoais. v. 11. n. 21. Tradução de Dora Rocha. Rio de Janeiro. Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas. Janeiro-junho de 1998. p. 10.

 

Cássio Andrade me enviou hoje, às 1:52h:

Oi, estou lendo este eBook e gostaria de compartilhar esta citação com você.

“Desde a segunda das Considerações intempestivas, Nietzsche aponta o esquecimento como uma força plástica fundamental para a vida. É possível viver quase sem memória, ele diz, mas é impossível viver sem o esquecimento. Neste texto em que discute as vantagens e desvantagens da história para a vida, Nietzsche considera memória e, consequentemente, história coisas que devem ser tanto afirmadas quanto negadas. Em outras palavras, lembrar somente é importante se a capacidade de esquecer for mantida. Tanto o sentido histórico quanto sua negação são igualmente necessários para a saúde, tanto de um indivíduo quanto de uma civilização. Esta relação memória/esquecimento vai ser tratada de forma ainda mais elaborada em Genealogia da moral[51]. Ali, o problema vai ser pensado a partir de uma reflexão sobre a consciência. A consciência é apontada como possuindo duas faculdades, a memória e o esquecimento. Nietzsche utiliza a imagem do estômago, “o ‘espírito’ se assemelha mais que tudo a um estômago”[52], para se referir ao papel da consciência: ela “digere”, na medida em que assimila ou rejeita, selecionando, simplificando, reduzindo, processando. A capacidade de lembrar fixa as impressões, produzindo uma camada de sentido que funciona como um fundo ou um lugar de reconhecimento. A partir desse fundo as novas impressões que chegam não são sentidas, mas reconhecidas pelas marcas mnêmicas; o que termina por produzir uma repetição, uma “digestão” do já sentido. É a memória, portanto, que torna possível a promessa e, consequentemente, a responsabilidade e a culpa. Através da memória o ser humano fixa as leis e pode prometer. Isto significa que a memória, ao contrário do esquecimento, que é uma necessidade, uma força, uma forma de saúde, é um produto da cultura. “Como fazer no bicho-homem uma memória?”, pergunta Nietzsche, e, mais adiante, “grava-se algo a fogo, para que fique na memória: somente o que não cessa de causar dor fica na memória”[53].” (from “Nietzsche e a grande política da linguagem” by Viviane Mosé)

 

Hoje, quem faz um blog faz um túmulo.

Por isso chamo o meu de arquivo: a função dele não é mostrar, mas guardar o que faço. Portanto, usar o nome arquivo para nomeá-lo marca o momento em que se tornou claro para mim esse aspecto do meu site como uma gaveta. E tornar visível o que essa gaveta guarda não é responsabilidade dela, é óbvio. É minha. Deveria falar então sobre o que nos trouxe até aqui, e por onde essas coisas andaram, se andaram, até entrarem gaveta adentro.

(mas e se a gaveta falar sobre ela mesma?)

Responder e receber e-mails tem sido o que tenho feito. E não quero divulga-los, para proteger as conversas pessoais que ali correm. Aí há minha complicação em ter e-mails, cartas e mensagens como ação artística, ao mesmo tempo que como minha monografia: por vezes, o texto desta dissertação precisa estar escondido aos olhos do público, porque escrever para outras pessoas, sendo meu trabalho, me pede para cuidar das minhas relações com mais importância que o cuidado que dedico ao conhecimento universal, universitário.

Claro que há uma estranheza em chamar isso de trabalho de arte e trabalho universitário. Um amigo mesmo, conversando comigo, me fez notar que o que faço, dessa maneira não anunciada como prática artística, ocupa não tanto o lugar do que há de artístico no mundo, mas sim de qualquer outra coisa, e principalmente: da comunicação usual, da carta, do e-mail. Talvez eu deva assumir: me seduz essa possibilidade de algo feito com intenções artísticas ser visto como outra coisa, mais comum, e passível de ser respondida, não somente recebida, pelo mesmo canal que ela abre: dessas escritas que são enviadas por qualquer um, como as com um carteiro. Num segundo ponto, talvez eu chame como pesquisa e como arte algumas de minhas mensagens por estar aqui, mestrando e envolvido com a cena artística. Mas me envergonha a possibilidade de que pensem que situo mensagens em arte e pesquisa como forma de qualificar meus textos num patamar acima do ordinário. Sobre isso, eu gostaria de dizer que, justamente, é da busca pelo ordinário que colho os efeitos do que gosto de produzir. “E o que você produz?”. Eu respondo, mas pode soar um pouco patético esse ritornelo: eu escrevo umas cartas.