Hoje a bandeira foi reinvindicada por outra pessoa, que a me pediu de presente, e foi embora de mim rumo à baixada fluminense, onde nunca vou, mas de onde flamulará por agora.
Gostaria de ratificar que essa bandeira, esteja onde esteja e seja lá que forma seu tecido assuma, sempre será bandeira, e que, encoste onde encostar, independente de em qual corpo repouse, continuará sudário. Digo isso porque, por imperceptível que seja a tods além de mim, é bandeira e sudário esse linho de que falo; nada muda suas manchas, que eu bem tentei tirar com alvejante, mas que lá estão, típicas de uma bandeira, já que toda bandeira manchará. E toda bandeira, visto isso, tem um tanto de sudário. Tocada por quem a hasteia, secará alguma gota de suor, por mínima que seja. Mas isso é outra história.
Contendo coisas que encontrei e julguei perdidas desde 2015, e estando antes trancafiada em meu quarto, enquanto não tomava coragem de lhe dar uma nova rota – como dei a mim mesmo, ainda que mantendo comigo tal resquício dos achados e perdidos -, pus essa caixa de papelão na calçada da casa onde moro, onde também deixamos cotidianamente o lixo e os recicláveis, dispondo-os à coleta.
Trabalho monitorando um museu, o que tem me evocado minha imobilidade quando nesta função versus o estado de ação a que associo os artistas quando olho suas obras expostas. Mas que estranho é crer essa condição de ação permanente nessas pinturas, esculturas, nesses não-objetos… é como se, a cada mirada, elas se ressemantizassem como a presença da ação de um outro, em antítese ao nosso estado sedentário, já que espectadores. Claro: associar o sedentarismo como condição do meu e do seu espectar incorre numa redução grosseira da vigilância do olhar à nada, como se fruir fosse pouco, uma condição inativa. Mas fruir, frente a corpulência do pintor que emerge de sua pintura, é só olhos. É disso que falo, dum fato estritamente relativo ao movimento da mão que pincelou uma tela, do tensionar do braço ao desbastar no alto da escultura, do compasso do dedo que tamborilou clicando na câmera fotográfica, ou mesmo das pernas e da voz indo de lá a cá para viabilizar esta exposição onde estou. Ó: acho que vemos a cinética do artista ao olharmos suas peças inertes; já nosso corpo, ainda que em ação constante, não reside deste modo indicial num objeto público, e ver tantas imagens faz mal. Essa última frase foi o que ouvi da Mariana quando foi monitora comigo e não dava sinais de vida como as coisas que vejo aqui; penso que nossa condição como espectadores é diferente da de quem só vê. Mas talvez as imagens de que ela falou sejam menos a do bronze que a da pátina no bronze, nos dizendo do quão rápido pereceremos, que não há sedimentação possível na brevidade da carne, que enrugamos e morremos o corpo sem sequer suportar o grão, empoeirarmo-nos… Mas não… não podemos usar o verbo desta forma. Por nos movermos é que também não haverá poeira em nós, diferente das coisas estanques neste museu, ainda que, no núcleo invisível em cada uma delas, haja uma dinâmica que nunca haverá no nosso próprio âmago. É, nos movemos da pele pra fora, mas pouco por dentro – um coração pulsando, a filtragem nos rins, não tanto mais que isto – e uma pintura se move da pele pra dentro, pouco por fora. Pra ser mais exato, somente quando ocorre um princípio de sinistro, como quando esbarraram num quadro do Taunay e o deixaram inclinado, é que esse externo movimento se torna visível, pelo menos para mim. Reconheço, contudo, que há quem espreite os moveres ínfimos duma peça dessas, como aquele meu professor de química, quando disse que até os carbonos da Monalisa continuam se transformando em qualquer outra coisa que não ela – e que eu nem ninguém saberia dizer com propriedade que outra coisa é -, e que, visto isso, nada durará duma mesmíssima forma para sempre. Mas quanto às movimentações internas em uma obra, elas não são as de ordem física, como as de nossos órgãos. O pulso da madeira é inaudível; não falo do ranger das cadeiras às três da manhã, hora do diabo. E seus cupins nada sentem dessas pulsações, já que morrem como nós. Mas, estranho que seja à nossa efemeridade, somos nós os espectadores das obras de arte em sua completude; não só em sua face estável, mas nesse seu interior movente que não apreendemos pelos sentidos mas, ainda assim, sabemos existir. Por isso, agora, assumo que eu mesmo fico confuso… o que eu olho quando lhe olho? Cê parece tão móvel quanto parada. Cê parece tão eterna quanto eu… minha eternidade me é nos meus momentos de lapsos de memória, nesses em que não digo do meu fim à narrativa em curso. E eu nunca vi você falar de seu próprio fim, pintura. Nisso realmente nos parecemos. Caso fosse por esquecimento seu talvez fôssemos idênticos. Mas essa sua capacidade de andar parada e de, portanto, me fazer sentir parado até quando ando me cansa um pouco. Gostaria de lhe falar sobre isso. E por isso adotei essa forma de escrever agora, como se lhe endereçasse. Tive vontade de me fazer ver como alguém mais próximo, mesmo que em monólogo. Acho que é porque só me entendo como alguém especial, destacado do resto do mundo ordinário, quando experiencio a solidão, e não dá pra estar sozinho quando com todos esses não-objetos, tão mais especiais que eu, os quais muites vêm para vê-los, e não a mim. Daí, quando escrevo, posso escolher endereçar ou não; conjugar-me, conjugar-lhe, falar ‘nós’. Contudo, mais conjugo-me; mais sou eu. E por ser eu, serei só, e só, serei singular, especial. Mas não basta isso: este texto é na relação conflituosa entre eu e você. E que texto não é? Ainda que escrevamos em solidão, inscrevemos em nós o alfabeto; nos atamos por ele. Aceito, frente a isso, que falo pra você desde o princípio disso aqui. E eu já nem sei se é um humano, uma obra, uma galeria… talvez seja pouca a diferença, já que eu mesmo não desejo a diferença entre o eu carne e o que eu escrevo agora. Há uma continuidade, assim como na foto que vejo, autorretrato do homem Tião, retrato por ele mesmo retratado; tudo dele a carne. Mas o pó continua a não se sedimentar em mim publicamente, já que não resido em exposição num algo meu, já que somente escrevo. Mas pouco importa: daqui, imprimirei estas minhas letras apertadas num pedaço de papel qualquer, carregarei onde trabalho, mostrarei a quem, como eu, monitora um museu. Escrevo muito, mas caberá numa folha só. Será mais fácil falar muito em pouco espaço, inscrevê-lo muito, quase por completo, do que querer um lugar maior ou reduzir a escrita, aquilo que macula as superfícies. Mas logo eu, monitor, empregado em preservar superfícies, estou aqui a escrever. O paradoxo se faz: deixo de proteger pinturas, esculturas, a superfície de coisas como essas, para sujar outra superfície de grafite, de tinta, investindo contra sua brancura. Mas estou cansado, já escrevi muito, o tempo do mundo passou por mim e não termino de editar o que inscrevo pelas letras. Devo voltar ao trabalho. Aceito perder: não consigo dar forma ao que escrevo, não me convenci. Mas temo pelo acidente à obra, apesar do sinistro não chegar a acontecer nunca, e nada mudar na vida de um monitor para além do medo que esses princípios irão lhe submeter, por ser sempre ele o responsável caso uma movimentação externa brusca ocorra numa obra, por ser ele pago para ter medo. Por isso eu sou pago para ter medo. E quando não tenho porque ter medo aqui, encontro-me parado, como parados ficam os ascensoristas entre o apertar de um e de outro botão, como parados ficam executivos entre uma e outra tecla em que digitam. E parados não cumprimos função produtiva, mas creio que uma função ideológica, em algo bela; somos como monumentos ao trabalho. Quase que sinto meus órgãos pararem quando paro em serviço pelo serviço, sendo tomado em seguida de um só movimento impetuoso e inaudível dentro de mim. Por trinta segundos fui estátua, fui monumento. Mas não se fez pátina na minha pele, que não é de bronze. A carne é que é matéria e monumento ao trabalho, não minhas palavras, nem seu bronze. Mas disso eu já sabia desde o início. Esse texto me dá a impressão de ser todo meio dispensável frente a isso. Então volto ao seu princípio. Trabalho monitorando um museu.
Estou coletando as escalas que estiveram em seus bolsos das dez até às dezoito horas – ou algo assim -, ao invés de jogá-las fora quando as encontro. As acho por aí mesmo, jogadas, ou elas veem a mim a partir das dezesseis e trinta, quando já memorizarmos tudo, reconhecendo-as inúteis. Coleciono então esses papéis dobrados de fim do dia, um tanto inspirado nos papéis rosa que Rodrigo nos deu e pediu para guardamos no bolso por uma semana e só, devolvendo-lhe, após isso, exatamente como ficaram, amassados ou não. E eu gostaria de nunca mais abrir essas folhas, lembro disso. Gostaria de finalmente conseguir vê-las dobradas. Gostaria de não vê-las escalas. Ver seu papel rosa, quem sabe.”
(escrito no quadro de avisos da gerência de educação do museu de arte do rio)
Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para alguém trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para uma outra pessoa trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para outra pessoa trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para uma outra pessoa trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para uma outra pessoa trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para a mesma pessoa trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para alguém trocar. Com a cédula (e talvez moedas) resultante nas mãos, pedir para alguém trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para uma outra pessoa trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para uma outra pessoa trocar. Com as cédulas (e talvez moedas) resultantes nas mãos, pedir para a mesma outra pessoa trocar. Com a cédula (e talvez moedas) resultante nas mãos, pedir para uma outra pessoa trocar.
<amador.pintura@gmail.com>9 de abril de 2016 01:04
Para: natalia nichols <natalianichols@gmail.com>, luciana Grizotti <lugrizotti@gmail.com>, “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>, Aline Besouro <besouroaline@gmail.com>, Pollyana Quintella <pollyquintella@hotmail.com>, Maria Clara Boing <mariaclaraboing@gmail.com>, Max William Gua Selva <maxwilliammorais@gmail.com>, Leandro Santana <leandrosp_santana@hotmail.com>, heleprib@gmail.com, Helen Polycarpo <helenprib@gmail.com>, Dally Schwarz <dallyschwarz@gmail.com>
Olá, Pessoas!
Durante a roda de astrologia que aconteceu na última quarta-feira, surgiu uma ideia entre os participantes (Eu, Lu e Jandir) que achamos legal e queremos compartilhar com vocês.
A ideia é montar um espaço virtual sobre a produção de cada uma. Assim, achamos que a partir da conversa sobre a produção do outro, possa gerar algum tipo de propulsão, estímulo, referência ou qualquer outra coisa.
Nesse sentido, este é um convite para participar. Quem topa isso?
Para as coisas não ficarem no ar e em um “sim, vamos fazer e nunca acontece” Montamos um pequeno cronograma.
A pessoa que for mandar a produção para o grupo, irá enviar por e-mail o seguinte material
*Produção. (Portifólio / texto/ artigo/ ensaio/ poesia/ pedra/ joelho/ etc.)*MiniBio em 5 linhas*Texto de, no mínimo, uma palavra até, no máximo, uma lauda sobre pesquisa pessoal.
O grupo irá apreciar esse material e enviar para a pessoa alguma resposta sobre o que acha dessa produção. Acho o texto uma plataforma legal, pois cria um espaço de diálogo crítico com a produção do colega, entretanto, pode ser livre também.
Logo após, outra pessoa irá mandar a sua produção e o ciclo recomeça.
O que acham? Quem quiser topar, peço que por gentileza, responda esse e-mail de forma positiva. Também pode ser legal, quem quiser, chamar outras pessoas que não estão nesse e-mail e que toparia entrar nessa ideia.
Aguardamos respostas até o dia 13/04. Por que esse dia? Segue calendário abaixo:
Envio de produção –
Antonio Gonzaga Amador
13/04
Respostas: 27/04
Envio de produção –
Luciana Grizotti
02/05
Respostas: 15/05
Envio de produção –
Jandir Jr.
16/05
Respostas: 29/05
Envio de produção –
aberto a uma próxima pessoa
30/05
Respostas: 13/06
O calendário está aberto as pessoas próximas que quiserem aderir!
achei lindo, podia lançar isso num blog tambeem, por mim ja to dentro da proxima data disponivel
Luciana Grizotti
<lugrizotti@gmail.com>9 de abril de 2016 11:09
Sim. Vai ser incrível. E Aline, acho ótimo a ideia do blog. Eu como sou uma pessoa dos antiquários e memórias, tinha até falado com os meninos que isso poderia gerar uma publicação no papel mesmo. Mas deixa fluir haha. Você então depois do Jandir!
Pollyana Quintella
<pollyquintella@hotmail.com>9 de abril de 2016 11:11
muito legal pssoal. to dentro.
Dally Schwarz
<dallyschwarz@gmail.com>9 de abril de 2016 11:35
Gente,
não consegui ir, mas acho que pode ser bem bacana sim! Vou me organizar pra estar no proximo!
Antonio Amador
<amador.pintura@gmail.com>13 de abril de 2016 23:05
Olá a todos! Boa noite!
Dando prosseguimento ao proposto, compartilho com vocês a minha produção.
Ela se encontra no formato de Portifólio. Minha miniBio se encontra dentro do portifólio.
Como o documento é grande, compartilho um link no drive para vocês visualizarem melhorLink:
A pesquisa em processo, iniciada em 2014, parte de um desejo pessoal de produção de trabalhos em artes visuais sobre a minha condição biográfica e sua problematização. A condição biográfica focada é o fato de eu ser portador de Diabetes Mellitus tipo 1, doença metabólica, autoimune, crônica e de tratamento diário. Assim, pretende-se construir relações com essa condição biográfica específica e um contexto social e histórico do açúcar, buscando uma produção poética e de esgarçamento teórico-prático.
O primeiro movimento foi pensar a seguinte situação: Eu, um artista brasileiro portador de Diabetes e o açúcar. Dados da ADVFN¹ mostram que 70% do açúcar produzido no mundo provem da cana de açúcar. Dessa porcentagem, 21% dessa produção é brasileira, sendo o maior produtor de açúcar do planeta. Essa informação produz em mim uma zona de tensão. Como lidar com isso? Galeano (2005) em As veias abertas da América Latina traz um olhar claro para uma construção histórica sobre como isso aconteceu. Usando o nome de “Rei Açúcar” ele reflete como a cana de açúcar foi introduzida em contexto de exploração e criação de subdesenvolvimento no Brasil e que problemática isso provoca até hoje. A relação da história e cultura é explicada por Benjamin (2012) no texto “sobre o conceito de história”:
“Nunca houve um documento da cultura que não fosse simultaneamente um documento da barbárie. E, assim como o próprio bem cultural não é isento de barbárie, tampouco o é processo de transmissão em que foi passado adiante.” (p. 245)
Assim, essa “barbárie” explicitada por Benjamin e depois por Galeano pode ser visualizada nos dados atuais sobre o Açúcar.
Motivado por essa breve pesquisa, comecei a pensar trabalhos artísticos que trouxessem a tona essa minha condição biográfica específica, suas ramificações cotidianas e possíveis formas apresentação e linguagens do trabalho de arte.
<mailexpressivo@gmail.com>19 de abril de 2016 22:34
oi, antonio,
meu pai tem diabetes. escrevo isso antes de me deter com respeito ao seu trabalho, talvez porque sua atenção à sua condição diabética me transporte para cenas rotineiras que foram minhas paisagens domésticas desde nascido… ou mesmo porque elas me fazem vislumbrar um outro possível ao meu pai, já que você me lembra ele de alguma forma e já que ele me deu seu próprio nome, que agora carrego por aí… jandir jr.; só mais uma crítica sobre a condição autoral que tanto importa ao nosso campo artístico – ao assinar, sou meu pai também. e por isso me parece que falar sobre seu trabalho seja falar sobre mim mesmo, cara.
lembrei nisso do seu trampo co®tação do açúcar. é impossível que eu não tente farejar suas coisas a partir dos rastros desse corpo nordestino que acredito piamente que compartilhamos, eu, você e meu pai. eu não faço ideia de quem são os cortadores nos teus desenhos, mas eles poderiam ser daquelas pessoas as quais nos confundiríamos ao olhar de nossa janela dum ônibus à outra emparelhada, donde estariam. já aconteceu isso comigo: vi um homem num outro ônibus que estava num congestionamento ao lado do meu e pensei que este cara era meu reflexo. mas era mais um trabalhador cansado voltando pra casa, numa época em que eu era também um trabalhador cansado voltando pra casa.
eu acho q sei do que a diabetes do meu pai foi feita: de trabalho com alimentação ruim, alcoolismo, obesidade… melancolia disfarçada em dureza e sisudez masculina. mas hoje, meu irmão e minha irmã são também diabéticos. acreditamos que somos propensos a esta doença, ainda que eu insista em acreditar menos em motivos genéticos e mais em motivos sociais para a eclosão da diabetes no seio da minha família; trabalho, trabalho, trabalho…
…
hoje em dia eu convivo contigo em trabalho, te vendo todos os dias com papéis térmicos impressos com seus horários de entrada, saída, almoço… e controlando-os até onde dá, batendo cabeça com a máquina pra fazer ela produzir contigo, num ritmo de absurdos. seu trabalho todo com o açúcar acaba me parecendo, frente isso, a determinação dum ritmo outro pra sua própria doença…
“condição biográfica” é um termo engraçado que vc usa… não tanto pela palavra “biográfica” – acho que tudo tem se dado a partir da sua própria vida mesmo, né? – mas da palavra “condição”. me parece que imprimir suas próprias determinações ao que você chama condição seja o que caracteriza melhor aos meus olhos o que vc tem feito de mais surpreendente ultimamente. o que é paradoxal né – fazer a condição ser mutável é destituir ela mesma do lugar de condição, transformando-a em algo tão informe quanto o que não pode ser nomeado.
suas camisetas polo, bem sei eu, são parte dessa vontade de conduzir o ritmo. caso contrário, vc teria mudado seu vestuário ao entrar na universidade e ver aquelas pessoas todas vestidas como que num mundo paralelo ao do corriqueiro universo do homem comum anônimo nas vestes (logo, no corpo). e flertar com esse anonimato me parece tão absurdo a um artista… acho que me identifico.
desculpe falar sobre o que não está no seu portfólio. subverto a condução do ritmo que vc quis imprimir aqui – portfólio, minibio, texto sobre a pesquisa -, pois só desafiando seu procedimento de controle acredito te respeitar.
Formada em Comunicação social pela UNESA, em Artes Visuais pela UERJ e praticante de Astrologia, ultimamente tenho intensificado a mistura de todas essas áreas. Arte educadora por 7 anos em Instituições da cidade do Rio de Janeiro, como Oi Futuro, CCBB e Museu de Arte do Rio. Também realizei algumas exposições pela cidade, parte delas está no meu portfólio, e pratico astrologia entre todas as atividades. O fio que conecta as atividades, aparentemente tão distintas, sem dúvida é a relação que estabeleço com as pessoas e suas vidas.
Texto sobre a pesquisa pessoal:
Como citei na minibiografia acima, entre atividades aparentemente distintas que desenvolvo, a conexão que estabeleço é a relação com as pessoas, as memórias que carregam e o diálogo que podemos construir acerca das suas vidas (até mesmo a minha vida pessoal), a cidade e identidade (seja individual ou coletiva). Meu trabalho artístico habita nas possibilidades que a relação entre o texto e imagem podem construir, é a partir da custura das duas linguagem que dou forma a toda a pesquisa que brevemente descrevi, não posso negar que essa forma de expressão se solidificou a partir das minhas práticas em comunicação social e arte educação, áreas que desenvolvem as formas de se expressar na fala, no texto e na imagem. Juntando todos os ingredientes na panela de pressão artística, produzo meu trabalho com várias pinceladas, que agora ganha mais uma com meus estudos astrológico, mesmo não sabendo em que momento, e nem de que modo, as atividades poderão se encontrar, não excluo qualquer interrelação.
Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>3 de maio de 2016 21:56
Antonio Amador <amador.pintura@gmail.com>5 de maio de 2016 11:51
Olá, Lu!
Quando olho seus trabalhos, uma palavra sempre vem em minha mente: Processo.
É curioso pensar esse meu acesso aos seus trabalhos artísticos, pois é pensar que eles se desenvolvem intimamente ligados a você. Um trabalho que fala muito sobre como você se relaciona com as coisas do mundo, algo íntimo, mas que é ao mesmo tempo muito próximo a mim. Quando entro nos seus trabalhos, me dá a sensação que você partilha comigo essa intimidade. Eu me torno íntimo daquela sensação junto com você. E tudo isso se dá de uma maneira processo; algo nasce para mim naquele instante, eu percebo que isso tem um passado e que isso terá um futuro no qual eu não poderei mensurar, apenas se eu continuar vinculado aquilo.
Ultraútero. Eu falei tudo isso para me justificar em não conseguir me expressar direito a respeito desse trabalho. Ele me toca de determinada maneira que fica muito difícil falar. Olha que vi apenas o portifólio, pois a vontade que sinto é tê-lo perto de mim, materialmente. Acho que é a primeira vez que sinto uma necessidade de colecionismo arrebatadora. Vontade de olhar e ser olhado. De fazer parte desse processo. Entrar, imergir e emergir daquilo. Um mergulho para tocar e ser tocado.
………………..
“Panela de Pressão Artística” – adorei essa expressão. Acho que pensando o seu trabalho e as formas como ele se coloca no mundo, essa pressão artística no nosso campo(circuito) da arte é muito pertinente. A pressão que se(nos) coloca(mos) no processo artístico e como podemos tensionar essas coisas no mundo.
Espero…esse texto encontre o toque que encontrei no seu trabalho,para você,
Lu.
Aline Besouro <besouroaline@gmail.com>6 de maio de 2016 08:15
querides, não estou conseguindo atender a demanda de leitura e proposta desse email, por isso, não pretendo enviar meu portafolio antes de conseguir dar a atenção necessaria aos portafolios enviados anteriormente. farei isso tao logo for possivel.
beijos de amor
Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>18 de maio de 2016 11:32
Dally Schwarz <dallyschwarz@gmail.com>18 de maio de 2016 13:19
Po galera,
faço eco com a Aline, estou conseguindo ver um pouco de todxs mas ainda não tive como abrir meus diálogos. Assim que conseguir fazer isso, envio os meus.
Bjs!
Antonio Amador <amador.pintura@gmail.com>23 de maio de 2016 09:30
Olá,
Venho por meio dessa mensagem eletrônica a testar que aos vigésimo segundo dia do mês de maio de dois mil e dezesseis às quinze horas e quinze minutos na instalação artística Como viver no capitalismo sem dinheiro – Banco do Irreais, no Museu de Arte do Rio, Praça Mauá, número 5 e 10, Rio de janeiro, realizei uma fala destinada a pessoa que se auto declara “Jandir Jr” sobre sua produção artística e suas impressões que tal produção reverberam em minha pessoa.
Atesto a veracidade desse acontecimento e de seu conteúdo com o reconhecimento de firma, em futuro, desse e-mail no Primeiro Cartório de Arte do Rio de Janeiro, localizado na Rua Riachuelo, 325/ 806, Centro, Rio de Janeiro.
Atenciosamente,
luciana Grizotti <lugrizotti@gmail.com>24 de maio de 2016 14:41
Toda vez que eu penso em escrever um texto com referências teóricas, um viés mais acadêmico para exercitar todo meu estudo e escrita, algo me tira do foco e sai algo bem mais subjetivo. Será que sou Artista Textual? Contradizendo meu diploma de Artista Visual… A partir de hoje, se perguntarem minha profissão acho que devo dizer Artista Textual. O que acham? Obrigada por essa reflexão, pensei isso através das nossas trocas aqui.
Mas o assunto é Jandir. Jandir Jr., dialoguei com o papel sobre seu trabalho:
Para: “Jandir Jr.” , Janine Magalhães , Rodrigo Ferreira , Daniel Bruno , Guilherme Dias , natalia nichols , Gustavo Barreto
O texto aqui anexado foi escrito em virtude do encontro de bandeiras ocorrido na segunda feira, 29 de maio de 2017. Se você recebeu esse texto é porque de alguma forma você participou dessa exposição. Por favor, repasse esse texto às pessoas que você convidou se for o caso de ter convidado alguém.
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Bandeira
Um convite foi feito para o fazer em correnteza: bandeiras de cores previamente estabelecidas e a espera pelo encontro, o junto de um conjunto. Mas era preciso soprar mais ventos nessa onda, convidados convidaram e a onda foi para não sei onde. Voltaria, mas com que força? Com que força ela foi? Não tenho, nem quis ter dimensão. Das pequenas bocas das lulas voltaria uma marolinha, o que também faria todo sentido, senti.
No dia muita coisa havia se modificado nas rotinas e nos trânsitos dos mundos e o dia já não era o dia para muitos dos sopradores de convites, convenhamos. As lulas assertivas diziam em coro a cada segundo, como pais maus conselheiros: eu não disse? Eu concordava, meneando a cabeça com os segundo que passavam no relógio de praça, passava a tinta preta no céu. Já era noite aquele dia e eu estava só. Carregava uma bandeira um uma praça hermética e pontilhada de turistas aqui e alí como almas transitórias. Achei que ia ficar só e só seria certo também, não era triste era o existe que me encontrava. Eu já me preparava para andar com minha bandeira a flamular maresias e conversas xoxas de transeuntes untados de saída de trabalho e maletas e gravatas e saltos mais altos, mas Jandir Jr apareceu alegre, Companheiro, como chamam no vermelho a bandeira-chama que embrasa a Brasilândia politicasta. Ele e sua bandeira, que já não me era uma novidade há tempos, mas que a cada momento é uma sem mudar. Branca, neutra, corpórea, simples, puída, viva e ambulante, algo fantasmagórica, algo alegórica e ainda assim nela mesma toda bandeira, onde o mastro é um ombro e de onde ele mostra o escombro ruinoso de um bom comprador de pano. O linho e a crueza do dia a dia já era ele.
Andamos. Conversamos. O que era aquilo que fazíamos alí para além de andar portando estranhezas? Ao menos os olhos munidos da guarda municipal punha em mira a nossa baderna interior. Averiguavam nossa bandeira exterior? Será que esperavam algo além da marola? Não ouviram o coral das lulas? Nós até tentamos obedecer certos comandos de desobediência, mas éramos erro a todo instante, até mesmo no errar, e caminhávamos mais errantes do que consoantes no cálculo, espetáculo. Testamos as luzes de uma sirene em fotografias que, metafóricas, anonimatam o tempo e o tampo das faces. Elas diriam verdadeiras mentiras, poetas, fingidas, que são, infringiram o mais dado e puro duro nada (percebam as camadas). Demos algumas voltas na imensa praça escura, vinte minutos mais e menos de andor e palavras. Depois de tanto tempo de espera após o primeiro convite, eu e o primeiro convidado estávamos quites e planejávamos outros insucessos de encontros outras ondas e marolas em outros cantos de lula sem saber o que vai dar.
A dor de sentir meu dedão topando em uma pedra nunca foi maior que a dor em perceber que qualquer pedra deslocada, removida de um lugar a outro por qualquer humano que seja, constitui em si um jogo, que aqui chamo pique-pedra. Não que isso em si seja algo de terrível, particularmente adoro jogar, seja para brincar ou para competir. O problema, ou melhor, o meu problema neste jogo é o desagradável lugar que ocupo nele.
Pique-pedra é um jogo, de duração estendida e indefinível, que ocorre sempre que uma pedra é deslocada semântica ou fisicamente. Só possuo essa informação. Perdoem, pois não posso informar sobre quando o jogo começou ou termina. Provavelmente ele está ai desde o início do mundo. Nem mesmo sei qual a qualidade de cada jogada que acontece nele. O peso de cada participante no jogo me é um mistério ainda. A não ser sobre meu papel nele. É fácil reconhecer que nasci desprivilegiado na hierarquia dos deslocamentos de pedras pela cidade. Tanto para mim quanto para quem me observa sou obviamente menor. Mas, se desprivilegiado sou enquanto jogador, me resta a análise criteriosa de quem melhor está jogando no pique-pedra. E, ao modo de um arguto torcedor de futebol, teco minhas críticas, ainda que, quase sempre, apenas para mim.
Observo os calçamentos em pedra portuguesa em que piso cotidianamente e só consigo pensar que triste fim para uma pedra foi esse, em que infeliz ideia foi essa a de jogar pique-pedra dessa forma, calçando-as no chão, tornando estáticas essas pedras tão potentes, tão bonitas. Também observo aqueles que se aproveitam das pedras portuguesas que saem das calçadas, deslocadas pelo tempo e intempéries, e as capturam, transformando-as em amuletos para si. Estes, que então as guardam em suas bolsas e mochilas, tornam-nas objetos de adoração e contemplação estética individual, nada mais que isso. Apesar da subversão que operam no pique-pedra ao deslocar as pedras portuguesas de seu lugar na calçada, a opção ainda não me agrada justamente por seu caráter individualista. Eles pouco colocam problemas ao gesto de quem colocou as pedras lá. Afinal, quem vai notar a diferença de uma pedra a mais ou a menos no chão? O problema do indivíduo que pega a pedra para si está resolvido, que tem naquilo seu amuleto. Mas o problema social de todas aquelas pedras concretadas no chão não. Pior ainda aqueles que lidam com essas pedras apenas enquanto topografia da cidade. Só as percebem quando topam nelas e levam um tropeção ou as olhando enquanto flâneurs, pensando em sua beleza e no desenho que fazem quando calçadas. – Olha! Como lembra a calçada de Copacabana! – devem pensar. Passivos…
Também pudera. A maioria de nós mal se dá conta que jogamos a todo o momento o pique-pedra. Aposto que mesmo você que lê esse texto nunca havia percebido que a pedra que você chuta no chão ou que pega e passa deste lugar a aquele já está nesse jogo, já que está em relação à outra pessoa que será invariavelmente afetada por essa mudança. E até mesmo quando você pensa numa pedra e muda seu significado: quando você a atribui misticidade e quando você a faz funcional, transformando-a em calçada ou em edifício, nisso se torna absolutamente perceptível o jogo. Como disse antes, as regras são um mistério. Sabemos que mal sabemos sobre pique-pedra… Ou melhor, vocês mal sabem. Eu sei, ainda que pouco, ainda eu mesmo sendo pouco. E escolhi jogá-lo conscientemente numa manhã dum dia de semana qualquer.
A incômoda calçada de pedras portuguesas foi quem permitiu me engajar. Observei uma destas pedras soltas e a peguei. Seu tamanho era bom, cabia na palma da minha mão de forma que eu não a conseguia fechar por completo. Abriguei-me atrás de um poste e aguardei qualquer veículo passar. No momento certo arremessei o pedregulho em cheio na vidraça da porta dum ônibus que estava lotado. Facilmente aquilo se tornou um rebuliço. As mulheres e homens gritavam palavras de ódio contra o moleque terrorista que atentava contra a vida deles, contra a rotina, contra o que nem mesmo sabiam. Eu, na condição do que era absolutamente rechaçado por aquela multidão revoltosa, sabia claramente que eles não gritavam contra o que pensavam opor, mas simplesmente se indignavam pela subversão da funcionalidade da pedra portuguesa e pelo empoderamento da criança, não mais inocente, mas pura potência atentatória contra o que eles eram no jogo: passivos.
Sorri e corri ainda sob os gritos de ódio contra mim, sob o peso vexatório daqueles que eram estáticos em ônibus rotineiros, pensando em como era ótimo tirá-los daquela passividade cotidiana no pique-pedra e em como um deles, ao menos, um dia, poderia escrever sobre o que fiz.
O sol surgiu no céu, e acordei com uma ligação de minha companheira dizendo ter visto um homem baleado num ônibus a frente daquele em que cotidianamente se desloca. Dizia sobre ter medo de que aquilo acontecesse a seu outro companheiro, com quem mora, num caso desses de assaltos em seus veículos corriqueiros. E, nesse momento de enunciação, sua voz hibridizou em mim à da juíza que temeu pela vida de minha irmã dias atrás, frente a recorrência de agressões que seu recém ex-marido havia cometido contra outras mulheres. Ouvia, então ecoantes, essas vozes dizendo dos conflitos no seio da familiaridade; não só em nossos cômodos, mas entre nós.
Claro, esse ‘nós’ que digo pouco diz quem abarca, para além de dizer que nele estou. E o digo assim por imprecisão mesmo de seus contornos. Me seriam os assaltantes em algo familiares, como vizinhos de bairro, pessoas com quem estudei? E poderia o vil habitar um lar, paradoxalmente cindindo a convivência ali? Nessas dúvidas, as próprias paredes de minha casa tornaram-se imprecisas, e quando vi já era tarde, já estava num ônibus, mas ainda almejava ver uma família em meu entorno.
Desembarquei. Havia filmes para assistir, um festival universitário, meus amigos que organizavam. Tinha início o segundo, em que logo reconheci os rostos na tela: amigos, amigos de amigos, músicos que tocam na Audio Rebel, por vezes na Lapa. Mas tantos eram os closes que recordei de nossa relação superficial, e não vi mais que suas peles alvas: lembrei que pouco compreendo o que dizem sobre seus desejos, não sem esforço empatizo com o que lhes dói. A epiderme tão próxima ali, em filme, mais me fazia relembrar de nossas distâncias do que o quê nos diz respeito mutuamente. E era compreensível a pele, nem sempre só órgão sensível, mas como limite que é, situando nossa cordial vizinhança, nada mais próximo que isso.
Logo me senti isolado. Decidi sair da sessão e seguir sozinho, parar numa lanchonete, comer algo, seguir para casa – cujas paredes já me pareciam novamente concretas a essa altura. Ali, ouvi um homem agredir verbalmente as pessoas que o atendiam, porque não lembravam qual fatia de pizza ele havia pedido há muitos minutos atrás. Foi então, num rompante, que me veio à memória minha mãe me contando como era ser empregada doméstica quando menor de dezoito anos, meu pai tentando amenizar o peso dum trabalho extenuante com álcool, meus irmãos e sobrinhos trabalhando subservientes a tantas pessoas problemáticas, e me enchi de raiva. Era noite, ou as paredes da minha casa anoiteceram. Tornou-se impreciso novamente meu lar.
Ainda assim, sob a lua, quase um teto, segui para meu bairro minutos depois. Foi quando entrei no ônibus que cotidianamente uso para voltar, e me dei conta do que o motorista falava a outro rodoviário: que, ao meio dia do dia anterior, alguém reagiu a um assalto naquele carro, efetuando um disparo com uma pistola. A marca residia no vidro da frente e só aí me dei conta dela: um pequeno círculo perfeitamente cravado naquela janela próxima ao banco do motorista; um furo abrindo o dentro ao fora, mais uma fresta fazendo passar algo da paisagem externa naquele veículo passante. Me veio à cabeça então algo estranho: pensei no projétil superando a pele humana como limite, já que a perfura, derramando seu sangue no chão. E era estranho pensar na violência do revólver com essa amabilidade. Estranho ver na vilania dos que o manejam uma vontade, para além do ferir, de um contato profundo; de pôr algo do mundo naquele buraco em que verterá o sangue do corpo perfurado. Mas não era tão estranho que, habitando na solidão em que a raiva de alguns se faz, estivesse eu vendo alguma familiaridade no seio dos conflitos. Talvez porque a casa – a nossa casa – não tinha paredes.
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Especialização em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo
Oficina de Crítica Literária, prof.ª Cláudia Chigres