“Tendo por referências relatos de Els Lagrou sobre seus desenhos de grafismos Kaxinawá e de Cildo Meireles quando desenhou pela primeira vez o que viriam a ser suas Malhas da Liberdade, e através de convites para que se desenhe algo em seu passo a passo, ensinando a realizá-lo por estas instruções sem palavras, Caderno de campo contém desenhos didaticamente decompostos, ao modo como alguns antropólogos documentaram padronagens indígenas em seus diários. Neste mesmo esforço investigativo, no verso de cada desenho – página subsequente deste caderno – convida-se quem o criou a escrever um relato sobre suas estruturas e falências. É assim, na forma e na prosa, que se toma o próprio desenho – ferramenta analítica de tantos pesquisadores quando em campo – como objeto de análise neste caderno, seu campo a ser perscrutado.”

Gerência de Educação, Museu de Arte do Rio, Outono de 2017. Dja Guata Porã: Rio de Janeiro indígena.

(Caderno desaparecido desde 26/05/2017)

(Reencontrado por mim em 11/06/2017, quando estava procurando um tecido para me vendar em uma atividade educativa)

Robnei chegou a me contar um tanto sobre seus projetos felizes em Boa Esperança antes que eu lhe dissesse do que tem me atormentado: que não tenho conseguido me sentir em arte. E ele me perguntou por que, no que quase lhe disse sobre o problema que criei a mim mesmo, quando Rob mesmo o deduziu ao dizer que percebia meu esforço em me rarefazer ao não produzir, em buscar um não-trabalho. Entramos num exemplo: no shopping-chão, quando dispus coisas minhas na rua e estive disponível a trocas com outras pessoas, ele não me via sendo radical, já que não disponibilizava aquilo sem reservas. O contei então do rumo que dei a esse trabalho em sua última versão – a que me satisfez -, quando apenas montava a estrutura de shopping-chão com meus objetos numa calçada e os deixava ali, disponíveis ao desaparecimento que iria lhes ocorrer inevitavelmente. Contudo, esse já não é o problema que me atormenta, o da coesão do gesto artístico com o da minha opção pela abstenção, de modo que disse a Robnei, quando me perguntou do que eu busco me abster quando falo de abster-me, que me percebo recusando o próprio gesto artístico. Ele então hesitou com os olhos e com os braços e, ponderando que lembrava de Marcel Duchamp e de Tehching Hsieh como artistas que deixaram de produzir obras e buscaram um afastamento do circuito artístico, falou, ainda assim, que eu mesmo não deveria deixar de compartilhar com outras pessoas e buscar interlocução com quem é tão ou mais comprometido com arte que eu para conversar sobre esse abster-se que me seduz e atormenta. Mas não pude o ouvir mais que isso, já que meu ponto havia chegado. O agradeci, saí do ônibus, e ao chegar no portão de casa, encontrei um pequeno ramo enfiado no buraco de sua fechadura. Fiquei encantado por aquele ato pequeno, de alguém que provavelmente não saberei quem é. Observei por alguns segundos sua forma, sua cor e textura, grato por quem cravou aquilo em minha porta, ação que me mostrou o limite tênue em que uma potencial obra de arte se fez, me pondo em dúvida se eu seria capaz de evitar o gesto artístico como disse, ou se só busquei me alienar dele, ou se busco me alienar dele como um outro gesto esse do alienar-se, tão em arte quanto. Em dúvida, pus o raminho de volta na fechadura ao entrar.

Diego Lopes Xavier <diegolxavier@yahoo.com.br>  9 de maio de 2017 16:13
Para: Bruna Camargos <bruna.camargos@museudeartedorio.org.br>, “Jandir Jr.” <jandir.s.junior@gmail.com>, Priscilla Gabrielle <pri.vyper@gmail.com>, Jade Helena Da Silva <jadehelena.s@gmail.com>, Geancarlos Barbosa <geancarlosnbarbosa@gmail.com>

Como não vamos mais ter nossas rodas de histórias semanais, escrevo, por aqui mesmo, uma que escutei por aí.

Nas minhas andanças, esbarrei com muitas pessoas que ouviram dizer que no dia do sol seres mágicos, vindos de mundos distintos, se reuniram num grande e caudaloso mar do delírio. Me disseram que este mar era a morada de um sábio que sempre levava consigo uma manta branca infinita e que ele tinha muitos nomes, mas era mais conhecido como Jandir. Alguns diziam que este sábio havia feito daquele mar sua casa há muito tempo, mas que havia nascido lá pelas bandas do Uruguai – que não sei onde fica.
O que importa é que este sábio só era sábio porque queria conhecer as histórias de todos os mundos, embora já conhecesse um monte delas. E foi por isso que ele havia convocado todos aqueles seres para visitar seu mar-morada. Como era impossível ouvir a todos ao mesmo tempo, ele teve a ideia de pedir àquelas criaturas sagradas que construíssem embarcações típicas de seus mundos. Porque sabia o sábio que o mar e as embarcações são lugares que guardam muitas histórias, são como baús dessas narrativas. Foi um desafio muito grande praqueles seres estrangeiros construírem as embarcações com os materiais que o sábio havia disponibilizado – eram materiais nada convencionais para a navegação -, mas ao fim de um período que pareceu voar como um pássaro de asas muito largas, o mar do delírio ficou repleto de embarcações.
Foi ali que se conheceu a história de Santiago, do mundo dos meninos de 13 anos. Sua embarcação tinha um casco e um mastro, mas também tinha nuvens por dentro, que permitia uma fuga pelos céus. Se viu também a embarcação do mundo dos triângulos, porque lá todo mundo gostava e se inspirava na forma dos triângulos. A criatura do mundo das filhas de marinheiros também esteve presente com sua embarcação transparente para que seus pais pudessem ver o mar enquanto trabalhavam. O guardião das mudanças, que tem um nome tão esquisito que preferi chamar de Gustavo, levou seu barco que tinha uma corda e uma pedra bem pesada. A pedra deixava o barco tão lento quanto as mudanças que carregava e a corda fora uma tentativa de alguém por orientar essas mudanças, mas de tanto tentar puxar, acabou arrebentada em vários pontos: por isso essa corda tinha um monte de nós, marcas das tentativas e fracassos de orientar as transformações. Enfim, naquele dia muitas histórias foram contadas.
O mar do delírio passou a ficar lotado de embarcações e histórias e já não é mais possível navegar por ali sem esbarrar nas narrativas que ficam circulando. Desde então, o mar do delírio passou a ser conhecido também por outro nome: mar do encontro.

( p eu ler – https://frieze.com/article/search-stanley-brouwn)

 

In search of Stanley Brouwn

by Oscar van den Boogaard

 

He never shows up at openings; there are very few catalogues that include images of his work, let alone his portrait. True to the spirit of 1960s conceptualism, his work is about dematerialization, the impersonal as part of the creative process and the disappearance of the author. Where is Stanley Brouwn?

During the writing of this essay, everyone I ask to put me in touch with him – gallerists, collectors, artist friends – also suddenly seems to vanish into thin air, as though they too are accomplices in the great disappearing act that ensures the artist stays invisible, so that the work can remain abstract and unburdened with what is irrelevant: its mortal maker.

The extraordinary thing is that, as I look for Brouwn, I catch myself out: I discover I don’t really want to find out who he is. This realization comes from a deep respect for his artistic choice to remain invisible and from a reverence for the concept of privacy in general that, nowadays, is being so forcefully eroded. Privacy is disappearing from our world not only because governments, corporations and citizens are so unabashedly nosy, but because individuals – in the age of Facebook, Instagram and soul-bearing television talk shows – no longer seem to feel the need for privacy. For many in the 21st century, privacy is regarded as a terrifying prison in which you are forced to wallow in your own solitude. Privacy is seen as a form of non-existence. We display ourselves to others and do not wish for one moment to be lost from view, to be alone for an instant.

Not so Stanley Brouwn: he is the man who wishes to remain invisible. And yet, thanks to the few details that are known about him, he has attained an almost mythical status. He was born in 1935 in Paramaribo, the capital of Suriname. The smallest country in South America, Suriname lies on the continent’s north-eastern Atlantic coast, between Guyana, French Guiana and Brazil.

Coincidentally, I grew up in Suriname during the second half of the 1960s. To me, in retrospect, it is a paradise. Four times larger than the Netherlands, of which it is a former colony, it consists mainly of Amazon rainforest and has barely half a million inhabitants. Until its inde­pend­ence in 1975, the country’s flag displayed five stars connected by an ellipse. The stars represented the various ethnic groups that were supposedly peacefully coexisting there. As I recall it, the yellow star symbolized the Chinese, the brown star the Hindus, the red star the indigenous population and the black one the Creole people. ‘Oscar,’ my black nanny would ask me, ‘what is the white star for?’ And my answer would be forthright: ‘White is for the people.’ Like all other colonies, of course, Suriname was governed by white oppressors.

Candide, the central character in Voltaire’s eponymous novella, visits Suriname during the enlightenment. ‘We have arrived at the end of our difficulties and the beginning of our happiness!’ Candide’s valet, Cacambo, cries out when he catches his first glimpse of Suriname. Close to Paramaribo, Candide sees a black man lying on the ground; the poor man is missing a left leg and a right hand. ‘Oh God!’ Candide says to him in Dutch. ‘What are you doing there, little friend, in that terrible state?’ ‘I am waiting here for my master,’ the man answers. ‘Is he the one who has done this to you?’ Candide asks. ‘Yes, sir,’ says the man, ‘It is the custom …’ Candide breaks down as he contemplates his pitiful state. He relinquishes his optimism and enters Suriname in tears.

According to his scant biography, Brouwn came to Amsterdam from Suriname in 1957. His fellow artist friend Armando introduced him to the Zero movement, a group of artists who rejected the evident authorial signature. Brouwn’s first works, dating from that time, which he later destroyed, were transparent polythene bags filled with all sorts of rubbish and hung from the ceiling. The work consisted of the visible content of the bag and nothing else. The pieces he actually considers to be his first works were ones he didn’t make himself: instead, he laid paper sheets on the street and an unsuspecting cyclist or pedestrian created the art work as they cycled or walked over them. Without realizing it, the passers-by became anonymous partners in these works capturing movement and time. Through participation, Brouwn placed the act of creation into the hands of others and subsequently erased, in a certain sense, his own artisthood.

Later, in the early 1960s, Brouwn would approach random pedestrians and ask them to draw directions to a particular place on a piece of paper. Using a stamp that said ‘This way Brouwn’ he would then imprint each drawing with its hallmark, like an eager neurotic bureaucrat, creating works that were simultaneously personal and abstract. Blank pages on which passers-by hadn’t drawn anything because they didn’t know the way were also considered art works, since Brouwn felt the whiteness precisely captured the participants’ abstract thought processes. The traces of footsteps and the directions on the ‘This way Brouwn’ works may well have been the starting point for the artist’s fascination with walking.

Walking is a way of becoming unstuck from yourself, of merging with your environment: the boundary between yourself and the environ­ment is relinquished. A cosmic unity is restored. It is about a dematerialization of the self, disso­lu­tion into space, becoming part of the geography. In the meantime, you shape something new; you become movement, measure, scale, direction, dimension and space. The obsession with precision leads further away from the self. From the 1970s onwards, like a nerdy rambler gone adrift, Brouwn recorded his own footsteps in various cities on index cards that he then stored in grey metal filing cabinets. In these works, personal experience becomes objectified and the subject dissolves. Autobiography is measured, quantified and made impersonal. You could call it a form of subli­mation. From the moment he first made those pieces, the artist’s own absence has been a distinguishing element in his work.

‘To dazzle by absence’ is a Dutch expression. It means that by being absent, you are all the more present. Does this apply to Brouwn? Or to his contemporary On Kawara, perhaps, who never makes public appearances and who communicates with the world via telegrams and postcards? However, whereas Kawara uses his own life as subject matter in his messages, such as ‘I am still alive’, Brouwn never adopts the first person in his work.

I am doing something that I really shouldn’t. On the-artists.org, a website dedicated to artists working since 1900, we can find a simple black and white passport-sized photograph of Brouwn. It is 444 × 595 pixels. For an artist who does not want photographs of himself or his works to be published, this is at the very least a provocation. We do not see much of him: the overexposed face of a balding man. From his features you can deduce that he is a Surinamer, probably belonging to the brown or black star of the flag. On the photograph, he is not so much pale as blank. He is wearing glasses and sports a thick, black moustache. He appears to be looking up, his gaze focused on infinite space beyond the camera. The pixels part and emptiness sets in.

In Wim Beeren’s book Action, Reality and Fiction in the Art of the 1960s in The Netherlands (1979), despite my best intentions, I discover a couple more photographs of the artist. We can see Brouwn during the enactment of a work from the ‘This way Brouwn’ series in Amsterdam in 1961. The slim artist looks on, with his hands in the pockets of his long, light raincoat, as a man in a suit scribbles on a piece of paper. In another photograph, we see Brouwn standing in front of a shoe shop window. A few women’s shoes can be made out in the shop window behind his right shoulder. It becomes clear that the first portrait was a crop of this image.

In catalogues for group exhibitions in which the artist participates, he is also consistently absent and his contribution is only ever a blank page. What could that blankness mean? A blank is something that is empty, something not filled in. Blank can mean everything and it can mean nothing at the same time. Blankness can stand for infinity, for every possibility. Blankness leaves everything open and admits everything. Blankness also stands for a refusal to speak. That which could be detrimental to meaning is left unsaid. It is the choice of not choosing: a precise way of saying that which is inexplicable and transcends language.

In the same book, I find another photograph of Brouwn, dated August 1964. The artist is standing in the window of an antiques shop, where Gallery Amstel was located. An anonymous per­for­mance by Brouwn is taking place there, on a Saturday. He uses objects that are to hand. Wearing a raincoat and a bag over his head, Brouwn steps onto the table. As he covers his head and chest with newspapers, he holds up wads of paper against the shop window. He takes off his shoes and lays them on the table. He picks up an axe and uses it to make chopping movements in the direction of one of the shoes. Clutching newspapers under his arms, he presses the shoe up to his left ear.

Here is another photograph with rounded edges. It has the shape of an old television screen. It’s taken from the Dutch art television programme Signalement from 29 December 1963. We see Brouwn during View of a City in 24 Hours (1963). The accompanying description says he laid sheets of paper on the street before returning later to collect the ‘trodden on’ pages.

In addition to these photographs we have an account. In 1964, at the Patio Gallery in Neu-Isenburg, an art happening took place in which Brouwn wore a bag over his head and sat still on a chair that he had put on a pedestal in the corner of the gallery. Is a man with a bag on his head a man without a face? He is, in any case, an artist on a pedestal. He is presently absent.

I am reminded of the Chinese parable that the German philosopher Rüdiger Safranski describes in Wieviel Wahrheit braucht der Mensch? (How Much Truth Do We Need?, 1990). It is about an artist who disappears into his own painting. Devoting himself for years to a single work, the painter has grown old and lonely. When the work is finally finished, he invites the few friends he still has to see it. They gather around the painting, which depicts a park and a narrow road leading to a house on a hill. Just as the guests have formed their opinions about the work and turn to share them with the painter, they realize he is no longer there. They look at the painting and see him walking up the road towards the house and opening the door; he turns around one more time, takes leave of his friends and goes inside, closing the door behind him. Such an act of introversion signifies separating yourself from the others. For those who stay behind, that disappearance is a kind of death. Yet, as conveyed by Safranski, this story says something about a homecoming of sorts, an arrival. Because the tale is told from the perspective of those who are left behind, there is no language for the joy of homecoming. At most you can say: look, in this painting you can find the language of happiness. It is, of course, a very romantic image. I don’t know if Brouwn is preoccupied with happiness. His work is still about being and not being. He disappears into his work. He disappears into space. But he doesn’t want to dissolve alone. He wants the whole of humanity to dissolve with him.

Brouwn is a space traveller and wants the viewers to become space travellers too. In a rare interview from 1967, the artist said of the ‘This way Brouwn’ series: ‘Brouwn makes people discover the streets they use every day. A farewell from the city, the earth, before we make the great leap into space, before we discover outer space.’

In 1964, he wrote a short manifesto for the Institute of Contemporary Arts Bulletin, in which it transpires that he believes in a future so abstract that people dissolve into time and space and colour. It is a kind of world in which there is no memory, a world in which art would also dissolve. Brouwn wishes to contribute to that dissolution through his work. He wants to make the world abstract. It is as if he wants to make him­self disappear, to conjure himself away through thought – which is a tremendous paradox, of course, because in order to conjure yourself away through thought you need to be present.

‘4000 A.D.
When science and art are entirely
melted together to something new
When the people will have lost their
remembrance and thus will have
no past, only future.
When they will have to discover everything
every moment again and again
When they will have lost their need for contact with others …
Then they will live in a world of only colour, light, space, time, sounds and movement
Then colour light space time
sounds and movement will be free
No music
No theatre
No art
No
There will be sound
Colour
Light
Space
Time
Movement’

What kind of world is being evoked here? The year 4000 ad is a time that can hardly be envisaged. Picturing it means imagining you are dead and that, from death, you return to the world of the living. In that time people will no longer have a sense of memory, past or future. In other words, they will be living in a kind of eternal present. That must be something like eternity itself. This is what spirituality strives for, a world outside of time. Because everything is constantly being forgotten, everything has to be continually rediscovered. This is why it is a form of intensified being, of complete receptivity. Every time you look in the mirror you will see yourself for the first time. It is a world in which there is no need to connect with others, a world without the possibility even to do so: how can you make a connection with someone if you forget them the next instant? Man is what he sees and he has ceased to cast judgement. He has become blank on the inside, which means he can become what he sees. Four thousand years after Christ, the dream of the artist is realized and man has finally become abstract. Man is colour, light, space, time and movement.

Brouwn wishes to be a man who walks the earth, a human being like any other. The work concerns ‘a’ human being – with an indefinite article – a human being who moves through life. He wishes to preoccupy himself with space and distance and direction. He wants the viewer to become his work. That is only possible by letting the viewers complete his work in their imagination, over and over again. They are forced to be­come space and distance, forced to experience space as if it were 4000 ad. They will forget them­selves and no longer have need for the notions of art and the artist. Brouwn will no longer be relevant.

If we did know what Brouwn looked like today – whether he was married and to whom, how many children he had, what the interior of his house looked like and where his personal problems lay – would that diminish the impact of his work? Would that mean we, the viewers, were less capable of dissolving into his work? And doesn’t an artist of whom we know everything turn, slowly, into a blank personality? We know everything about Tracey Emin: we know how she is feeling, what’s happening in her her love life, where she grew up. We know her naked and from fashion shoots. We have seen her unmade bed in the gallery; we have seen the inside of her home in interior design magazines. And yet she too remains an abstraction, a great void that wishes to fill itself up with meaning and images – and she needs the viewer for that.

The idea of conceptual art was that the person of the artist was no longer relevant. Yet Brouwn still claims his artisthood. His name is the final thread that connects him as a person to his work. The ultimate step would be to cut that thread. Become anonymous. Disappear. Dissolve. To let time be time and space be space and colours be colours. And to not only dream of forgetting but to forget and to be forgotten.

Um educador me veio e pediu para que eu estendesse o tecido que ele usara com um grupo de pessoas na chuva, e que molhou por isto, rés na exposição que eu monitorava. Foi difícil, mas encontrei um espaço abaixo do de Bernardo Damasceno, O M.A.R. vai virar sertão. E ao por o tecido sob aqueles barquinhos me foi imperativo imaginar sua azulidão como o mar mesmo, onde embarcações se doam para a estada, apesar das de Bernardo parecerem planar. Mas faltavam ondas no tecido inanimado, de modo que me pus em uma de suas extremidades e iniciei movimentos bem pequenos com meus dedos sobre sua superfície, enrugando-a e alisando-a, criando o impulso gravitacional daquele mar ou, se preferirmos, animando-o.

Ontem, Cypriano nos disse que animar é dar vida, na raiz sígnica desta palavra. Não encontro palavra melhor para pensar o que fazia ali, até porque um grupo de crianças logo chegou quando comecei a desenhar ondas de modo sisífico, me ajudando nesta empresa ao descobrir novas formas de a fazer e conversando sobre nosso encantamento mútuo em ondular. Talvez nos seduzisse que aquilo fosse como os desenhos animados que vimos nas telas da mídia, mais que a aparente estática dum tecido repousado no chão. Mais evidente era que animávamos não só o tecido ao passarmos nossos dedos nele, mas toda a obra de Damasceno, todos os barcos que a residiam, tudo que ali a rodeava: a galeria toda. Não entendam que digo estática das obras estáticas expostas, já que sei que delas se pode esperar ânima, mas digo que dotamos elas de personalidade e movimentos ao lhe criarmos contexto, e que outra dimensão de nós, mais tátil, é posta em criação quando fazemos o mar ao lhe acariciarmos. O inverso, contudo, também opera: a presença de barquinhos acima de nós, quando enrugamos aquele tecido, nos cartuniza o gesto de certa maneira. Já não sei então se há uma só origem neste impulso animador agora que duvido se ele parte somente de nós ou de nosso contexto. Penso nesta confluência originária, mas isso é olhar pra um anterior encontro e debitar a ele toda a criação, quando há o mar a ser agitado por nossos toques, breves frente a infinitude que a tarefa suscita.

tumblr_inline_onsdgxUkwi1rslm8n_640tumblr_inline_onsdi9kEbm1rslm8n_500

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>                 29 de março de 2017 18:13
Para: Jorge Soledar <jsoledar@gmail.com>

Me recordo de quando fiz um documentário em áudio, onde gravei a voz de pessoas me respondendo se sou branco ou negro. Lembro que pedi sua resposta, a gravei, e quando você comentou como foi a experiência em sua aula – na qual eu participava -, me disse que não só a pergunta criava uma situação desconfortável a quem era convocado a responde-la, mas minha própria presença ali, enunciando-a, tornava ela mais vil. Pelo que entendi, isso se deu pela candura da minha voz, que – penso – acentuou em você, como entrevistado, a sensação de que responder era aceitar que eu, dissimuladamente, lhe responsabilizasse pelo que diria sobre mim, lhe convocando a congelar a complexidade de seu juízo em sua única resposta, e registrando-a para sempre.

Digo isso porque nunca pretendi indagar assim nesse documentário. Sequer tive um primeiro lampejo que me apontou que esta fosse uma possibilidade. Se dissimulei alguma malícia quando falei, não o fiz por uma intenção planejada. Mas entendi esse meu ato falho como um gesto constitutivo documental ao participar de uma de suas propostas. Era um evento da pós-graduação da EBA/UFRJ, e você cavava buracos num dos imensos espaços gramados da ilha do fundão. Não me recordo como, mas quando dei por mim você já segurava uma cabeça de manequim nas mãos, me propondo a tirar a camisa e lhe deixar fixar ela em meu pescoço – como um segundo crânio – com uma fita adesiva quase da cor da minha pele. E, quase que em seguida, já era fotografado por você, registrando meu corpo agenciado em sua proposta. Nem cheguei a pensar no incômodo que era me desnudar da cabeça à cintura ou da fita adesiva que iria marcar minha pele, já que tudo era realizado num clima jocoso, com muitas risadas, desfocado de seu propósito, apesar de se dar em sua realização. Mais que isso: foi por aceitar participar da proposta de um amigo que não percebi incômodo. Caso fosse alguém por quem não tivesse apreço a me abordar, não aceitaria participar, ou, se aceitasse, sentiria no meu corpo as hesitações que a desconfiança me propicia.

Foi aí que vi as semelhanças e polarizações que me fazem lhe escrever. Por confiar e gostar de você me senti acolhido no que me propôs, e aí só penso que essa é a produção, no fluxo inverso, do que lhe proporcionei. Diferente de produzir a responsabilização pela fragilidade de quem lhe entrevista, você me fez confortável, ainda que imobilizando meu corpo. Mas os procedimentos são igualmente perversos: pela dissimulação, desfocamos a consciência do outro – nosso alvo – do que ele está envolvido em verdade: de uma adequação dele – seja de seu corpo, seja de seu juízo – ao que queremos construir por fim. Reconheço em você uma atenção real a estes detalhes que aqui digo – das perversidades, das dissimulações, do convívio -, e transfiro a seu comentário sobre sua participação em meu documentário o início do que raciocino aqui, já que agora percebo que você me disse explicitamente naquele momento que fazemos trabalhos não só com nossos esforços plásticos e conceituais, mas, sobretudo nesses casos, com como constituímos nossas relações. E disso, acho que não temos tanto controle. Ou, pelo menos agora, sei que eu não tenho, que não tenho controle sobre como trabalhar com como me afeiçoo a alguém.

Fiquei feliz que tenha desejado um depoimento meu. Aproveite como quiser o que escrevi aqui.
Um abraço, Jorge. té breve,

(Acho que, se esse ainda é um trabalho com evidência na gênese conceitual que expus neste processofólio, o é somente por aqui mesmo e para as poucas pessoas que me acompanharam nos primeiros meses de seu desenvolvimento, já que, atualmente, pouco falo – para quem pergunta o porquê carrego um tecido repousado no ombro – sobre esses estímulos que me levaram a tal. Talvez em algo – penso – esta bandeira seja um de meus trabalhos restritos, privados, quase que não-públicos; quem a vê em mim não pode intuir a minha real motivação em sua complexidade, e quem me pergunta sobre ela tem respostas evasivas de minha parte, onde digo que é só um tecido, que é como um hábito, que não passa de uma roupa inútil – a grosso modo, tal como uma gravata -. Poucos sabem que é uma bandeira, e que é uma bandeira arriada, e que nunca será hasteada porque nunca hastearia bandeira alguma, e que é de linho, e que, portanto, tal qual um sudário, carrega as marcas de meu suor e do suor dos outros corpos com que cruzo, e que, penso agora e por fim, esta bandeira permanece arriada menos porque não quero hastear que por precisar cumprir sua função enquanto sudário; por sua vocação ao suor, flamula baixo o suficiente para roçar as peles, na pretensão de secar o mundo a partir de mim, pequeno demais para secar o mundo, pequeno demais para suportar o hasteio (ou será que, por flamular, na verdade está hasteada em mim?))

André Vargas 15 de fevereiro de 2017 21:44

Este é um convite inevitável para uma exposição desnecessária

acontecer de cor-tecido.

Você está sendo convocado a fazer uma bandeira. Você está sendo intimado a fazer da bandeira um suporte pictórico-simbólico tal qual um quadro. Você está sendo cooptado para empunhar as cores em conjunto em um espaço público. Você está sendo invitado e a transformar a praça pública em espaço expositivo. Você esta sendo convidado a conectar sua bandeira a outras bandeiras.

Sorria, você está sendo cotado para uma exposição do estranho nem tão estranho de dentro do – Fora temor!

3 REGRAS DA LIBERDADE:

1 – Toda bandeira deve ser feita com tecidos e/ou tintas somente nas cores vermelho, branco, preto e amarelo. (com o claro objetivo de deixar-se confundir com um princípio de manifestação política de orientações claras);

2 – Nas bandeiras não poderá haver frase, palavra, letra ou grafia que indique um sentido de comunicação estabelecido previamente. A ideia é que as cores das bandeiras juntas já consigam comunicar e causar impacto suficiente;

3 – Você deve repassar esse convite a pessoas que você cogite algum interesse nessa empreitada. Mas, como em uma manifestação outra, não se poderá ter um controle sobre quem irá ou não comparecer ao evento, podendo ser muitos ou poucos (O mínimo desse encontro sou eu – e você?).

DIA: 29 de maio
HORÁRIO: 18 horas
LOCAL: Praça Mauá – diante da estátua do barão.

Podemos muito bem imaginar sistemas de mídia e de difusão que não pertençam a esse sistema piramidal. Isso não me parece absolutamente utópico pois, afinal de contas, durante milênios a difusão dos mitos, dos contos, etc., não passou nem pela Globo, nem pelos dois ou três críticos que fazem a lei no mercado. E essas produções não deixaram por isso de encontrar seu campo máximo de difusão.

[…]

É preciso compreender bem o seguinte: quando nós, que nos recusamos a nos submeter a esses parâmetros, dizemos que não queremos fazer rádios profissionais, isso não significa que queremos ser amadores ou produzir coisas medíocres, mas apenas que não queremos nos tornar profissionais da nossa prática – o que não impede que estejamos afins de nos consagrar inteiramente a isso.

Publicado originalmente em Micropolítica: Cartografias do Desejo. p. 113-115. Organização Suely Rolnik, 1986. Editora Vozes, Petrópolis.

https://revistausina.com/2017/01/29/por-uma-midia-menor-felix-guattari/

 

Por uma mídia menor

Félix Guattari

 

Seria importante tentar ampliar a noção habitual de mídia. A noção de mídia, enquanto exposição de produtos, como numa espécie de supermercado, é algo que determina não só as formas de consumo da literatura, da arte, etc., mas também modeliza as formas de produção artística e literária.

Consideremos Kafka, por exemplo. É muito claro que Kafka nunca terminou uma obra, a não ser talvez, no máximo, uns dois contos. Ele tinha um certo ideal de forma literária, aliás bastante clássico, mas quando planejava um romance, era em Dickens e Kleist que pensava. Até seus romances mais trabalhados ficaram inacabados. É notável o fato de que, quando se considera a obra de Kafka em seu conjunto, vê-se até que ponto os mesmos elementos de criação permeiam tanto seus esboços de romance e de contos, quanto seu diário e sua correspondência. E o todo está sempre marcado por uma espécie de vontade latente de destruição. O que se complementa pelo fato de que, efetivamente, ele nunca terminou nada.

Algumas semanas antes da sua morte, ele continuava a recomendar às pessoas próximas, àquelas que conheciam seus manuscritos, que destruíssem tudo, mesmo sabendo que, provavelmente, elas não o fariam. Pode-se imaginar que, com esse desejo de não acabamento de expressão, o que ele visava eram as formas identificáveis de criação. Há uma frase no diário, pelo que me lembro, que expressa uma espécie de iluminação presente em toda a criação de Kafka, algo assim: “a gente pode escrever tudo”. E acho que o que interessava realmente a Kafka era isto: a gente pode sempre escrever tudo o que acontece em nossa existência. E quando ele conseguia demonstrar para si próprio que poderia captar, em um enunciado, algo que de início não lhe parecia semiotizável, nesse momento a obra caía, literalmente, de suas mãos. Ele já tinha atingido seu objetivo, e a ideia de ir além disso, de acabar um romance ou um conto, não lhe interessava absolutamente. Isso é um paradoxo do ponto de vista do mercado da mídia num sentido amplo.

É esse tipo de obra fragmentária (e quando se pensa em fragmento, imediatamente pensa-se em Nietzsche) que eu e Deleuze chamamos de “menor”. É exatamente esse tipo de obra que rompe com as grandes identidades literárias, que teve uma grande expansão na mídia, talvez muito maior do que todas as grandes obras constituídas, fechadas e amarradas em torno de si mesmas.

Tenho a impressão de que em todos os grandes autores poderíamos encontrar pontos de fuga da identidade literária. Joyce provoca a impressão de que há uma espécie de ponto de fuga no final da sua obra. Finnegans Wake, por exemplo, está de certo modo numa espécie de linha de fuga em direção a uma produção quase que a-significante – ou, pelo menos, nesta obra, Joyce tenta recompor uma linguagem que não é falada por pessoa alguma, que potencialmente poderia ser escutada pelo conjunto do planeta.

Em outras palavras, esse atributo “menor” para qualificar determinado tipo de expressão de caráter local, essa noção de “expressão menor” no campo da produção literária, não é forçosamente sinônimo de um degrau numa suposta hierarquia de tipos de expressão, numa espécie de divisão de trabalho literário. Hierarquia que permitiria dizer coisas como: “se você quer escrever só para você mesmo, ou para sua vizinha, muito bem, mas outros, escalando degraus superiores, vão poder chegar a grande literatura, e vão poder se impor nos grandes mercados da mídia”. Na verdade, o que se passa é o contrario: é exatamente a produção de uma pessoa que não escreve para alguém, nem mesmo para si própria, e que até, em alguns casos, vive seu processo de escrita como algo de estranho a seu ego, como uma espécie de intrusão produtiva, como um processo que pode ser ameaçador para seu sistema de representação de mundo – é exatamente essa produção singular e menor, esse ponto singular de criatividade – que terá um alcance máximo na produção de mutação da sensibilidade, em todos esses diferentes campos que chamei de revolução molecular.

Os sistemas de difusão de produção literária, artística, etc., são sempre concebidos como pertencendo ao domínio de uma pirâmide de controle e de seleção, que se encarna no fato de que há sempre um professor para corrigir as copias, um crítico para selecionar textos, um editor e assim por diante. Esse modo de difusão é muito segregativo do ponto de vista das produções selecionadas. Podemos muito bem imaginar sistemas de mídia e de difusão que não pertençam a esse sistema piramidal. Isso não me parece absolutamente utópico pois, afinal de contas, durante milênios a difusão dos mitos, dos contos, etc., não passou nem pela Globo, nem pelos dois ou três críticos que fazem a lei no mercado. E essas produções não deixaram por isso de encontrar seu campo máximo de difusão.

A mesma problemática se coloca em relação à imprensa alternativa e às rádios livres. O movimento das rádios livres na França sofreu os efeitos das intervenções do poder de Estado, a partir do momento em que ele parou de reprimi-lo. O Estado socialista na França disse: “muito bem, agora vocês vão fazer rádios livres numa boa, mas todas as rádios livres vão se submeter a um estatuto. Vamos subvencioná-las, mas para isso é preciso que elas tenham um mínimo de audiência, de qualidade e de utilidade social”. Com isso, noventa por cento das rádios livres francesas, caindo na tentação, se precipitaram num funil, com exceção de algumas poucas rádios (vinte ou trinta em toda a França, inclusive a Radio Tomate). Essas disseram: o que estamos afim não é de fazer grandes rádios livres, mas de fazer nossas rádios livres. O que estamos afim não é de difundir com meios sofisticados, nem de ampliar nosso alcance, mas simplesmente de que parem de encher nosso saco em nossa frequência de onda. Também não estamos preocupados nem com reconhecimento nem com eventuais julgamentos de valor; estamos pouco ligando para o índice de audiência, pois quem quiser que nos escute; se não basta virar o botão. Queremos ser os únicos a garantir aquilo que nos agrada, aquilo que é a nossa produção, sem nos referirmos aos novos tipos de julgamento da mídia que se instauraram há mais ou menos um ano”. Aí, a reação a essa atitude consiste em dizer coisas do tipo: “esse pessoal de radio livre tá pirado”. É preciso compreender bem o seguinte: quando nós, que nos recusamos a nos submeter a esses parâmetros, dizemos que não queremos fazer rádios profissionais, isso não significa que queremos ser amadores ou produzir coisas medíocres, mas apenas que não queremos nos tornar profissionais da nossa prática – o que não impede que estejamos afins de nos consagrar inteiramente a isso.

Voltando a Kafka: ele nunca se tornou um profissional do kafkismo. Depois é que apareceram muitos profissionais do kafkismo, pelas universidades e por toda parte…

 

necessário dizer – a mim mesmo também – que reconheço agora, com um tanto mais de sobriedade e calma, construir com este processofólio menos um trabalho em arte que uma tese em arte.

[Jandir] Tenho pensado em algo como arte sem trabalho, mas sob outra perspectiva: do escrito de artista, esse texto que dá a ver não só certa documentação do feito artístico, mas o que antecede sua feitura, os estados de espírito do artista, suas vacilações, suas projeções sobre o que aquilo irá ser ou quem irá impactar, o que mudou e o que se manteve do projeto primeiro etc.
[Pollyana] Hoje falamos sobre o gesto eficiente em arte, e fiquei pensando no seu interesse pela escrita do artista. Acho que você está buscando evitar o gesto eficiente, talvez. Fazer arte na persistência de um não objeto. Eficiência do gesto não eficiente. Também lembrei que o Hans Ulrich Obrist gosta de perguntar aos artistas quais são seus projetos não realizados, e seu desafio é realizá-los. Mas agora acho que isso resolve demais as coisas, que alguns projetos guardam potência exatamente porque ficam quietinhos lá nas gavetas-cabeças. Não é isso parte da história da arte brasileira?
[J] Eu sigo acreditando que os projetos não realizados e os artistas que existem fora da vista do circuitão são todos fundamentais. Afinal, é assim que a maior parte da produção artística está: não realizada ou não vista de modo amplo. Lembrar disso é lembrar de tudo que não vimos do que foi produzido por gente de pele preta, por exemplo. Aliás, tava hoje fazendo uma visita com um grupo escolar do município, e conversando sobre coisas que eles queriam falar quando estavam em frente a uma pintura. Realmente fico feliz de poder conversar sobre arte com pessoas que pegam ônibus para a Zona Norte, que tem uma vivência corporal outra a da postura comedida do visitante médio do museu, que estudam numa escola pública, que são episteme negra. Pareceu que conversar sobre arte com eles era subverter a instrumentalização clara e o lugar de gênese daqueles objetos artísticos, frutos de uma experiência social de gente rica, erudita.
[P] Eu também sinto falta de conversar sobre arte com gente que tem esse outro corpo. É curioso, mas acho que a gente vai ficando menos exigente na medida que conversa com mais gente do meio. Se a arte é uma linguagem, como alemão, afeto e tupi, só falar de arte com gente de arte é como deixar de se espantar com a língua, não reconhecer o absurdo de uma nova palavra que te joga no abismo dos sentidos, nesse exercício de entrar e sair da língua. É como ver certos trabalhos um pouco anestesiada pelo circuito. Ou, como no português, não estranhar mais ARANHA, CAMUNDONGO, PEIXE FRITO, ARROZ DOCE. Deve ser saudável evitar a constância. Circular.
[J] Pô, mas que lindo isso que você diz sobre a linguagem, de entrar e sair dela ao conversar com outros grupos sobre arte. Penso no que você disse no outro e-mail sobre a matéria estar disponível para a produção de sentidos diversos, e é isso. Me dá uma esperança pensar que ela está aí para quem tiver dispositivos sensíveis – olhos, ouvidos, pele – para tomá-la para si. Mas, já repensando o que acabei de dizer, acho que a matéria tem algo de poder nessa relação, e que nos submetemos a ela também nisso. É meio o que me faz acreditar que, se um Morandi sobrevive à uma feira como a Artrio, ele iria mergulhar o ruidoso Bar da Cachaça num ambiente de silêncio metafísico com muito mais facilidade, caso adornasse suas paredes.
[P] Eu quero levar o Morandi pro bar! Rs. Lembro de quando fui trabalhar numa galeria de arte. Passava dias sem um visitante sequer. Eram horas vendo o vento mexer a folha do vaso de planta, vendo os executivos saírem pra fumar, estudando seus sapatos, sua classe, a maneira como levavam o cigarro à boca e como guardavam os androids no bolso. De algum modo, eu era paga pra fixar meus olhos nas obviedades, até estranhá-las, junto de certa exploração. A exposição era ruim, mas acredito ter aprendido muito sobre arte naquela experiência.
[J] Entendo. Mas penso também no que há de traumático nisso de quando estamos monitores, que evoca nossa imobilidade quando nesta função versus o estado de ação a que associamos os artistas em suas obras expostas. Isso me faz pensar também numa amiga, que foi monitora comigo num trabalho, quando disse uma vez que ver imagens por tanto tempo, como aquelas expostas, faz mal. Não me esqueço disso.
[P] É que talvez as exposições se esforcem a nos fazer ver. A situação de perceber o olho vendo. E daí os dilemas de como fazer ver, ou ainda, o que se quer ver e quem tem o poder de fazer ver. Mas esse cansaço é também a experiência da vida. Experimente ir ao Saara. A vista fica cansada. Não se vê mais nada, ao mesmo tempo que se está imerso. Uma instalação que deu certo. É impossível distinguir objetos, texturas, presenças. Por outro lado, é também um exercício maravilhoso. Algo mais interessante que parte do feed autoreferente do instagram. O desafio é pensar como a arte se coloca diante do frenesi das imagens. Ou como as imagens se colocam diante da pretensão da arte.