
Pisque
2016
Impressão jato de tinta sobre papel
couchê
21 x 29,7 cm.
Registro fotográfico por Luciana
Grizotti, em ocasião do projeto artístico Box Exhibition.
Jandir Jr.

Pisque
2016
Impressão jato de tinta sobre papel
couchê
21 x 29,7 cm.
Registro fotográfico por Luciana
Grizotti, em ocasião do projeto artístico Box Exhibition.
31 Aline Besouro
Devoluções
2016
Ação com Jandir Jr.
…
Ação: devolver dois objetos encontrados aos mesmos lugares onde foram achados – nos arredores do morro da Conceição, onde se situa o espaço A MESA -: uma chave encontrada por Aline e eu em 2015 (na época em que eu ainda realizava um achados e perdidos, procurando os donos das coisas perdidas que encontrava) e um papel com um endereço da região, encontrado por nós em 2016, em data próxima a da Experiência 9 + 1 n’A MESA.
…
Aline Besouro <besouroaline@gmail.com> 22 de agosto de 2016 12:34
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

Aline Besouro <besouroaline@gmail.com> 22 de agosto de 2016 12:49
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>
to escrevendo 1 texto. quer dizer. nem comecei. to falando ele na mente enquanto to fazendo.
pensei em escrever um texto que fosse alguma coisa dentre tudo uma tentativa de ler c[odigos. alguma coisa que possa construir pelo menos uma possivel leitura do que eh isso tudo sem que se perca numa sobreposicao da oralidade. […]
https://sext4feira.wordpress.com/2016/08/30/exposicao-91-em-a-mesa/
Não quero dar papelões. Prefiro que eles continuem sendo catados, seja lá por quem for. Mas como fazer com que esses papelões se transformem num suporte, e os atores que o agenciam em outra rede social?
…
Devo perguntar a mim o porquê do interesse em dialogar com catadores de papelão. Nisso, penso adensar a questão ao indagar se meu interesse por conversar com eles reside em desejar-lhes, ou se vejo neles só a oportunidade de outra circulação social.
…
Vejo neles a oportunidade de outra circulação social.
…
(acho que não prosseguirei com isso)

Assunto: Porto Maravilha – Você tirou uma foto aqui!
Guia do Porto <guiadoporto@postalsocial.com.br> 23 de agosto de 2016 14:16
Para: mailexpressivo@gmail.com
Aqui está uma lembrança da sua visita ao Porto Maravilha, compartilhe com seus amigos e mostre esse momento!
Abraços,
Guia do Porto
“No tempo de cada um”
Papelera Residentes – P.residentes
Amanda Copstein, Felipe Ferreira de Almeida, Jandir Jr. e Joelson Bugila
Mangue – Porto Alegre
2016
(Em untitled (Perfect lovers), Felix Gonzalez-Torres põe, lado a lado, dois relógios de ponteiros numa mesma parede. Imagino que eles, por vezes, consigam marcar o mesmo tempo. Mas suas baterias não são a mesma; seus ponteiros hão de se desencontrar. Eis algo da inexorável natureza disso que Felix fez: o desencontro é iminente, enquanto, ali, o encontro é alusivo. A pulsão por presenciar a coincidência é o que motiva que os olhemos quando emparelhados. Nisso, há suspensão no que corriqueiramente se observa ao observarmos um relógio: destituídos da obrigação de nos dizer que horas são, vivemos junto a eles para ver, em seus compassos em descompasso, sua alusiva sincronia emergir no tempo de cada um) ))
Jandir deixou a sala de bate-papo.
———-
-falamos de desejo e de impossibilidade
-falamos da vida/ de cidades/ de cotidiano
-falamos do tempo de cada um
A proposta surge da vontade de materialização de um desejo. Desejo que consiste na produção coletiva que prioriza as trocas e o diálogo. no entanto nem todos se localizam no mesmo espaço físico da cidade e nesse processo se torna claro que cada um tem seu próprio tempo.
As correspondências físicas e virtuais se iniciaram em abril a partir da proposta de permanecermos juntos em um espaço – mesmo que apenas com nossos trabalhos – mas também surge a vontade de estarmos juntos no tempo e de fazermos dessa troca uma troca constante – assim durante uma semana conversamos. Como, ainda não sei. O horário, também não. Mas a vontade é maior que tudo (aí está, o desejo a nos guiar a construir algo)
No formato de conversa surge a vontade de interlocução, de chamarmos nossos pares a compartilharem conosco os seus processos para que assim a gente também compreenda um pouco melhor o que é isso que estamos a construir.
O encerramento dessa primeira etapa de diálogo se dá em forma de exercício em que materializamos essa produção conjunta e a distância em um dia de “exposição”
(essa parte pode funcionar mais como uma explicação, o verso da página – a ideia é imprimirmos o texto e fazer um bloco destacável para as pessoas levarem os textos consigo)
Release:
No tempo de cada um, projeto composto por Amanda Copstein (RS) , Felipe Ferreira de Almeida (RJ) , Jandir Jr. (RJ) e Joelson Bugila (SP) é desdobramento da iniciativa de redidência artística proposta pela Papelera, feira de artes gráficas que ocorre em Porto Alegre desde 2015. A produção conjunta dos artistas foi realizada à distância através de correspondências, e-mails e whatsapp desde abril de 2016 e hoje se concentra em formato de exposição de um dia durante a décima quinta edição da feira.
Serviço:
No tempo de cada um
Amanda Copstein, Felipe Ferreira de Almeida, Jandir Jr. e Joelson Bugila
R. Dr. Alcides Cruz, 398 – Mangue – Porto Alegre
27 de agosto de 2016
14 – 20h
Edição: joelson
“No tempo de cada um”
Amanda Copstein (RS), Felipe Ferreira de Almeida (RJ),
Jandir Jr. (RJ) e Joelson Bugila (SP)
Mangue – Porto Alegre
2016
(Em untitled (Perfect lovers), Felix Gonzalez-Torres põe, lado a lado, dois relógios de ponteiros numa mesma parede. Imagino que eles, por vezes, consigam marcar o mesmo tempo. Mas suas baterias não são a mesma; seus ponteiros hão de se desencontrar. Eis algo da inexorável natureza disso que Felix fez: o desencontro é iminente, enquanto, ali, o encontro é alusivo. A pulsão por presenciar a coincidência é o que motiva que os olhemos quando emparelhados. Nisso, há suspensão no que corriqueiramente se observa ao observarmos um relógio: destituídos da obrigação de nos dizer que horas são, vivemos junto a eles para ver, em seus compassos em descompasso, sua alusiva sincronia emergir no tempo de cada um.
Jandir deixou a sala de bate-papo.
Papelera residentes é uma iniciativa da feira de artes gráficas Papelera, onde convidou 4 artistas para uma residência de forma livre que teve inicio em abril de 2016. Com pouco capital e com o desejo de estar juntos, se criou um “lugar” de confluência obedecendo a distância de cada uma de suas cidades, que são: Niterói, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.
Ao desenrolar dos dias, foram surgindo formas de comunicação, como e-mails, correspondências, mensagens de texto e áudios por whatsapp, conversa por skype e hangouts, que só potencializava o desejo, seja de encontro, sentido e diálogo.
Esta residência a distância, foi desenhada em grupo e no tempo de cada um, onde surgiu a vontade de interlocução, de apenas um dia de exposição, tornar público esta espécie de “linha do tempo”, que se materializou em cartas, papéis, áudios, cartazes, e-mails impressos entre outros resíduos.
No tempo de cada um, projeto composto por Amanda Copstein (RS) , Felipe Ferreira de Almeida (RJ) , Jandir Jr. (RJ) e Joelson Bugila (SP) é desdobramento da feira de artes gráficas Papelera, que ocorre em Porto Alegre desde 2015. A produção conjunta dos artistas foi realizada à distância através de correspondências, e-mails e whatsapp desde abril de 2016 e hoje se concentra em formato de exposição de um dia durante a décima quinta edição da feira.
Ed. Felipe
O que é mediação?
Atuei como educador estagiário no Museu de Arte do Rio desde sua inauguração, em 2013, até meados de 2014, onde fui interpelado por três vezes a responder, em exercícios semanais, à pergunta ‘O que é mediação? ’.
Em minha primeira resposta, optei por escrever sobre dois dias do meu trabalho, em que falei do mediador enquanto uma espécie de sedimentador de terrenos e sujeito ao terreno acidentado ele mesmo, e sobre a vez em que, criança, perguntei algo à minha avó sobre meu falecido avô e ela chorou, sem conseguir me responder. Isto eu correlacionei à questão que nomeia esta carta, ainda sem saber muito bem o porquê as achava próximas, o choro e esta pergunta.
Na segunda resposta que dei, ao que me lembro – já que a escrevi exclusivamente em uma das reuniões semanais -, falei sobre quando uma visitante chorou em atividade educativa comigo ao relembrar de seu falecido pai. O que recordo do que disse, e que relacionei prontamente ao choro de minha avó, foi que nada consegui fazer a respeito daquilo, que paralisei frente ao choro dela e tive a impressão de que não sabia entender suas memórias, quando embebidas em lágrimas, como contribuição para a atividade educativa e para o processo de mediação que ali emergia. E nisto, aludi ao que é difícil reconhecer como contribuição do público para além do que é usual a nós quando instituição.
Na, até então, última resposta que dei à questão, pensei a mediação como desconforto, em que o desconforto não era apresentado como simples subtração de conforto, mas como processo criação através da rarefação dos afagos e delícias corriqueiros que, por vezes, se faz nas atividades realizadas com mediadores e educadores em espaços como o do Museu de Arte do Rio. Terminava, contudo, me indagando se me comprometia a criar quando gerava desconforto com minha atividade no museu ou se somente suprimia o conforto, sem empreender outros possíveis.
Em um crescente dessas respostas em predicar a atividade educativa e de mediação em museus em situações conflitivas – como na tristeza saudosa ou no desconfortar que vivenciei -, responderia hoje, nesta minha carta de intenção, que a mediação cria não só pelo consenso, mas – e, quem sabe, com mais poder – pelo dissenso. Desde as pressões que grupos sociais realizam para a inserção ou exclusão de sujeitos dentro dos espaços expositivos e funções museais até os incômodos que exposições podem causar a um visitante médio, há profícua arena onde se desenvolvem processos de mediação dos museus, em consonância com sua vocação dialógica e quando alinhados com preocupações democráticas precursoras.
Vislumbro esse tipo de preocupação democrática no Museu de Arte do Rio. Ainda que em evidente vínculo com políticas municipais criticadas por grupos sociais – e talvez fomentado por isso -, o museu faz ver seu compromisso com o processo de mediação que gera com sua existência ao investir em atividades inclusivas – como em sua programação continuada com a comunidade surda e no seu sediar a Batalha de rap do Conhecimento -, em processos de revisão histórica e crítica – como ao assumir a contínua exibição, aquisição e documentação de artistas de fora do historicizado e socioeconomicamente fortalecido eixo sudeste – e em seu compromisso comunitário – ao atuar junto às instituições, organizações e às pessoas vizinhas no acesso e representatividade dentro de sua programação -.
Ex-estagiário no Museu de Arte do Rio, agora um graduado em artes visuais suburbano e negro, implicado nessa mediação entre a instituição e amplos setores e indivíduos de nossa sociedade, desejo colaborar algo mais nela, no que justifico minha candidatura ao cargo de Educador II.
Carta de motivação entregue em minha entrevista para a vaga ao cargo de Educador II no Museu de Arte do Rio, ao final de julho de 2016. Em agosto, fui selecionado e contratado pela instituição.
Me recordo do ano de 2013, em que estive dentro de um grande prédio branco observando manifestantes em alvoroço gritarem contra as paredes que me abrigavam. Digo abrigo, mas mais creio prisão nelas. As paredes não amalgamavam comigo confortavelmente. Ao contrário, alocavam sobre minha pele, causando dores aos meus ossos, porque pesavam sempre. Não permaneciam à 90 graus em relação ao solo: sempre tombavam. E sempre tombavam para o meu lado. Mas só o suficiente para encostar em mim, apoiando um pouco seu peso e me fazendo gotejar de suor. Não me esmagaram.
Ouvi dizer, há tempos, que foi encontrado um esqueleto emparedado naquelas mesmas paredes que me pesavam; dum corpo torturado, remanescente do período ditatorial, onde esse prédio, que não era o da Escola do Olhar do Museu de Arte do Rio, foi um dos locais de uso do exercício desse poder de exceção. Se houvesse me detido nesta lembrança tempos atrás, teria medo de que meu próprio esqueleto adentrasse a densidade daquele sólido branco em 2013, já que doía, já que me era tão próximo e exercia pressão nos ossos. Mas a brancura da Escola do Olhar não engoliu a brancura do que há de cálcio em mim. A cor da minha pele repousa nela.
Sou negro. Não há felicidade em voltar a trabalhar no lugar em que, quando Dilma esteve presente, me obrigou a estar disponível, porém invisível enquanto não me quisessem dentro das galerias com o seleto público inaugural, o que me deu a ver, neste ínterim misto de ócio e cárcere, dentre as frestas das janelas, as bocas dentre os tapumes do canteiro de obras Praça Mauá e os carros em fluxo. Bocas que gritavam não sei exatamente o quê, e que, por isso, se somavam ao rumor daquelas vítimas das violações dos direitos humanos perpetuados pelo estado em seu novo rosto olímpico. As ouvir foi ouvir que o que me pagava as contas era erguido no vácuo gerado por um bem dado foda-se ao sangue e às lágrimas das pessoas faveladas. As relembrar hoje, no momento em que retorno agora como trabalhador CLT ao Museu de Arte do Rio, seria como me sentir o escravizado da casa grande, caso eu não fosse coagido a estar ali pelo cenário precário de empregabilidade aos graduados em artes no Rio, onde este museu foi o único lugar que me ofereceu condições de subsistência como mediador.
Mediador: não um educador, não um arte-educador, não um guia, não um artista. Mediar é situar-se entre a instituição e seu amplo público. E, se creio haver problemas raciais-etc. no cenário e episteme artística, penso: talvez não queira ocupar outro lugar que não esse. Não sou um artista-etc. quando num setor educativo de museu. Ao contrário, sou seu público. Sou a escuta, mas posso ser também a boca dessas bocas, a pele dessas peles. Não sou artista nem autor quando aqui; ser autor é estar em desvantagem numérica.
Minha esperança é a de não ser qualquer público quando ali, contudo. Não estou junto ao estrato daqueles que visitam o museu com suas camisetas polo e suas famílias heteromedianas. Como disse na carta, me filio nominalmente às alcunhas suburbano e negro, o que fiz para o delineio de minha preocupação, no contexto da discussão de um museu como exibidor do que é relevante a tantos olhos, sobre a revisão constante da aparente estabilidade do que está exposto. Estremecer o lugar das chancelas dos privilégios que compõem o acervo dum lugar destes pode ser o papel de quem trabalha na sua amálgama com a multidão que parece pacífica dentro e fora das galerias, quando, em cada uma das pessoas que a compõem, fervilha a ânsia por uma revisão permanente das bases democráticas que determinam o que se dá à vista. Justifico-me, assim, um lugar neste museu para minha pele sob suas paredes.
Tenho minha crença no Museu de Arte do Rio corrompível na medida em que sua vontade democrática precursora se mostra corrompida a nós. Quando os avanços no enegrecimento-etc. da instituição se apresentam tímidos, falsos, ou mesmo quando convencem, faz-se irredutível o fato de que sua existência se dá sob violações de direitos perpetuadas por forças verticais à população, vindas do vínculo de nossa atual gestão pública com os interesses corporativos mais escusos. Daí, não posso deixar de querer me perfilar com as vozes que empurram as paredes desse museu mostrando seus problemas gênicos, propondo mudanças factíveis, utopias urgentes, ou mesmo se permitindo chorar dentro dele. Sim, desejo também o choro para o museu. E desejo essas manifestações em seus corredores administrativos, para seu corpo de funcionários, não para o público, como se somente ele devesse ser educado ou assistido. Isso implica que eu, a todo o momento, revise meu lugar como estrutura daquele prédio, que eu não me deixe submergir em suas paredes brancas, que meu esqueleto não repouse como viga à sua sustentação, mas que só minha pele esteja grudada nela – já que é onde estou, por dinheiro ou não -, habitando a fronteira entre seu silêncio expositivo e o que se ouve, caso deixemos nossos ouvidos apurados aos cochichos dos visitantes que se calam quando os interrompemos com propostas educativas sobre as exposições em cartaz.
Se multidões estiverem ali dentro, talvez as paredes voltem a posição normal. Noventa graus em relação ao solo. Meus ossos deixariam de doer. Não haveria mais esforço. Minha pele não estaria colada às paredes. Meus poros respirariam. Seríamos dois novamente. Saberíamos que o público habita os corredores internos e galerias do museu, mas também reside do lado de fora, o que equilibraria os alicerces institucionais. Sem esse par antitético, as paredes tombam. E, na iminência desse tombo, não posso mais que tentar equilibrar a balança com meu próprio corpo. O risco é grande. Posso ser esmagado. Posso sumir. Mas o que fazer que não ladear às reivindicações do público do museu, que não somente habita suas galerias?
Por isso, e apesar de que escrevi isso tudo, vim aqui somente para corrigir um trecho da minha carta. Quando disse que desejo colaborar algo mais na mediação entre o museu e os amplos setores e indivíduos de nossa sociedade, queria dizer, na verdade, que desejo estar mais nela – e não colaborar mais com ela – ao me candidatar à vaga. Não há essa noção de colaboração no processo de mediação como o concebo, a não ser que seja algo ou alguém estrangeiro – não seu público -, parcialmente atribuindo dois lados às problemáticas levantadas pela mediação e ajudando somente um desses lados, a, então, colaborar.
Não sou nem me faço um estrangeiro quando ali. Sempre compus essa mediação. E agora, Educador II, me matizo. Público: sim, eu sou o museu. Mas museu, não se engane: eu sempre serei o público.
O que é uma escola livre?
Usualmente, acho que a liberdade possa ser encontrada em algo como o que acontece à cadela entre o momento em que tiramos sua coleira e o momento em que ela corre alegremente. A liberdade me parece durar pouco para garantir uma constância.
Mas me recordo da Marta Mestre declarando durante uma de suas aulas como curadora visitante que não conseguia deter atenção em vídeos expostos em galerias, em museus etc. E me recordo tão em seguida do dia em que ela nos apresentou o vídeo de Richard Serra, Hand Catching Lead, e fez questão que se transcorressem seus três morosos minutos por completo, nos quais apenas há uma mão contra um fundo neutro tentando capturar pedaços de chumbo a cair constantemente, entrando e saindo do recorte do quadro, de cima para baixo. E quero confessar hoje, visto isso, que tenho alguma impressão que liberdade também possa se dar quando queremos algo em longa duração, e que a mão de Richard Serra não buscou a captura em seu vídeo, mas, disponível aos chumbos em declínio, me pareceu tornar somática a própria liberdade.
Nunca diria que há uma escola livre. Nem desejo exatamente escolas livres, pois anseio compromisso com a liberdade que irromperá em toda a escola. E a liberdade – que entendo como este momento suspenso em que ainda não desejamos, mas finalmente iremos desejar – já não sei se virá pelo fugaz ou pela duração; me é difícil raciocinar sobre isso agora.
(com Lisette Lagnado, para um livro que não chegou a ser publicado)
Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com> 15 de agosto de 2016 09:14
falo do banco dos irreais. a pretensão a criar uma plataforma que servisse para alavancar a autonomia da população me parece muito bacana. mas era um estrangeiro querendo fazer isso em meses dar certo. não deu certo, pq precisava de envolvimento… e escuta. existem outros bancos de tempo aqui no rio de janeiro. cada grupo social provavelmente precisava de uma plataforma diferente. o site foi feito por alguém completamente desinteressado com a causa [o designer, a equipe de comunicação]. e tudo, no fim, acabou ficando extremamente verticalizado, demandado pelo josé, mas sem adesão real – em longo prazo – de qualquer grupo social. foi um projeto que se preocupou em fazer sem se por em risco de se modificar pelo contato com outras pessoas. pouco se conseguiu contato, pq tudo deveria ser feito muito rápido. e, por fim, por tudo isso, ele acabou sendo mais uma instalação no mar que uma plataforma para além de lá.
talvez o melhor nem fosse fazer essa plataforma. quando conheci josé, soube que a pretensão dele era fazer uma publicação sobre como viver no capitalismo sem dinheiro com exemplos daqui. isso me interessou. mas o banco dos irreais, projeto posterior dele, é sensivelmente diferente. depois do meu contato com o banco dos irreais, percebi que essa economia não poderia ter partido do josé somente – estrangeiro, isolado da realidade do nosso estado, pensando economia solidária com seu acúmulo de conhecimento, mas sem conhecimento algum dos territórios aqui do rio e do brasil -, mas sim de cada grupo… acho que um mesmo banco de tempo para todos não existe nesse nosso momento. mas sem grilos; as pessoas conseguirão se mobilizar quando necessário.
gosto muito do josé e dos trabalhos que ele fez. mas fiquei com a impressão estranha de que as residencias artísticas são contrapartidas falsas para a sociedade no fim das contas. josé, que tinha a intenção de criar um projeto impactante aqui, não o realizou bem. falta de tempo, de recursos… sobretudo, creio que, dentro dessa intenção dele, a coisa não aconteceu; a sociedade não foi beneficiada como deveria ser. mas ao josé, artista em visibilidade no mar, houve um pagamento: sua valorização simbólica cresceu ao fazer o projeto de qualquer forma. teve mídia, entrou pro seu currículo, está documentado e faz parte do acervo do maior museu do rio de janeiro. fico pensando nessa amálgama entre os interesses institucionais, o incentivo financeiro corporativo, público, a carreira como artista e a vontade de criar mudanças sociais… já não sei se essas coisas conseguem andar juntas, harmonicamente. será que dá pra assinar alguma coisa e promover impacto social? será que o autor e o anarquista conseguem viver no mesmo corpo? será que um museu – o local do discurso dos vencedores – e o capital privado e público podem ajudar realmente nisso? ou vão atrapalhar, ditando outro ritmo, outras demandas, complexificando com suas demandas a demanda revolucionária?
por via das dúvidas, parei de me inscrever em editais para residencias e salões e exposiçoes. tenho escrito um pouco mais, buscando um lugar mais calmo para pensar… onde eu quero estar?
já não sei se quero estar num acervo como realização pessoal da minha vida. mas acho que ainda não conheço o que gostaria para mim, já que passei uns seis anos achando que ser um artista em visibilidade fosse o ápice.
talvez esse lugar tenha de ser inventado. talvez, esse lugar tenha de ser assumido, por ser o lugar que já ocupo; o lugar da banalidade da vida comum, sem privilégios, sem publicização.
já não me importa tanto o banco dos irreais, rs. foi importante para que eu pensasse essas coisas a partir da decepção p com ele.
sigo pensando, para que um dia eu consiga não escrever perguntas quando vc me perguntar coisas.
hoje, há uma hora atrás, ou mais que isso, andava pelo campo de santana quando decidi entrar por umas ruas desertas no mercado saara para chegar até meu ponto de ônibus. pensava se haveria risco de assalto ao fazer aquilo, quando uma viatura policial parou ao meu lado. um fuzil saiu antes do homem que o portava, seguida de uma sentença – encosta na parede. encostei. a revista foi diferente das outras vezes em que isso aconteceu comigo recentemente. nessa, o armamento era mais pesado, as mãos invadiram meus bolsos e bolsa com mais pressa, as perguntas eram repetidas, para tentar descobrir se eu vacilaria ao responde-las novamente. disse que estava na região por trabalho. – onde você trabalha? – no museu de arte do rio. – você tem alguma documentação que comprove que você trabalha lá? surpresa. disse que não. e só relembrei que carregava meus pontos de saída e entrada quando ele abriu minha carteira, os olhou, perguntou meu nome, eu respondi certo, ele olhou de novo, pediu minha identidade novamente, eu dei, ele olhou de novo e me disse – pode ir. agradeci olhando nos olhos dele, no que ele respondeu – boa noite. nessa abordagem, já não tenho tanto medo. já me aventuro a olha-lo. sei quem eu sou. e ele já sabia quem eu era; que não seria eu quem iria rodar daquela vez.
neste momento olímpico, a região central carioca, onde trabalho, tem nisto um pretexto para limpar a cidade dos homens jovens perigosos. hoje fui visto como um desses pelo p m. e entendi nisso que corro um risco provavelmente maior da violência policial do que da violência perpetrada pelos que tem o corpo parecido com o meu. essa abordagem que sofri há pouco foi normal, semelhante ao que já vivi. mas poderia ser outro p m, que plantaria drogas em meu bolso, que seria abusivo, que conseguiria me levar mesmo sem flagrante algum, ou mesmo que me violentaria fisicamente.
peguei meu ônibus. sempre sigo rumo à penha circular. quando dei sinal para saltar, percebi que o motorista parou o carro uma boa distância depois do ponto e, logo que eu desci, ele arrancou. só aí vi que um grande grupo de jovens parecidos comigo havia dado sinal no mesmo ponto em que naquele momento eu chegava. eles, que pela arrancada estratégica do motorista não conseguiram pegar o ônibus, gritaram e o xingaram. observei então suas chuteiras e uniformes; voltavam de sua pelada do fim de semana, e indignavam-se no ponto. num deles ainda restava certa jocosidade, que me despertou quando, risonho, ele gritou aos outros – mas também, olha só a cara dos marginais que deram sinal! (risos)


Sem título. Amador e Jr. Segurança Patrimonial LTDA. Performance.
Os performers vestidos de segurança/ monitor institucional devem ficar
frente à obra que deve salvaguardar alterando, assim, sua visibilidade.
Cronograma:
Amador & Jr. Segurança Patrimonial realizará as performances na
abertura da exposição Intervenções: entre XIX e XXI, respectivamente dias 12 de Julho, durante todo o período de funcionamento do MNBA (das 12 às
17 horas). A performance acontecerá continuamente na galeria, sendo
estipulado entre os performers seus momentos de revezamento para
descanso.
http://processofolio.tumblr.com/post/136752942229/croqui-realizado-por-antonio-gonzaga-amador

(é o caso de falar de rostidade ?
(lembro agora que foi o antonio quem me disse, uma vez, que andar pelo saara de noite era mais seguro. pus aqui, mas acho que esse texto é só pra ele.)