“Oi, ZoNa,

Gostaria de comunicar que não estarei mais presente durante a residência, nem durante a exposição aberta ao público. Ao escrever minha chamada aos artistas na parede do galpão e participar da reunião com vocês, me dei conta, aos poucos, que não deveria estar presente no És Uma Maluca enquanto espaço expositivo que me proponho, mas sim estar em qualquer outro lugar que não aí; expandir a possibilidade de atuação para além muros, ampliar o debate que está acontecendo por aí para os outros setores da minha vida. Sim, isso é uma deliberação exclusiva minha, porque, enquanto espaço expositivo aberto a propostas, tenho interesses a defender. E o mais premente deles, neste momento, é o de afirmar nossos corpos, periferidades, fragilidades e psiques como lugares de realização artística tão potenciais quanto qualquer espaço de exposições – experimental, como o És, ou não -. Por isso, me coloco aqui como espaço autônomo e alternativo ao ZoNa.

Logo, estou aberto ao diálogo. Meu e-mail está escrito na parede. E, se disse que pretendo mais negar as propostas que receber do que as acolher irrestritamente quando estive com vocês, é para ratificar o diálogo – isto é, o ato de investigarmo-nos em nossa completude – como o produto que privilegio, em detrimento de ser como uma tela em branco a ser preenchida. Não sou um meio expressivo neutro, nem uma galeria cubo branco. Espero que eu, problemático como me apresento, ainda assim seja de interesse.

Um grande abraço, desculpem não ter manifestado o conteúdo desta carta em reunião (só pude desenvolver esta fala a partir de nosso encontro) e obrigado pela convivência,

– hoje, 9/5/2016, eu penso que faço arte como um modo de viver a espiritualidade e de produzi-la. como ateu, busco uma maneira de viver o mundo pela mística e isso se dá através de um duplo movimento, entre a imanencia das coisas e a transcedencia que se dá na transpiração delas, já que não posso mais conviver com uma espiritualidade teísta ou dentro de preceitos espirituais distantes de meus habitos sociais ocidentais-suburbanos. dái a arte me tem sido um modo de chegar nisso. fiz uns anos de graduação em artes, uns anos de cursos de arte livres, e agora tenho vontad de mastigar isso tudo que aprendi. enegrecer a branquitude da episteme-epiderme arte. deturpar o meu procedimento muitas vezes conceitual – informado pelo conceitualismo norteamericano e pelo conceitualismo gauche brasileiro – com a falta de palavras da experiência espiritual… mas tenho um longo caminho pela frente, porque pensei nisso hoje. antes eu nem sabia que fazia arte pra me espiritualizar… mas talvez eu esteja errado.

 

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Jandir Jr.

sem título

2012

Nanquim sobre papel

15 x 11 cm.

 

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Elaine Tedesco

Cabine para Isolamento

Madeira e tecido

275 x 216 x 100 cm.

Foto no Mercado Público Central de Porto Alegre, 1999

“Meu bilhete unico universitario foi definitivamente cancelado hj, dia do trabalho.”

(Atualmente, tenho colecionado ingressos que compro e não uso)

“Estou aqui pensando um pouco nas minhas questões q estava conversando contigo ontem, sobre profissionalizar, ser professor, não ser artista… Me sinto perdido nisso tudo porque não tomei uma decisão. E eu só funciono quando tomo decisões (tipo quando parei de comer carne, foi uma decisão Clara p mim)… Mas acho q to assim porque estou tendo q tirar um alvará como artista e não pude pensar suficientemente se queria esse tipo de relação profissional. Mas agora já está aconteçendo. Não foi uma questão de escolha afinal.”

 

A partir de amanhã, começarei a dar envelopes vazios, não lacrados e carimbados como este da imagem aos meus amigos, às minhas amigas, às caixas de correios de casas desconhecidas, aos desconhecidos – caso eu não fique envergonhado – e a você.

 

*inverter a ordem das coisas nisso de ser artista que tenho feito: não ser produtor, mas ser produzido; não agir, mas ser o alvo da ação; não conduzir, mas ser conduzido… tudo isso, não sem resistir.

arte, palavra relacionada à habilidade em sua gênese… proponho q possa dizer respeito ao sujeito que a recebe, que a incorpora…lembro do parangolé de hélio que tinha alguma palavra assim… incorporação… produzir e fruir não fazem sentido palavras estanques. pq se assina, pq se faz arte, pq se ensina assinar algo como arte? eu n entendo