coragem:

decidi que se, ou quando, submeter inscrição a qualquer processo seletivo em artes, apresentarei como portfólio o de quase 200 paginas, que abrange desde meu nascimento até meados de 2015.

após passar alguns tempos montando portfólios alternativos, me lembrei de ter coragem. eu sou esse das duzentas páginas, não das dez ou quinze que agradariam os avaliadores seguros dos seus nãos.

se um não, pura e simplesmente, é resposta à minha inscrição, nunca deveria ter estado ali. (mas não importa: lá estou, como sou, em muitas páginas) Aline deu ao mundo a frase “Sem medo”. E eu quase não tenho medo agora. sinto orgulho de mim. sou forte suficiente para atuar onde não se prevê atuação: no projetual.

Mas tudo isso é por não conseguir deixar de participar de coisas em que se ganhe e se perca, um dos meus planos de fuga.

Talvez por que fugir não seja possível

talvez por algum motivo que ainda não sei ou não queira dizer tão bem.

(um dia, conversando com Casimiro, disse que o pacifista era um nômade. Ele me provocou subitamente ao perguntar se aquilo não seria covardia – não me recordo das suas palavras, mas elas queriam dizer isto -. minha resposta possível foi dizer que o pacifismo, em seu nomadismo, existia até quando era possível andar por si só, deixando o que lhe incomoda para trás a viver uma própria existência longe da sua. Quando não era mais possível seguir, quando o incômodo se configurava como barreira à liberdade, ser um nômade pacifista já não era mais possível. E nisso, só vislumbrava duas alternativas: se submeter docilmente ao incômodo ou confronta-lo, insubmisso. Ele aquiesceu, por fim. concordamos nesse ponto)

(07/03: percebi q este meu portfólio tem data de validade)

O seguinte texto é minha proposta – não selecionada – à residência ComPosições Políticas, outras histórias do Rio de Janeiro, que ocorreu durante o mês de março de 2016 na Maré. Proponho aqui ler tal proposta, junto com este breve resumo, à audiência do Simpósio Internacional UTOPIAS. A este palimpsesto propositivo dou a categoria de performance, assim como à sua leitura em voz alta, caso selecionada, já que ela mesma se põe no limiar entre sua hipotética realização e seu aqui anunciado fracasso. Utopia claudicante, caso presente como parte da programação deste simpósio, anuncia um futuro que já não mais será, mas que retorna, agora como proposta irrealizável; resquício documental de uma intenção vinculada ao utópico que é habitante do passado, não do porvir. Performada como comunicação, terá no meu fôlego e vocalização seu último momento de vida, ainda que uma vida estranha; uma ressurreição artificial. Estranha utopia essa de pouco fôlego, de ofegante respiração.

Não só me expressar, pouco me expressar, não me expressar – ser meio expressivo.

(mailexpressivo@gmail.com)

se as coisas estão ruins para todo mundo, no sentido de que estão ruins para as mulheres brancas, elas estão piores ainda para as mulheres negras. Silenciosas e sofredoras nós somos manipuladas ao longo das páginas quase sempre em notas de rodapés.(Torres, Carlos Alberto: 2001:136)

Diversidade, etnicidade, identidade e cidadania, de Kabengele Munanga (grifos meus)

Esta é uma purpurina, fragmento do carnaval de 2016, que encontrei há pouco isolada no chão da minha casa. Deduzo que fui eu, involuntariamente transportando-a grudada ao meu corpo, quem a trouxe para cá.