Sublinharei à lápis trechos que escolherei em todas as impressões de uma revista em que fui convidado a intervir.

Temi, num primeiro momento, realizar isto. Me parecia que deveria somente escrever daqui pra frente, dedicar-me aos escritos reflexivos sobre minha prática. Percebi, contudo, que ignorar uma prática e pôr essa escrita em primeiro plano a faria perder seu caráter e tudo que me interessava nela – sua qualidade intervalar, sua possibilidade de expressar crise e fiasco, seu aspecto de coxia -, transmutando-a em obra; não mais continente e conteúdo.

Sei do que preciso. Preciso não mudar o mundo. Fazer coisas que, ainda que não existam, sejam invisíveis ou sumam, sejam coisas. Ainda creio nesse sublinhar, ainda que em algum dia desses tenha pensado que aceitar convites públicos, e que me dedicam à esfera pública, rivalizam com essa vontade citada. Bobagem. Não há público tão eficiente que dê conta de ver o que faço. Não há privado tão privado que exclua a possibilidade duma pessoa desconhecida e indesejada nele.

Sigo. E você não vai ver tudo.

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ANTESSALA é um jornal em serigrafia e é também o primeiro exercício de curadoria do trio VNTD.

Foram cinco encontros com convidados que atuam nos campos da arte, da educação, da museologia e da poesia para pensar sobre o prédio que funcionou como órgão de controle e repressão no Rio de Janeiro durante o período da ditadura militar, também conhecido como ex-DOPS/RJ.

Atualmente fechado para obras, o prédio já esteve em vias de se transformar em Memorial da Resistência, embora também exista a proposta de um novo Museu da Polícia Civil.

Nesse contexto de múltiplas apropriações, propomos produzir um memorial afetivo de um espaço soterrado de camadas significantes. Nossos encontros, sempre realizados no entorno do prédio, envolveram discussões sobre o projeto do museu, a questão da anistia no Brasil, os usos do edifício, a querela arte x política, piqueniques, informalidade e devaneios.

O motivo para a escolha de uma publicação não encadernada foi de permitir que os trabalhos fossem acessados de modo não linear e individual, também garantindo um atravessamento e contaminação das propostas.

ANTESSALA, nome do projeto, veio para explicitar a dimensão impeditiva de pensar sobre um lugar que não se pode acessar. Ou, ao menos, não se pode acessar o seu interior, seus rastros e parte de sua memória. A antessala, essa espécie de sala de espera, é um espaço criado para agir na exterioridade do DOPS, nas cicatrizes de sua casca-arquitetura, caçando na matéria as ficções possíveis, fazendo curadoria do fora.

VNTD é Aline B, Jandir Jr. e Pollyana Quintella.

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Participam desta edição:
ALINE B
ANA LUIZA BRAGA
ARANTXA CIAFRINO
GABRIEL GORINI
JANDIR JR
MARIANA LYDIA BERTOCHE
POLLYANA QUINTELLA
THIAGO ORTIZ

Das 22h do dia 20 às 10h do dia 23 de abril de 2014, todas as pistas da Avenida Brasil foram fechadas na altura do bairro de Ramos em virtude das obras para a construção da ponte estaiada do BRT Transcarioca. Minutos após o início desta interdição, moradoras e moradores da região ocuparam tais vias vazias, sem carros, utilizando-as como uma área de lazer. Estas presenças que então jogavam futebol, andavam com skates, patins, bicicletas, passeavam, corriam e aproveitavam de todo modo aquela grande extensão disponível poderiam lembrar o parque público High Line em Nova Iorque, construído sobre uma linha de trem desativada, ou mesmo o Elevado Costa e Silva em São Paulo, conhecido como Minhocão, que, atualmente, em horários específicos, é interditado e torna-se uma área de uso recreativo. Mas uma diferença crucial se coloca: diferente dos projetos citados, frutos de tomadas de decisões públicas, projetos urbanísticos vindos de um consenso – suposto, muitas vezes – da sociedade civil, a ocupação na Avenida Brasil dos dias 20 a 23 de abril de 2014 partiu da própria deliberação multitudinária – sem pautas definidas, sem estar organizada por um interesse coletivo expresso claramente – das moradoras e moradores das regiões próximas às pistas interditadas. Julgado então espaço ocioso, naqueles dias de lazer a Avenida Brasil se tornou o que muitas pessoas desejaram ao nosso antigo Elevado da Perimetral à época de sua derrubada: um espaço, com outros usos, estruturalmente conservado.

Em 14 de janeiro de 1969, Helio Oiticica inicia texto seminal às suas práticas artísticas a partir de então com a frase “Não ocupar um lugar específico, no espaço ou no tempo, assim como viver o prazer ou não saber a hora da preguiça, é e pode ser a atividade a que se entregue um criador. ”. Aí então é cunhado o conceito crelazer, preocupação evidente de Helio com a colocação do lazer em potencial, em detrimento de sua correlação usual ao trabalho, como algo a ser realizado no tempo ocioso do citadino. Coloca Lisette Lagnado no texto Crelazer, ontem e hoje, publicado no caderno SESC_VIDEOBRASIL vol. 3, que:

“Nos tempos vividos em Nova York, junto com Romero, [Helio Oicitica] tentou uma experiência não muito bem-sucedida: entrar no metrô, num determinado trajeto (no trem 4, direção uptown para o Bronx), e fazer os trabalhadores em trânsito usar Parangolés-capas (1972). Percebeu que a resistência participativa das pessoas poderia estar relacionada com sua grade horária de trabalho. Para haver participação, o tempo precisaria ser “aberto”, o público teria de anular compromissos e obrigações. ”

Sendo “um programa in progress (…) uma política contínua e que, portanto, absorve os humores de cada época” (ibidem), não é difícil identificar o crelazer em cada proposição de Helio, sua postura anárquica em vida, em arte, e em cada momento de prazer desalienado das estruturas de trabalho que podemos viver até hoje.

Solidário ao lazer que ocorreu na Avenida Brasil em abril de 2014 e identificando nisto o crelazer que Oiticica nos aponta em 69, durante minha residência junto ao projeto ComPosições Políticas, outras histórias do Rio de Janeiro proponho fechar a Avenida Brasil durante 3 dias. Para isso, usarei de todos os métodos possíveis e necessários para realizar este trabalho: entrar em contato, via e-mail, telefone, presencialmente, com instituições, órgãos e indivíduos que poderão chancelar tal ação; realizar abaixo-assinados com a população local pró este fechamento de 3 dias; hastear grandes cartazes e bandeiras nas passarelas da avenida para pleitear a interdição aos que ocupam os veículos que a cruzam diariamente; estimular o uso das redes sociais para reivindicação; dentre outras formas que serão descobertas e desenvolvidas em colaboração com moradoras e moradores da Maré, artistas residentes, dentre as outras pessoas que estiverem próximas no decorrer deste mês de março.

Helio ainda chega a indagar em 14 de janeiro de 69 se “crelazer é o criar do lazer ou crer no lazer”. A necessidade de acreditar no potencial criativo do lazer se interpõe à criação livre nele. Crelazer não é totalmente crível. Ainda busco acreditar no lazer e proponho o que me parece possível frente ao magnânimo do lazer destes que ocuparam a Avenida Brasil. Já não posso tanto ser propositor como este Helio em 69 que tanto nos contribui com seus escritos e práticas. Mais me concebo como alguém que deseja abrir espaços para a multidão que nos mostrará novamente como crelazer, como sempre o fez e faz. Pois foi ao ver as imagens desta ocupação da Avenida Brasil e lembrar deste conceito, crelazer, que me dei conta deste acontecimento já como potência às artes visuais (não uma potência esteticista: “adeus, ó esteticismo “, nas palavras de Helio) e que o único gesto artístico que poderia fazer visto isso era, utopicamente, buscar restaurar as condições que possibilitaram este levante.

Sem mais e buscando crer, proponho aqui.

Proposta, não selecionada, à convocatória para a residência ComPosições Políticas, que ocorrerá no bairro da Maré, no Rio de Janeiro.

Abaixo, uma coleção de coisas que escrevi num word de 2013 até 2016.

asa

assa

sss

a   a

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Minha unha tá suja

E minha lua cheia

Lobisomem

Bis

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Aqui, profundo

Ainda que imundo

Imaginário são, cimento fresco

Cobrindo nosso céu para fazer um chão
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Sobre a criança que arremessou uma pedra no vidro do ônibus cheio em que eu estava:

pedrador
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Joana. O que desejo é pouco.
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Rima ruma.

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dEUS

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Como não mudar o mundo?

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Alquer

Submergir ao nível da fala

O sonho que afunda na realidade

não que emerge.

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Gosto de textos que se fazem potentes nos interstícios, que fazem sonhar em suas pontuações.

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“O Homem comum fala, o Sábio houve e o Tolo discute..” (Provérbio Chines com erro de digitação – extraído da internet)

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“Ousam o poeta.” (Extraído de um comentário no youtube que queria dizer “ouçam o poeta”)

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ilênci

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100 objetos para representar a terra

Gaiola

Pulseira

Coroa

Garfo

Quimera

Milho

Cueca

Espinho

Dente

Cruz

Cano

Pinça

Pincel

Cinto

Fivela

Alfinete

Arruela

Presilha

Cotonete

Gravata

Álbum

Dimerizador

Transistor

Arpão

Guilhotina

Megazord

Sulfite

Crayon

Lança

Faca

Guimba

Violão

Copo

Banco

Chão

Linha

Rastafari

Calcinha

Laço

Batom

Perfume

Neosoro

Palavra

Badulaque

Crótalo

Fumo

Maconha

Crack

Capacete

Bomba

Limpa-vidro

Álcool em gel

Desodorante

Limpa-disco

Lápis de cor

Lápis

Lar

Casa

Gente

Sol

Enquanto

Bumba meu Boi

Caprichoso

Pilares

São Longuinho

São Francisco

Harry Potter

J.K. Rowling

J. D. Salinger

Abutres

Crivo

Pêndulo

Radiestesia

Número

Letra

Cor

Escada

Buraco

Vitrúvio

Marx

Gandhi

Paulo Freire

Cristo

Cristão

Prego

Martelo

Quadro

Tecido

Cola

Tinta

Pincel

Verniz

Firma

Olho

Corpo

Unha

Deus

Fila

Ilha

Eu

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País: Bravil

Habitante: Bravo

Bandeira: Anil

Capital: Vila

Moeda: Braço

Língua oficial: Outroguês

Planeta:

Sistema solar: Brasil

:Universo

-b ——————————————–

Cara feia pra minha fome.

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Zoorrasco

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A arte é faca usualmente usada como espelho.

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O que é a vida?

Meu espelho?

Minha hérnia de disco?

Minha filha?

A música que respiro?

O que é a vida?

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O meu calendário está um mês atrasado porque esqueci de contar.

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O bicho que come o singular
Não é poético
Tampouco real

O bicho que come o singular
Da esfera do plural
Da supressão do objeto
Sendo o homem objeto de si mesmo

O bicho que come o singular
Feito de ferro para tilintar
Degolou

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O bom filho a casa entorna.

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Olha para o espelho do ônibus

Se você olhar pode ver o reflexo

Se você olhar pode ver o reflexo

Se você olhar pode ver o reflexo

Se você olhar pode ver o reflexo

Se você olhar pode ver o reflexo

Se você olhar pode ver o reflexo

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Sonhei com um poema de quatro versos. Seu terceiro verso começava com “De” e era o menor de todos. Todo ele falava, estando eu no sonho louco (deficiente mental) e dependente da minha família, d’eu vendo uma chuva de meteoros, do sublime que havia em mim naquilo.

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Adão grávido de Eva

virgem, Maria dá a luz

Saturno devorando a un hijo

em imagem e semelhança crus

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Sentimento, semi-intento.

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Censura:
Cesura

—-v—————————

Dizem que tudo pode ser arte. Mas a arte pode ser tudo? Pois se a arte pode ser tudo, o tudo só pode ser arte.

***

Tudo: aquilo que não conseguimos medir por que nos engloba.

Arte: aquilo que não conseguimos medir por que nos engloba.

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14/09/2014, 14:08h, acabo de ver um mendigo dormindo na porta do edifício Morar IV (Av. Brás de Pina, 756, Vila da Penha, Rio de Janeiro, RJ).

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Lembra da época em que a gente tocava a campainha e não corria?

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Algum sorriso

Só vejo incisivo canino cariar

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Eu sou branco ou preto?
Sobrinho: Branco.
Mãe: Você é pardo.

Pai: Olha, eu vou te contar… Eu gostaria de dizer que você é negro, raça negra.

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Adulto é Deus.

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Negro como o leite.

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Pisque
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Amigoing

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“Pedra brusca”

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Queria que Deus Surgisse

Dizendo que todos estão errados

E que só eu estou certo

“Só o Jandir está certo.” – Ele diria

Imagina só! Imagina!

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É com muito orgulho que eu durmo.

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“pele luz”

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Silva, Silvo.

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Pode tocar.

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“Hetera”

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Expectativa: o que o faz, espectador

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É revigorante, desconhecida, que nos entreolhemos com um pouco de esperança.

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.etnemlatneiro

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Uma música

Que deixe denso

O silêncio

Que a sucede

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Lembra do universo

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Daqui pareceu só normal.

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Meu sonho é uma sociedade amorosa.

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Uma palavra que gostaria de usar num texto: causal.

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A gente sempre chega no meio da aula.

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“Uma questão de dúvida”

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Leoã

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Ser belo é um direito.

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Amar é ir ao luto.

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meu celular vibrou em minha mão como um coração pulsando em minha mão.

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Combustível há em todos os lugares.

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Dedico este livro que esteve em minhas mãos a você, que não conheço de rosto e de nome e que agora o tem.

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”Não acrescento meu endereço para não pensar que tenho algo a lhe pedir” (Baudelaire, Serrote nº19)

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a preguiça vence o capitalismo.

(mas só um pouquinho, de leve, pra não cansar.)

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não escrevo poesia por querer falar com gente, não com o deus: o verbo se fez carne.

(A escrita me tem sido a única maneira de assegurar-me artista, mesmo sem nada fazer, mesmo em crise, ainda que entre um trabalho concluído e outro por fazer, num piscar de olhos, em meu ócio, que, deus me livre, nada tem de criativo.

Falando nisso, penso como é interessante – e só agora me dou conta disso – que o crelazer de Helio Oiticica seja antes um conceito num texto que um título de um bólide, parangolé, ou algo assim – o que nunca foi, de fato -.

Escrever pode ser, ou é, a necessidade de tocar a realidade que é a única
segurança de nosso estar no mundo – o existir.

Iberê Camargo, em seu texto Gaveta dos guardados.

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com> 22 de janeiro de 2016 11:29
Para: Julio Oliveira

mlk!!!!

quero fazer uma pesquisa, livro, whatever, relacionando a expansão das ações afirmativas na universidade (reuni, cotas) à produção artística na arte contemporânea realizada por novos sujeitos (uma inserção maior de negros, suburbanos, pobres… ). pensei em fazer entrevistas com alguns desses artistas e em escrever um pouco sobre, esclarecer isso, o que isso muda pro cenário artístico, essa mudança, que faz com que muitas pessoas tenham contato com um tipo de produção artística que nunca conheceriam de outra maneira que não adentrando numa universidade […]

Para [Ferreira Gullar], a poesia nasce como se ele “de repente desconhecesse o mundo, porque o mundo não tem explicação”. A inspiração surge do que Gullar chama de espanto. Espanto que, há quase seis anos, não lhe vem mais.

“Não estou dizendo que não quero escrever”, ele explica. “Mas é o espanto diante do inusitado que me move. E isso não posso buscar. Se tudo na vida acaba, porque minha capacidade de escrever não poderia terminar?”

Por Nina Rahe, no caderno ilustrada, da Folha de são Paulo, na matéria ‘acho que não escreverei mais poesia’, conta Ferreira Gullar

Lembro que em meados de 2015, quando desmontava minha exposição do Lugar das Dúvidas, espaço expositivo da Casa Daros, uma das produtoras da casa me falou, com tom consternado, que era uma pena que o espaço fosse fechar naquele ano, pois dessa maneira intuía que em vinte anos ninguém lembraria dos jovens artistas que expuseram lá. Apesar da tristeza em seu modo de dizer, lembro de ter pensado naquela sentença não como um castigo, mas como uma estranha oportunidade: a de não ser.

 

Sigo em 2016 remoendo lembranças. Meus dentes doem. Mas há prazer em agir mastigando.