Um dia desses o Julio me disse que entrou “naquele seu site, onde você enterra as coisas”, se referindo ao http://cargocollective.com/jandirjr. Imagino que ele disse isso por conta das datas de início e fim em alguns links lá. É de se pensar – e ainda não o tinha visto assim – se já criei ou se estou criando um cemitério porvir.

Achados e perdidos

 

 

Caso você seja proprietária(o) de algum destes itens, envie um e-mail para jandir.s.junior@gmail.com comprovando sua posse para que eu realize a devolução.

 

(Acho que isso – achados e perdidos – só fazia sentido quando era um álbum no facebook.19 Penso em parar de fazer. Penso que, se só fazia sentido lá, isso mostra que ajo estimulado e respondendo ao meu contexto, apesar de distraído dele em muitas vezes. Devo parar. Parece que devo. “Agir contextualmente. E não universalmente”, escrevi esses dias. Estou da cintura pra cima fincado nessa terra donde vejo, cheiro, sinto, provo e ouço. Nada além disso é sensível, não importam essas existências. Apesar disso, aqui meio enterrado, assino como uma espécie de gente com raízes ao invés de pernas, que desconhece seu tamanho total, o espaço que ocupa seu enraizar solo abaixo. Não sei se devo. Parar.
(p saturno.))

Nesse brevíssimo instante do piscar, instante esse que o espirro causa, instante entre o cheiro e a memória, instante que o vento sopra a folha de uma janela causando estrondo, instante que o escritor em sua mesa deixa o lápis cair no chão sem se dar conta, instante que um grão de milho estoura na panela se dando o privilégio de tornar flor branca, instante que uma mensagem sai de um dispositivo, atravessa as ondas habitantes do ar e chega a outro dispositivo, instante que um salmão salta contra a corrente e percebe que o que o espera não é a água que acabou de deixar, mas sim a boca de um urso-pardo, instante que Picasso, depois de 63 dias de trabalho e constantes alterações, dá a pincelada definitiva em Mulheres de Argel, quadro este que atingiu o incrível status de obra a ser vendida pelo maior preço da história dos leilões de arte (precisamente 573 milhões), nesse instante dois olhos brilharam entre as árvores.

Excerto do conto Em uma clareira era noite, de José Vianna.

Em outra intervenção na mesma exposição, desta vez anônima e no trabalho do Nico Las, Pense, Jandir escreveu “Pisque”. A ação de piscar, involuntária e cotidiana, reverte a autoridade do imperativo. Ou, por outro lado, a autoridade imperativa se faz confortável por ser inescapavelmente cumprida. Pisque brinca com a relação de poder. Seja como for, a operação parece ser a de desnudamento. É em Pique-Pedra, e também em Pisque, que sua ação é um rearranjo do real. Um rearranjo enviesado, transversal, itálico. Um rearranjo que encontra novas e possíveis lógicas perturbantes, que opera por dentro.

Excerto do texto crítico de Pollyana Quintella sobre minha participação no Diálogos Expandidos/Ocupação, na exposição Novas Poéticas – Diálogos expandidos em arte contemporânea, em 2014.

(Não havia pensado ainda no piscar como um instante.)

(Mas isso é um clichê, né? É meio estranho não ter pensado nisso.)

Alguns minutos depois de instalado o Shopping Chão na Avenida Brasil, um dos usuários de crack que estavam perto perguntou ao Bira Carvalho – que me acompanhou na montagem e que, naquele momento, tomava um caldo de cana próximo dali – se eles poderiam pegar aqueles objetos. Só após a afirmativa de Bira eles tomaram aquilo para si.

 

Shopping chão
2015
Materiais diversos doados por Jessica Kloosterman
3 x 1,5 m.
Vista da montagem na Av. Brasil, Maré, Rio de Janeiro, RJ
Realizado junto às intervenções urbanas paralelas à exposição individual de Jessica Kloosterman, RATEIO
Registro fotográfico por Jessica Kloosterman

Manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar.

Cada segundo preenchido por minha voz em um ambiente tomado de silentes presenças é um segundo a menos para que estes se façam ouvir. A idade do mundo se vai enquanto falo. Logo viver não mais será.

Assim, reivindico atenção ao espaço onde minha voz está, buscando retornar protagonismo ao silêncio dos pensantes que se fazem presentes em mudez, sem seus sons em língua portuguesa a sublinhar suas presenças.

Presenciar quem está calado me faz cogitar os barulhos que poderiam fazer. Me fazer presente graças a esse silêncio é, portanto, sobrepuja-los; estar, por mérito, gentileza ou coerção, numa espécie de topo em relação a estes: acima, à vista, ainda que sozinho.

Por isso manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar. Seus silêncios aqui são valorizados. Mas ratifico-os de sua essencialidade: Quando calamos, nossa mudez não é tanto um pretexto para a escuta quanto a construção de um espaço para uma fala que não a nossa. Funcionamos bem como espaço cedido a outrem. Já nossa validade enquanto audiência é sem dúvida questionável.

Contudo, lembro de Claude Leví-Strauss, que no livro Minhas palavras agradece aos alunos por suas reações “mudas, mas perceptíveis”, que lhe permitiram desenvolver o pensamento sem grandes atropelos.18 E, visto isso, busco mudar minha opinião e me escrever neste final de manifesto como esse Claude Leví-Strauss que, a um só tempo, crê nas reações que julga ver em sua audiência e é grato por sua mudez.

Tendo demonstrado minha fé e gratidão, me sinto confortável em avisar por fim que minha voz terá fim. Demonstro dizendo que, ao meu ponto final aqui, outra pessoa usufruirá do espaço que nós que calamos criamos para que ela possa falar. E nessa frase já se percebe que não mais manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar. Já não sou mais tanto um eu ao conjugar a primeira pessoa do plural.

Ainda assim, os manifestos, geralmente contra algo e representativos de um nós, uma coletividade a falar em uníssono, encontram aqui novo problema: o sujeito que fala, desejoso em ser junto aos que calam para que este se faça voz, tendo elegido manifestar essa vontade, já não pode se apresentar contra algo – ser contra aqui seria ser contra sua própria necessidade de falar, ser contra sua própria voz, o que é evidente paradoxo insustentável – e nem falar enquanto a representação de um nós, tendo em vista que a amalgamação dele com a coletividade que seu manifesto reivindica representar – os que calam para que ele se faça voz – é impossível, ontologicamente: são as diferenciações entre falante e mudos que os constituem enquanto sujeitos. Por isso, me permito ser e, novamente, ainda que pela última vez, manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar.

Não gostaria de criar trabalhos de arte em que você* não seja necessária parte constituinte.

*não um você hipotético, mas você mesmo, que lê, apesar de eu não conseguir saber quem você é. Isto é sobre você, acredite.

Eugenio Valdés Figueroa, diretor de Arte e Educação da Casa Daros e curador da mostra ao lado de Clara Gerchman, nos conta sobre a ocasião na qual Gerchman recebeu o convite para assumir a direção do então Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro:

“Lina Bo Bardi lhe sugeriu: “Aceite! E, se achar que deve sair, então peça demissão”. Gerchman conta que escreveram juntos sua carta de renúncia e, pronto para apresentá-la a qualquer momento, levou-a já assinada durante vários anos em seu bolso, como um pocket stuff. Não era um gesto de descompromisso, mas sim de autonomia, de liberdade de escolha.”

Se você pudesse demitir-se de algo do que seria? De que tipo de relação (qualquer tipo de relação com que quer que seja) você se despediria? Por quê?

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A bem da verdade já me encaminho para uma demissão: a do lugar do artista.
Antes, contudo, devo ressaltar que esta demissão em nada pretende negar o caráter preexistente em ser artista, onde entendemos que ser vai além da chancela individual, do considerar-se ou não tal: constitui-se em sociabilidade.
Quando afirmo que me encaminho para não ser artista falo de um motivo que vejo contemplado numa imagem que me vem à cabeça, de um humano descobrindo o mundo pela medida de seu corpo, com nada além disso o sendo. Essa imagem me faz pensar em quanto minha produção tem se tornado indistinta de minha vida banal, como se, aderindo à minha pele, se camuflasse.
Nesse camuflar acredito e desejo minha produção contingente, podendo não ser produção e, assim, podendo não ser minha, sendo surpresa para mim, destruindo-me. E, nisto, destruir e trazer à tona os que me circundam, fragilizando também a noção de não artista, de outro.
Aí reside a demissão de que falo.

Excerto de minha submissão de inscrição ao processo seletivo para o curso Laboratório contemporâneo: propostas e descobertas do que a arte é (ou pode ser), realizado na Casa Daros no final de 2014.

(De lá pra cá algo mudou na minha concepção de tudo isso, mas também há algo de similar entre a ambientação que esta resposta que dei gera e o ambiente que meus escritos neste processofólio constituem. Sigo pensando. E perdoem minhas manifestações inconclusivas por aqui.)