Tava a todo tempo pensando em criação e autoria quando fiz o caderno [que foi documentado na minha publicação Dar minhas ideias para os desconhecidos.], buscando as vezes anotar nele coisas que problematizassem essas categorias – ou seja, deixassem elas ainda mais patéticas do que já são. É foda como pensar nisso do filho [referência à ”Fazer um bebê.”, presente em uma das páginas do caderno] te põe menor, te faz pequeno mesmo, tantas coisas acontecem contigo nisso.

Excerto dum email que enviei.

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  1. Encontro perdidos nas ruas endereços anotados em papéis.
  2. Os ponho em envelopes destinados aos destinatários que carregam e, com meu endereço e nome em remetente, envio-os por correios.
  3. Após isso, expecto.

(Um dia, um senhor foi de sua casa – em um bairro distante – até a minha de bicicleta. Eu não estava em casa e minha mãe foi quem o atendeu. Não o conhecíamos. Ele disse estar preocupado: recebera um envelope com meu nome e endereço, destinado a ele, contendo um papel pequeno com seu próprio endereço anotado. Não sabia o que era aquilo, se estavam usando o nome dele pra lavar dinheiro, se ele tinha virado laranja de algo que nem sabia. Foi quando minha mãe disse que provavelmente eu tinha feito aquilo. – Mas por quê? – Ah, ele faz essas coisas. Liga não. – ela respondeu. Imagino seu rosto confuso ao ouvir essa resposta, e a situação de minha mãe dizendo isso ao homem. Bem, após esse ocorrido deixei de fazer este trabalho: julguei que estava lidando com as relações humanas de maneira torpe, desleixada, como se fossem uma matéria qualquer, não-senciente, a ser manipulada: tinta, mármore, qualquer coisa dessas. Os artistas ativistas, relacionais, que lidam na alteridade, lançam mão disso a todo momento, pelo que vejo, e mesmo sem desejarem fazer isso. Na mão do artístico, o ‘outro’ é matéria a ser burilada, muito mais do que aquele que motiva a condição inescapável de conjugarmos o ‘nós’. O artista não conjuga o nós: assina sozinho. Mas eu não quero ser um deles; nem pela hipocrisia sobre o que fazemos, nem pela inocência sobre o que é realmente estar junto, nem pela vilania com os outros )

Um dia desses o Julio me disse que entrou “naquele seu site, onde você enterra as coisas”, se referindo ao http://cargocollective.com/jandirjr. Imagino que ele disse isso por conta das datas de início e fim em alguns links lá. É de se pensar – e ainda não o tinha visto assim – se já criei ou se estou criando um cemitério porvir.

Achados e perdidos

 

 

Caso você seja proprietária(o) de algum destes itens, envie um e-mail para jandir.s.junior@gmail.com comprovando sua posse para que eu realize a devolução.

 

(Acho que isso – achados e perdidos – só fazia sentido quando era um álbum no facebook.19 Penso em parar de fazer. Penso que, se só fazia sentido lá, isso mostra que ajo estimulado e respondendo ao meu contexto, apesar de distraído dele em muitas vezes. Devo parar. Parece que devo. “Agir contextualmente. E não universalmente”, escrevi esses dias. Estou da cintura pra cima fincado nessa terra donde vejo, cheiro, sinto, provo e ouço. Nada além disso é sensível, não importam essas existências. Apesar disso, aqui meio enterrado, assino como uma espécie de gente com raízes ao invés de pernas, que desconhece seu tamanho total, o espaço que ocupa seu enraizar solo abaixo. Não sei se devo. Parar.
(p saturno.))

Nesse brevíssimo instante do piscar, instante esse que o espirro causa, instante entre o cheiro e a memória, instante que o vento sopra a folha de uma janela causando estrondo, instante que o escritor em sua mesa deixa o lápis cair no chão sem se dar conta, instante que um grão de milho estoura na panela se dando o privilégio de tornar flor branca, instante que uma mensagem sai de um dispositivo, atravessa as ondas habitantes do ar e chega a outro dispositivo, instante que um salmão salta contra a corrente e percebe que o que o espera não é a água que acabou de deixar, mas sim a boca de um urso-pardo, instante que Picasso, depois de 63 dias de trabalho e constantes alterações, dá a pincelada definitiva em Mulheres de Argel, quadro este que atingiu o incrível status de obra a ser vendida pelo maior preço da história dos leilões de arte (precisamente 573 milhões), nesse instante dois olhos brilharam entre as árvores.

Excerto do conto Em uma clareira era noite, de José Vianna.

Em outra intervenção na mesma exposição, desta vez anônima e no trabalho do Nico Las, Pense, Jandir escreveu “Pisque”. A ação de piscar, involuntária e cotidiana, reverte a autoridade do imperativo. Ou, por outro lado, a autoridade imperativa se faz confortável por ser inescapavelmente cumprida. Pisque brinca com a relação de poder. Seja como for, a operação parece ser a de desnudamento. É em Pique-Pedra, e também em Pisque, que sua ação é um rearranjo do real. Um rearranjo enviesado, transversal, itálico. Um rearranjo que encontra novas e possíveis lógicas perturbantes, que opera por dentro.

Excerto do texto crítico de Pollyana Quintella sobre minha participação no Diálogos Expandidos/Ocupação, na exposição Novas Poéticas – Diálogos expandidos em arte contemporânea, em 2014.

(Não havia pensado ainda no piscar como um instante.)

(Mas isso é um clichê, né? É meio estranho não ter pensado nisso.)

Alguns minutos depois de instalado o Shopping Chão na Avenida Brasil, um dos usuários de crack que estavam perto perguntou ao Bira Carvalho – que me acompanhou na montagem e que, naquele momento, tomava um caldo de cana próximo dali – se eles poderiam pegar aqueles objetos. Só após a afirmativa de Bira eles tomaram aquilo para si.

 

Shopping chão
2015
Materiais diversos doados por Jessica Kloosterman
3 x 1,5 m.
Vista da montagem na Av. Brasil, Maré, Rio de Janeiro, RJ
Realizado junto às intervenções urbanas paralelas à exposição individual de Jessica Kloosterman, RATEIO
Registro fotográfico por Jessica Kloosterman

Manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar.

Cada segundo preenchido por minha voz em um ambiente tomado de silentes presenças é um segundo a menos para que estes se façam ouvir. A idade do mundo se vai enquanto falo. Logo viver não mais será.

Assim, reivindico atenção ao espaço onde minha voz está, buscando retornar protagonismo ao silêncio dos pensantes que se fazem presentes em mudez, sem seus sons em língua portuguesa a sublinhar suas presenças.

Presenciar quem está calado me faz cogitar os barulhos que poderiam fazer. Me fazer presente graças a esse silêncio é, portanto, sobrepuja-los; estar, por mérito, gentileza ou coerção, numa espécie de topo em relação a estes: acima, à vista, ainda que sozinho.

Por isso manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar. Seus silêncios aqui são valorizados. Mas ratifico-os de sua essencialidade: Quando calamos, nossa mudez não é tanto um pretexto para a escuta quanto a construção de um espaço para uma fala que não a nossa. Funcionamos bem como espaço cedido a outrem. Já nossa validade enquanto audiência é sem dúvida questionável.

Contudo, lembro de Claude Leví-Strauss, que no livro Minhas palavras agradece aos alunos por suas reações “mudas, mas perceptíveis”, que lhe permitiram desenvolver o pensamento sem grandes atropelos.18 E, visto isso, busco mudar minha opinião e me escrever neste final de manifesto como esse Claude Leví-Strauss que, a um só tempo, crê nas reações que julga ver em sua audiência e é grato por sua mudez.

Tendo demonstrado minha fé e gratidão, me sinto confortável em avisar por fim que minha voz terá fim. Demonstro dizendo que, ao meu ponto final aqui, outra pessoa usufruirá do espaço que nós que calamos criamos para que ela possa falar. E nessa frase já se percebe que não mais manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar. Já não sou mais tanto um eu ao conjugar a primeira pessoa do plural.

Ainda assim, os manifestos, geralmente contra algo e representativos de um nós, uma coletividade a falar em uníssono, encontram aqui novo problema: o sujeito que fala, desejoso em ser junto aos que calam para que este se faça voz, tendo elegido manifestar essa vontade, já não pode se apresentar contra algo – ser contra aqui seria ser contra sua própria necessidade de falar, ser contra sua própria voz, o que é evidente paradoxo insustentável – e nem falar enquanto a representação de um nós, tendo em vista que a amalgamação dele com a coletividade que seu manifesto reivindica representar – os que calam para que ele se faça voz – é impossível, ontologicamente: são as diferenciações entre falante e mudos que os constituem enquanto sujeitos. Por isso, me permito ser e, novamente, ainda que pela última vez, manifesto em favor daqueles que calam para que eu possa falar.