e-mail enviado à Posigraf, editora do Grupo Positivo.
Olá.
Ganhei o dicionário registrado nas fotos abaixo em 2013. Ao abri-lo, percebi o erro de impressão que registro; que ele veio todo em branco. Envio este e-mail para agradecê-los. Muito, muito obrigado por terem criado esse exemplar.
[voz de sono, som de passarinhos ao fundo] Caraca, eu dormi muito mal hoje… Eu… acordei agora… e… eu acordei cinco horas porque eu senti um, um, um negócio passando em cima de mim. E aí, quando eu abri o olho, era uma barata. [voz embargada] Eu tava no chão, tinha uma barata em cima de mim. E aí eu fiquei assim, chocado. Porque nunca tem barata no meu quarto… A barata foi andando… andando… aí eu, sem entender muito bem o que eu podia fazer, eu peguei o travesseiro e bati em cima dela… …Aí, nessa hora, eu voltei o travesseiro pra posição e não tinha mais barata nenhuma. Cara, vo… a, é, o…. nessa hora, que eu não vi mais a barata, eu fiquei procurando muito ela. Eu tô procurando até agora, mas eu acho que é um daqueles sonhos que eu tenho, que eu vejo… que eu acordo, vejo coisas… que não existem – geralmente bichos -,… e, é… tento interagir, ou matar, ou soltar eles e… depois… simplesmente eles puf, somem. Então acho que essa barata talvez não existisse. Seja um produto desse delírio… Eu acho que é porque tá muito quente [risos].
[voz de sono] Caralho… eu tive um sonho muito bizarro dessa vez… Outro nível… Foi muito esquisito… Foi assim [tosse]: eu tava… de madrugada… e eu tava dormindo no chão, tava muito quente. Aí, no sonho… eu… não percebi que eu tava no sonho, né? Claro… Eu tava dormindo exatamente no mesmo lugar, no chão do meu quarto, e minha mãe entrou no meu quarto… e começou a falar umas coisas, assim… que me assustaram muito, porque… eram coisas que ela não conseguiria saber e ninguém conseguiria saber, porque eram previsões do futuro. Eu não lembro muito bem o que ela falou, mas lembro… de uma parte… umas palavras que ela falou que iam ter… é… entre seis e sete… meses… de greve… é, e não lembro direito, mas, tipo, tinha uma parte de um… um grupo que ia fazer isso. Eu não sei se tinha a ver com o coronavírus… sei lá. E ela falava outras coisas também. E eu fiquei muito assustado, assim, e eu falei: caralho, como é que tu sabe isso? E fiquei falando assim, sabe?, meio… manhoso, sei lá, meio… com medo [risos], foi engraçado. Eu: caralho, como é que tu sabe isso? Que que cê tá falando?… [engole em seco] Ai é… aí… aí eu fal… perguntei a ela, [ela] não falava nada, ficava rindo, assim. Aí: pô, quem te contou isso? Quem te contou isso?… Aí ela me puxava, assim… me… me ajudava a levantar… me levantava muito lentamente… ela me abraçava. Aí vinha no meu ouvido, cochichava: você… me disse. Cara, e nessa hora eu acordei. Pou! Meu olho abriu. Eu, tipo, percebi que eu tava com o corpo tra… travado antes, né?, mas, quan… assim que ela ouv… eu ouvi isso, eu acordei, abri o olho e já conseguia me mexer… E fiquei muito bolado, assim: caralho, que iss
“olha que foda, acabei de conhecer esse pintor [robert ryman] e quando fui procurar sobre ele descobri que foi guarda do moma por uns sete anos, e sendo guarda lá começou com arte. e que loucura: foi guarda junto com sol lewitt e a galera da minimal, fora ter casado com a lucy lippard…. enfim! uma ode aos trabalhadores de museu, e aos guardas-artistas”
“Foi um pintor que começou adulto, era militar antes, inclusive. As pinturas dele são telas brancas.”
“(fora que tô apaixonado pela pintura dele: me emocionou como me emociona o morandi.)”
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Olá Jandir,
Gostaríamos de convidá-lo para participar da proposição Caixa-Cômodo, uma dinâmica proposta por nós, Mônica Coster e Rodrigo Pinheiro.
Trata-se de uma dinâmica de vontade coletiva, conduzida de modo a criar junto de você e das outras pessoas convidadas uma rede de correspondências que vem a se dar de um modo particular: trocas a partir de uma caixa de presente misteriosa que é um cômodo e há circular entre as pessoas envolvidas via correios.
(excerto do e-mail recebido no dia 7 de outubro de 2020)
Mensagem enviada ao YouTube, às 18:40h, por meio da guia ‘Enviar feedback’.
Ontem – e peço desculpa por não lembrar em que hora exata -, a página inicial do YouTube estava aberta em meu navegador, quando começou a emitir sons. Eram ruídos de atrito, como superfícies se friccionando à superfície de um microfone. Não vinham de propaganda alguma, o que seria estranho, pois, como já percebi, os anúncios na página inicial, mesmo que com play automático, têm seus áudios desabilitados.
Curioso que, após ouvir, perplexo, o som sem origem por alguns segundos, me dei conta que ele era o áudio exato do último vídeo que havia assistido no site. Chamado ‘câmera pele’, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=hvVCrTP8_vo, mostra imagens captadas tão de perto que nada se vê além de cores bruxuleantes, com sons de cliques, respirações ofegantes, microfones sob atrito. O vídeo foi upado no site em 17 de agosto deste ano. É de uma brasileira, e imagino que sua gravação ocorreu no mesmo período; período esse de isolamento social pelo Sars-Cov-2, do aumento vertiginoso do uso de dispositivos audiovisuais, de celulares, notebooks.
No dia 12 de setembro de 2020, a transmissão de um seminário via Zoom, no YouTube, mostrou imagens que associo a esse vídeo. Se clicar neste link, https://www.youtube.com/watch?v=Vc93uM9CX5M, vá ao seis minutos e quarenta e cinco segundos. A partir daí, uma primeira câmera nessa reunião será tapada, provavelmente com uma mão, e não simplesmente desligada. Sua ocupante começará a dizer repetidamente a frase “Não vou dizer a continuação, porque estou cansado desse lugar e quero ir para outro”. O que se seguirá é uma segunda pessoa fazendo o mesmo, tapando sua câmera manualmente e dizendo a mesma frase, seguida então por uma terceira, uma quarta, uma quinta pessoa, até que todas estarão, igualmente, com suas câmeras tapadas e sobrepondo desordenadamente suas vozes, a dizer a mesmíssima sentença.
E ainda este vídeo: https://vimeo.com/428185832, dessa vez fora do YouTube, em que uma mulher tapa a câmera de seu celular e fala por uns bons minutos, lê uma lista de compras, zomba das ideias bizarras nas letras dos Los Hermanos, especula articulações… Igualmente: disponibilizado em 11 de junho deste nosso ano. Por uma brasileira.
Sabe, eu passei os últimos dias às voltas com vídeos que meu celular gravou por acidente, dentro do meu bolso. Enquanto andava do quarto pra cozinha, do mercado para o banheiro de casa, do álcool em gel para a margarina recém-chegada da rua, envolvido por um casaco ou retirando a máscara da cara, não foi raro retomar meu celular, do bolso para minhas mãos, e ver vídeos curtos em sua galeria, quase completamente escuros, trazendo ruídos de atritos junto às buzinas ao longe, ou mesmo latidos das minhas cachorras, ou mesmo pigarros suspeitos. Os assisti com muito gosto.
Não sei se falo com você aí, que está lendo isso, que trabalha para a Google… Sei que reporto um erro do site, que erros são assunto humano, mas… tive vontade de falar com o próprio YouTube. De fato falar sobre essas imagens escuras, próximas… desses vídeos feitos de pele-lixa e fricção. Mas mais que isso: queria falar que o erro foi a coisa mais bonita que ele me deu nesses meses árduos. Sons sem vídeo, que me fizeram suspeitar que os algoritmos dele também estão como eu, passionalmente envolvidos por qualquer possibilidade de reduzir as imagens-em-movimento na vida, pelos dispositivos mais como toque que como olhos. Acho que é isso. Nossa vontade é a de câmeras que sejam toques, dedos contra nossa pele… dedos contra toda pele… Mas sei lá.
Esta dissertação (que existe desde 2015 e que é, também, meu tcc de graduação e especialização, meu blog, meu portfólio etc.) tem por título https://jandirjr.wordpress.com/, nome que, ao mesmo tempo que nomeia, lhe abriga. Mas lembro o título de seu anteprojeto, A forma da pesquisa. Da interseção entre esses dois nomes apresento, portanto, um resumo provisório; entendendo este site, onde tenho guardado algumas documentações do que fiz de 1989 até então, fomentado por conflitos contra o modo como as pesquisas em arte eram usualmente formalizadas no ambiente acadêmico em que me graduei. Sua existência reúne documentos tão distintos quanto minha certidão de nascimento, desenhos de infância, meus trabalhos de conclusão de curso e a presente escrita, afirmando interdependência entre esses, dizendo-os como um todo, uma mesma pesquisa e, por sua vez, justificando todo tamanho excessivo à esta dissertação. Mas neste arquivo, que é o todo da dissertação, atual e progressivamente presente no site, há um recorte mais recente, que parte do momento de uma conscientização maior sobre a gênese de meu arquivo nas questões formais da pesquisa em arte, e demonstra os desdobramentos em minha prática arquivista a partir de então: numa tomada de posição pela escrita, em questionamentos sobre o uso do idioma, numa busca que me aproximasse mais de alguém do que de algum público e, nisso, na decisão de escrever para quem, até então, eu não tinha qualquer contato firmado. E é que gostaria que essas correspondências marcassem uma escrita desconfiada em assumir qualquer posição pela perenidade – apesar de arquivadas em meu trabalho monográfico e compondo-o -, e sim mais afeitas em sugerir, nas suas escrituras, o texto de outras pessoas, que as responderiam e lhe inquiririam, sobrescrevendo seus escritos. E assim seguindo, entre réplicas e tréplicas, como textos que se dedicam mais a poucas pessoas, ou mais a uma só, e menos a qualquer público.
“- Ou, em seu lugar, terei eu desvalorizado o jogo, encaixando-o no cimento da história da arte, quer dizer, como não sendo nada além de arte? Talvez. Sendo apenas arte, a influênciapotencial que ela poderá ter sobre o ensino público, e sobre a própria arte, pode ser indefinidamente arquivada. (allan kaprow, sucessos e fracassos quando a arte muda, grifo meu)”
O arquivo, como tem sido mobilizado na contemporaneidade, não pode ser destacado da obsessão neoliberal de capturar a criatividade. Artistas de toda parte são ensinados a documentar documentos, o produto enfatizado sempre sobre a força da forma, especialmente na atualidade, quando o próprio ato de ser um artista foi consagrado pela instituição acadêmica na necessária forma de mestrado em artes, e até mesmo um PhD. Cada vez mais, fazer arte é saber como enquadrá-la. É claro que são muitas as noções do processo, e com elas uma longa história de resistência a essa tendência – mas, quando se trata disso, quando a concessão precisa ser redigida, ou o dossiê de performance precisa ser lido, ou o artigo precisa ser escrito para que a próxima exposição possa acontecer, é para o arquivo que se volta , e além do arquivo da obra em si, para o currículo. Um artista sem um website é uma ocorrência rara e mesmo artistas que explicitamente resistem a essas restrições normativas muitas vezes só podem fazê-lo porque têm prestígio suficiente para agirem como exceções à regra ou porque iniciaram sua prática artística em outra época, quando esses tipos de marcadores de prática não eram atuais como hoje o são (CITE Tino Seghal, também a museimificação de Lygia Clark). O resultado disso é uma tendência a monumentalizar inadvertidamente o arquivo. Nenhum artista que conheço sente que o arquivo faz jus ao seu trabalho. E, como já deve ter ficado claro, nenhum arquivo é totalmente alinhado em forma e representação. Mas o modo como um arquivo tende a funcionar importa, e é isto que está em jogo no anarquivo. De que outra maneira o trabalho que fazemos poderia ser avaliado? E como tal valor continuaria a ser incipiente além do evento presente, de modos que não sejam imediatamente consonantes com o prestígio ou mais-valia do capital mantido por nosso arquivamento infinito? São questões do anarquivo.
MANNING, Erin. FINAL_ o que as coisas fazem quando se moldam_ O caminho do anarquivo.docx. Tradução desconhecida. [s. l.]. [2019?]. Word for Windows. Cópia distribuída pela docente Gabriela Bandeira na ocasião da disciplina GAT00222 – INTERLOCUÇÕES EM ARTES / ESPAÇO E MEIO AMBIENTE A1, ministrada por ela no primeiro semestre de 2020, no bacharelado em Artes da Universidade Federal Fluminense.
Entrego envelopes brancos, com folhas em branco, em cada casa da América do Sul. E lhe digo que aprendi a dobradura que faço nelas ao trocar mensagens escritas quando criança, com outra criança de minha família, mas da parte situada no Uruguai. Dobras que, por sua vez, eu e ela aprendemos com nossos pais e avós; uma dobradura que existe há algumas gerações, vincando as correspondências de uma família vindo a ser em lugares cada vez mais distantes uns dos outros, mas a partir deste mesmo continente.
Quando falo de continente, é claro, digo da parte sul da terra americana. Esta que, em meados do século XX, foi pisada por artistas que criavam obras geometricamente abstratas. No Uruguai, no Brasil, Chile e Argentina, tinham em comum não pintarem gente nas telas, mas sim triângulos, curvas, cores chapadas. Viam ao longe uma nova sociedade. Pintavam o que adornaria as paredes futuras. Pensavam a fundo em um ocidente sem classes, com os meios de produção nas mãos do povo, em domínio tecnológico sobre o globo. E por isso desejavam a América Latina moderna; tão concreta quanto o concreto respingado nas botinas trabalhadoras, tão exata quanto essas pinturas sem representações. Mas tal mundo nunca veio à luz.
O que é diferente das estradas de algumas fazendas, que vieram e aqui estão, passando por cima de imensos retângulos, misteriosamente marcados em certos campos gramados. No Acre e Bolívia, no Mato Grosso, Amazonas e Rondônia, temos estradas e plantações de milho destruindo valas, conectadas, que formam gigantes desenhos geométricos. Igualmente geométricos ao traçado retilíneo que, sobre eles, agora os sufoca. Formas descobertas somente na década de oitenta, quando sobrevoadas. E que hoje têm por nome geoglifos: círculos, octógonos, hexágonos, tantos outros traçados perfeitos, cavados ao longo de duzentos metros de diâmetro, há mais de dois mil anos. Dizem que Pitágoras ainda pensava em seu teorema quando surgiram no continente que hoje chamamos de nosso. Testemunhos que nos são misteriosos, de sociedades antiguíssimas. E como poderíamos os entender, nós, cidadãos daqui, dessas nações pós-colonizadas? Olhamos geoglifos como os policiais olharam para as pegadas das sandálias quadradas do cangaceiro Lampião, sem saberem para qual lado tinha ido, se ia ou se voltava. Despistados pelas formas de pegadas sem direção, eles me lembram de nós, olhando como rastros certas antiguidades continentais. Contudo, a despeito de minha atenção, geoglifos não são as únicas geometrias ancestrais no sul em que vivemos.
Atento ao Sankofa no portão da minha casa. Curioso: eu, olhando tão distante, pras pinturas modernistas, pros geoglifos acreanos. E Sankofa, tão perto: um dos adinkras Akan, que tem nele o significado de que nunca é tarde para pegar o que ficou pra trás. Gente do povo Akan foi escravizada. Pessoas africanas que, pelo conhecimento técnico com a metalurgia, ergueram os primeiros gradeados brasileiros, adornados com o que menciono, essa voluta sígnica. Adornos que são feitos até hoje – e por quê? Talvez tenha escapado aos olhos dos escravizadores, mas, para a diáspora africana neste país, Sankofa avisa que há um passado a ser apropriado, que é de posse da população negra; um sopro de vida africana em corpos e grades da colônia caída.
Mas só atentei ao Sankofa no portão da minha casa, Mari, pois a sombra dele aparece nas fotografias que lhe envio.
Você me fez saber que o origami é outra geometria ancestral a ser mencionada. Foi te lendo que aprendi que, por aqui, o origami veio tanto da influência de imigrantes japoneses quanto da de espanhóis dobradores de papel, aportados na Argentina. Ao te ler, fui esclarecido por seu conhecimento, sua larga prática. Então escrevo a você, pensando que não gostaria de ser visto como um origamista amador, na ocasião em que você abrir meu envelope e visualizar simples dobraduras, num sulfite igualmente simplório. Aqui, portanto, envio um e-mail com fotos da carta, para dizer, quando você recebê-la – e caso já não tenha a recebido -, que não tenho qualquer pretensão origamista. Trata-se somente de mais uma, diminuta, dentre tantas e isoladas ocorrências geométricas nesta porção do planeta, e que quis compartilhar com pessoas de fora da minha família.
A você, uma das tantas pessoas de fora da minha família, atenciosamente,