Imprimi este texto em cupons térmicos que abandonei, preferencialmente, em espaços com caixas de pagamento: lojas, supermercados, padarias, lanchonetes…

É certo que hoje estudo e trabalho com arte. Mas já fui um trabalhador mal pago, desenhando no verso de um cupom. Eu consertava impressoras fiscais e o modo de fugir do trabalho extenuante era esse: esperar os chefes saírem e rabiscar nas próprias bobinas, imprimindo força, fazendo surgir monstros e palavras dos meus traços. Os gritos que gostaria de gritar vinham como charges de bocas enormes, vociferando entre dentes afiados. Assinava meu nome compulsivamente, me vestindo com outra carne, um corpo de tinta, grafado. Em meu trabalho não era mais que uma coisa, eu mal era uma vida, mas tinha um lápis à mão, ou uma caneta, e em traços fugidios riscava como um escape. Traços que, penso eu, se somam a outros traços, desde tempos que não conheci até há pouco, quando eu entrei numa loja e vi o caixa passar minhas compras enquanto desenhava no verso de uma nota que iria para o lixo. Como coautor, anuncio esse livro de paginas soltas, infinito. Esse museu impossível, feito por aqueles a quem foi negada a memória pública. Desenhos e textos que certos trabalhadores fazem, entre uma coisa e outra. Sobrescrevendo papéis sem brancura. Comprovantes queimados.

Rasguei ao meio uma fotografia, com o texto abaixo manuscrito em seu verso, e inseri seus pedaços em dois livros da Biblioteca da Pivô, em São Paulo, por ocasião do evento Cinco livros comentando entre si sobre outros volumes que compõem a biblioteca que os hospeda, organizado por Pedro Zylbersztajn e com participação minha, de Maíra Dietrich, Flora Leite e Paulo Pasta.

Eu sou um homem negro olhando para dois homens brancos com animais no colo. É 2011, um ano depois da minha entrada no curso de artes. Um deles, Joseph Beuys, carrega uma lebre morta em uma performance, guiando-a, sussurrando para ela sobre cada quadro em uma exposição de pinturas, e seu rosto está completamente coberto de mel e folhas de ouro. O outro é Iberê Camargo, um pintor em seu ateliê, levando Martim nos braços, seu gato. Eu resolvo juntar as duas imagens, irmãs partidas entre épocas e continentes distintos, parentes estranhas, e guardo a montagem no meu computador. 12 anos depois, imprimo a junção, escrevo este texto no verso, mas rasgo a foto ao meio. Libero as imagens, separo-as novamente. Em uma biblioteca, então, insiro a foto de Iberê entre as páginas do único livro de Joseph Beuys que encontrei. Já a imagem de Beuys ponho num livro sobre Iberê Camargo. Certamente, para este texto ser lido novamente, suas duas partes precisariam extravasar as páginas em que as contive, num reencontro. Mas é possível que as fotos permaneçam dentro dos livros, é possível que sejam roubadas, é possível que sejam mudadas de lugar por ume bibliotecárie. E nisso nunca mais se unam, e a coincidência entre Beuys e Iberê vá se perdendo, minhas palavras aqui sumindo, sumindo essa memória de 2011. Ou, talvez, uma das imagens seja vista entre as páginas do livro de seu correspondente e testemunhe uma pista, quando muito, sobre o contato improvável entre nós, e a tinta, e o gato, e a lebre, e a morte, e o mel, e o ouro.

Escrevi as palavras abaixo na madrugada do dia 3 de agosto de 2014, em um episódio de sonambulismo. Acordei na manhã seguinte e, mesmo surpreso pela anotação ao meu lado, a deixei cair em esquecimento, só relembrando dela hoje, ao imaginar uma situação que me pareceu insólita, até perceber que eu mesmo já havia lhe protagonizado: uma carta sonâmbula, escrita por um corpo despossuído de vigília, adormecido, ainda que se movendo.

Às Graduações em Artes do Brasil: e-mail enviado para secretarias de cursos de graduação e pós-graduação em artes de todo o Brasil

Rio de Janeiro, 24 de novembro de 2017

Meu pai vendia cervejas num isopor. Ao morrer essa semana, sobraram duas sacolas de ráfia grandes, cheias até a boca com latas vazias. Ele vendia também as latas vazias. Mas aprendeu que amassando-as o peso dentro de uma sacola entregue dobraria e, com ele, o valor de venda. Esse dinheiro complementava nossa renda familiar e somava aos ganhos de sua aposentadoria de salário mínimo e ao bico com as bebidas no isopor. Mas por seu falecimento já não há dinheiro da previdência pública nem quem venda cervejas aos caras da esquina da Vila da Penha. Mas suas latas vazias há.

Passei a manhã amassando essa última leva. Usei uma pedra grande, como ele, e demorei a entender como fazer isso bem, mas posso dizer que peguei o jeito. De duas sacas, reduzi para uma cheia. E vendo essas tantas latas lembrei de meu título como bacharel em Artes Visuais com ênfase em Escultura, peguei uma das que amassei melhor, escolhi um lugar ao sol e fiz uma fotografia para recordar essa aula que não assisti na faculdade, mas em casa, ministrada por meu pai, ainda que fora de sua presença usual. Ou é artesania popular isso que passa de pai para filho – e nesse caso, um pai e um filho que tem o mesmo nome? A autoria não é importante se somos artesãos, sei disso. Talvez seja por isso que realmente não me vejo escultor: por ser um artesão, que aprende seus ofícios imemoriais com um só mestre, elo de um acorrentado contínuo a preservar aquilo tudo que fiz e que não sei bem, mas são bem mais do que meus feitos. Obrigado, pai.

vidro: e-mail enviado à vidraçaria Tecno Temper

10.3.2018

Entre meu lado de cá e a imagem do que lá está, há um vidro. O sei por tudo o que não lhe transpassa transparente, pelo vidro ser opaco somente na gordura das peles que lhe tocaram, em nossa umidade que nele se tornam gotículas, num pequeno filete de luz que se disperse por sua superfície ou lhe produza reflexos daqui, sendo que nas bordas, onde o vidro dobra deste lado àquele, seus vértices à mostra me dizem do quão espesso é, o que também finda sua transparência.

Mas se as bordas estivessem disfarçadas em molduras discretas, se não o embaçássemos respirando rente a ele, se a luz fosse propícia a não fazer espelho ou prisma, se nem um mínimo grão de poeira lhe aderisse, só o perceberia se, crendo no que ele silenciosamente cindiu, lhe tentasse atravessar sem o saber; como quando fui criança num museu sem andar com as mãos dadas às da minha mãe e corri em direção a algo espetacular que já não recordo, tal o impacto do meu corpo na cúpula que o rodeava.

E agora eu mesmo trabalho em um museu. O que me diz, pela proximidade, que já não há risco de colisão.

carta à n-1 edições

Olá,

Recentemente, comprei dois livros com vocês. Ambos da coleção Lampejos, que têm capas adornadas com alfabetos inventados por Waldomiro Mugrelise; garatujas assêmicas, similares ao que percebemos como letras, sem, contudo, identificarmos seus dizeres. Algo entre os papiros antigos e os desenhos de João Jordão da Silva, numa falta de sentido idiomático que me chamou a atenção, sobretudo quando pus este projeto gráfico em comparação a alguns rabiscos que vi na caixa em que os livros vieram. 

Vejam as fotos que envio no envelope. Vejam que loucura!

É que estou quase certo que não foram vocês, como editora, que desenharam displicentemente na caixa. O que me assombra, e me faz decidir que esta carta, apesar de endereçada à sua sede, não os têm exatamente como único destinatário. Pois sim, é interessante comunicar a vocês sobre essa coincidência, mas me ocorre com igual força pensar em toda a cadeia por onde esta carta passará, entre carteires, porteires e esteiras automatizadas. No que desenhei formas estranhas no envelope que contém esta carta, para que todes possam observar alguns traços assêmicos nele, assim como vocês, antes de rasga-lo e lerem este texto. E, nisso, reside uma esperança: a de que este envelope passe pelas mãos da mesma pessoa que rabiscou a embalagem que recebi, e a mobilize de alguma forma. Ela se recordar dos tracejados que fez e ver nos meus riscos uma resposta seria esperar demais, eu sei. Mas quem sabe observar um envelope coberto por garatujas ilegíveis a autorize a escrever mais, usando seu abecedário pessoal, em cima de correspondências alheias? Quem sabe ela mesma não vá acrescentar algum rabiscado aos rabiscos que fiz no envelope? Quem sabe não se trate de uma só pessoa, mas de uma multidão, se comunicando numa surdez, com algumas canetas esferográficas? n-1, devo assumir: não há como garantir que só eu rabisquei o envelope. Não há como garantir que só ume rabiscou a caixa.

Atenciosamente, 

Jandir Jr., Niterói, 12 de fevereiro de 2023.

Mensagem enviada para Capcom Co.

Oi,

Tomei um susto, porque a cena que vi não se apresentava coerente: um homem, agachado embaixo de uma mesa, com seu boné transpassando o tampo. Demorei alguns segundos para perceber que seu boné, na verdade, estava pousado em cima. Que o vi no exato instante em que, esgueirando-se para aparafusar uma das pernas de madeira, parou alinhado ao chapéu, como se sua cabeça, calçada com o boné, atravessasse o obstáculo. Era como se a solidez do móvel não fosse nem mais nem menos penetrável que a da tensão superficial da água. Como se, em questão de segundos, todo seu tronco pudesse passar por dentro da madeira, mostrando-o de pé, com um retângulo em torno da cintura.        

Comunico a vocês, uma produtora de jogos feitos por computação gráfica, e anexo uma imagem que fotografei assim que percebi meu assombro. Porque vejo na foto uma comprovação de que essa cena em muito se parece com uma falha de gráfico. Como nos jogos, quando um personagem bugado atravessa uma parede, ou transpassa qualquer sólido. Contudo, Capcom, me seduz fantasiar que, nesta imagem, haveria uma prova contundente de que existam falhas no gráfico da vida real. De que vivemos numa realidade tão computadorizada quanto os jogos que vocês produzem. E imaginar seus funcionários recebendo esta foto com assombro, largando computadores, deixando qualquer coisa cair de suas mãos ao se chocarem com a artificialidade de nosso mundo. Percebendo-se espantados ao verem, nesta fotografia, que o planeta é desenhado por outro geek cansado, observando o universo em um monitor potente, conectado a um PC de dimensões imensas.          

Gostaria de não ter escrito explicação nenhuma. Que o assombro fosse possível tão somente ao enxergarem esta imagem, assim como foi para mim.         


3 de dezembro de 2022 às 04:31
CAPCOM ID Support help@cid.capcom.com
Para: Jandir Jr. mailexpressivo@gmail.com

平素より『CAPCOM ID』をご利用くださいまして、誠にありがとうございます。
CAPCOM IDサポートです。

ご連絡いただいた内容を拝見いたしました。
We have reviewed your inquiry.

誠に恐れ入りますが、サポートを行っている言語は、日本語、もしくは英語のみとなります。
Unfortunately we can only provide you with support in Japanese or English.

そのため、いずれかの言語にてお問い合わせくださいますようお願いいたします。
We apologize for the inconvenience but please contact us in either language.

お問い合わせいただきありがとうございました。
今後ともCAPCOM IDをよろしくお願いいたします。

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arquivo: mar é uma publicação de dez exemplares, com sua maior parte presente em bibliotecas de certas instituições da cultura. Abrange momentos entre 1998 e 2019, tratando do trabalho de educadories e monitories em museus e centros culturais, tendo por principal caso o Museu de Arte do Rio. A partir das experiências de trabalho de seu próprio autor, foi criado como um diário e, por vezes, como compêndio dos depoimentos de outras pessoas. Por isso, arquivo: mar assume posição sobre o campo da mediação cultural de modo classista; observando-o a partir das subjetividades e prejuízos de trabalhadories de base nestes ambientes sobredeterminados por sues superiories imediates, pelas instituições que lhes abrigam e pelo patrimônio dos mais ricos que tais espaços exibem e resguardam.



arquivo: mar
Rio de Janeiro: Selo Ocasião
2022
ISBN: 978-65-990576-1-8
Autor: Jandir Jr.
Editora: Mariana Paraizo
Projeto gráfico: Mariana Paraizo, Diambe da Silva e Jandir Jr.
Design: Diambe da Silva e Sofia Caesar
Diagramação: Diambe da Silva, Daniel Dargains e Sofia Caesar
Serigrafia: äline besourö, Sofia Skmma
Pasta arquivo sanfonada: Atelie Flor de Maio
Textos de apresentação: Mariana Paraizo, Tadáskía e Jandir Jr.

[Disponível nas bibliotecas do Museu de Arte do Rio, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Museu Histórico Nacional, Escola de Artes Visuais do Parque Lage e Biblioteca Nacional]

Fotos: Juliana Trajano

Para fazer graça, gravei um vídeo acariciando um manequim. Enviei a um amigo e, logo, ele me mandou uma foto e um tweet sobre, o que me motivou a compartilhar minha gravação, junto com as contribuições dele, nos stories do Instagram. Apresento aqui a sucessão de respostas enviadas, por muitas pessoas, a essas primeiras imagens. O que levou três dias, e me faz pensar que construímos um longa-metragem, para o qual proponho um nome, que somaria ao de tantos outros filmes homônimos:

Manequim

.

*com Renato Gadioli, Naluh Duarte, André Vargas, Michael Gottlieb, Dominó, João Paulo Ovidio, Stewart Raffill, Mônica Coster Ponte, Jorge Soledar, Georges Marques, Pigmaleão, Rubens Takamine, Bella Poarch, Tadáskía, Ilê Sartuzi, Leandra Espírito Santo, Wesley Ribeiro, Lorraine Mendes, Sydney Newman, C. E. Webber, Donald Wilson, Rafael Salim, Alex Garland, Antonio Gonzaga Amador, Maria Clara Boing, Sophie Kinsella, P. J. Hogan, Rafael Silva Lima, Kim Kardashian, Demna Gvasalia Daily, Pablo Amorim, Talibã, Tulio Costa, Leandro Eiki, Busca, Michael Bartlett, Jéssica Hipolito, Francis Lawrence, Andrey Koens, Andrew Moreira, Yuri e os terráqueos, Wisrah Villefort, Nathan Braga, Pabllo Vittar, Silvana Marcelina, Christian Baloga, Estefânia Young, Thaís Basilio, Everton Leite, Richard Hoeck, John Miller, Martine Gutierrez, Antonio Bokel, Jéssica Guia, Steve Behling, Cirillo Tangerina Bruno, Almeida da Silva, Kanye West, Yuri Tolochko, Pedro Caetano Eboli, Marcel Duchamp, Man Ray, Manuel Álvarez Bravo, Mariana Paraizo, Santinha, Juliano Gomes, Léo Bittencourt, Anderson Felix, Lucas Brandão, Hudinilson Jr., Daniela Dacorso, Lais Pinheiro, Nelson da Motta, Zex, Ariel Pink, William Lustig, Yná Kabe Rodríguez, Jovian, Zaven Paré, Juany Nunes, Régis Sicoti, LOEWE, Matheus Simões, Hans Bellmer, Mariana Marques, Nadja Kouchi, Jardes, Alejandro Jodorowsky, Robnei Bonifácio, Urias, Juliana Pithon, Siron Franco, Kleber Bambam


[São Paulo: Meteoro Edições. Impressão laser sobre papel sulfite 75g. 11,5 × 5,8 cm, 170 páginas, 2022.]

O texto abaixo reproduz uma carta, anônima, que foi deixada na região portuária do Rio de Janeiro, no dia 15 de agosto de 2022

Esta carta foi largada no banco de uma estação de VLT. Em frente à parada, há um museu. Se olharmos com atenção, veremos que o prédio não tem mais de três andares, e no seu terceiro piso, aproveito para contar, sete pessoas se reuniram num sábado à tarde, parecendo animadas em conversar com quem visitava o local. Eu, o narrador, estava no grupo, mas observava-as. Desconfiado, perguntava: “vocês estão mesmo confortáveis em interagir com gente desconhecida?” Contudo, recebi respostas sorridentes, e me fiz crer que estavam.

Uma das pessoas traçava a estratégia de chegar perto de alguém e perguntar, de supetão, algo como um “tudo bem?” E muito do que pensava conversar depois dessa abordagem versava sobre o próprio museu, a temática das obras expostas ou os motivos para se estar ali. Seriam então conversas que, tomando partido do microcosmo museal, mirariam no que ela e outras visitantes tinham em comum, não nas suas diferenças. Esse método despretensioso, a princípio só dela, vingou: numa escolha unânime, o coletivo decidiu por puxar assunto de modo prosaico, desejoso por ouvir impressões desde o teto que nos abrigava.

Separaram-se então em três duplas. Algumas levaram objetos para tentar chamar atenção. Outras andaram, escolhendo com quem conversar. Eu fiquei de fora, e só as reencontrei depois de dez minutos, enquanto descíamos do museu. À essa altura, as palavras rarearam entre nós.

Uma pessoa disse que foi difícil. Outra, acrescentou: “Mais difícil do que imaginava”. Saindo do elevador, chegamos no Boulevard Olímpico e, para completar, começamos a ver a rua como o avesso de qualquer conversa. Porque era um lugar que desafiava essas vontades de ágora. Que retirava-nos as paredes. Que, com sua falta de limites, nos fez pequenas. E, de tão minúsculas que estávamos, nos agrupamos em roda. Ali, enquanto conversávamos, hesitantes, sobre abordar desconhecidos, soube como cada par agiu dentro do museu.

Uma dupla ouviu uma visitante cantar, juntaram sua voz à dela e, engatadas à cantoria, trocaram algumas palavras. Outro duo optou por uma estratégia indireta: numa pequena sala, permaneceram conversando afastadas, de modo que quem entrasse não pudesse circular fora do diálogo que acontecia. A terceira dupla aproximou-se de um casal já apresentando suas intenções, e lançaram, mesmo entre embaraços, algumas perguntas.

A despeito das estratégias desenhadas, parecia que nada disso funcionaria do lado de fora em que estávamos. Não havia mais museu, obras, teto, paredes. Então, nós pensávamos: como, e sobre o que, falar?

Esta carta que você tem em mãos vejo como uma alternativa a tais hesitações. Depositei-a, semanas depois, num dos bancos do VLT Carioca, Parada dos Museus, onde nos despedimos naquele dia. É que, antes da despedida, uma das pessoas relembrou dos cemitérios de pessoas sequestradas, escravizadas, descobertos em parte nas obras de implementação do próprio VLT Carioca. E outra das pessoas chegou a lembrar de um monumento feito de pedras de tropeço que, espalhadas por Berlim, faz turistas toparem seus dedões em pequenas placas elevadas no solo, com nomes das muitas vítimas da Shoá. Entre tropeços, desterros e o que constitui tantas ruas, como uma terceira pessoa comentou, percebemos então que era importante pedirmos licença, irmos com respeito e calma, antes de prosearmos sobre andar onde pisamos. Assim, uma carta anônima me pareceu uma boa forma de prometer esta conversa; quando nossos pés se plantarem num chão; quando um chão sustentar nossa caminhada.

Fica aqui nossa promessa.