
Achados e perdidos
Caso você seja proprietária(o) deste item, envie um e-mail para jandir.s.junior@gmail.com comprovando sua posse para que eu realize a devolução.
Jandir Jr.

Achados e perdidos
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Não gostaria de criar trabalhos de arte em que você* não seja necessária parte constituinte.
*não um você hipotético, mas você mesmo, que lê, apesar de eu não conseguir saber quem você é. Isto é sobre você, acredite.
Eugenio Valdés Figueroa, diretor de Arte e Educação da Casa Daros e curador da mostra ao lado de Clara Gerchman, nos conta sobre a ocasião na qual Gerchman recebeu o convite para assumir a direção do então Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro:
“Lina Bo Bardi lhe sugeriu: “Aceite! E, se achar que deve sair, então peça demissão”. Gerchman conta que escreveram juntos sua carta de renúncia e, pronto para apresentá-la a qualquer momento, levou-a já assinada durante vários anos em seu bolso, como um pocket stuff. Não era um gesto de descompromisso, mas sim de autonomia, de liberdade de escolha.”
Se você pudesse demitir-se de algo do que seria? De que tipo de relação (qualquer tipo de relação com que quer que seja) você se despediria? Por quê?
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A bem da verdade já me encaminho para uma demissão: a do lugar do artista.
Antes, contudo, devo ressaltar que esta demissão em nada pretende negar o caráter preexistente em ser artista, onde entendemos que ser vai além da chancela individual, do considerar-se ou não tal: constitui-se em sociabilidade.
Quando afirmo que me encaminho para não ser artista falo de um motivo que vejo contemplado numa imagem que me vem à cabeça, de um humano descobrindo o mundo pela medida de seu corpo, com nada além disso o sendo. Essa imagem me faz pensar em quanto minha produção tem se tornado indistinta de minha vida banal, como se, aderindo à minha pele, se camuflasse.
Nesse camuflar acredito e desejo minha produção contingente, podendo não ser produção e, assim, podendo não ser minha, sendo surpresa para mim, destruindo-me. E, nisto, destruir e trazer à tona os que me circundam, fragilizando também a noção de não artista, de outro.
Aí reside a demissão de que falo.
Excerto de minha submissão de inscrição ao processo seletivo para o curso Laboratório contemporâneo: propostas e descobertas do que a arte é (ou pode ser), realizado na Casa Daros no final de 2014.
(De lá pra cá algo mudou na minha concepção de tudo isso, mas também há algo de similar entre a ambientação que esta resposta que dei gera e o ambiente que meus escritos neste processofólio constituem. Sigo pensando. E perdoem minhas manifestações inconclusivas por aqui.)
Como não mudar o mundo?
(Mas suspeito que a fala só tem a capacidade de enunciar-se; só é a exposição de si. Ela é o tautológico.)
Talvez este site seja para mim um espaço de transição.
Penso aqui e em mim o papel de minha fala como espaço expositivo.17
Penso em privilegiar isto e abdicar, ou relegar aos meus trabalhos como tarefa, outras visibilidades possíveis.
Mas preciso construir uma ética sobre tudo isso.

Achados e perdidos
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Me parece que, mais que construir trabalhos, construo meu modo de vida.
Mas isso não interessa a vocês.
(Quem são vocês, aliás?)
Meus agradecimentos estarão implícitos no que conhecidos reconhecerem suas contribuições aqui.16
Mas não sou pior que ninguém por isso.