Postal para dois ou mais trabalhadores conversarem

Este é um postal para dois ou mais trabalhadores conversarem. Uma carta sem envelope. Um texto exposto ao mundo. Palavras que serão acariciadas por muitas mãos. Lidas por mais do que dois pares de olhos. Mas sem paisagens impressas no verso, sem lembranças turísticas. Sua imagem será a dos vincos que ganhará ao longo do tempo. Do amarelecimento do papel. Das manchas de gordura, de café, das rasuras à caneta, de cada dedo que encostar aqui. De duas ou mais pessoas que, à distância, tocarão este papel ao longo do tempo. E, em cada rastro desses toques, uma dirá algo à outra. Em impressões digitais ou desgastes no canto da folha. Aqui, toma. Escreve algo, envia pra alguém. De mão em mão, mesmo chegando ao seu destino ou se extraviando, continuaremos nos falando. Neste cartão-postal.

[Na Área de Convivência, na Biblioteca, na Comedoria, nas imediações do Teatro, na Loja do Sesc Pompeia, cartões-postais foram postos ao longo do dia nas superfícies e nas mãos de quem estivesse sentado junto às mesas, em bancos e cadeiras. Sua paisagem não era a de uma fotografia turística; era como a impressão lenta das digitais de todos os trabalhadores que, desconhecidos entre si, convivem sem saber, dia após dia, a partir do que suas mãos tocam]

[fotos: Regiane Pinheiro / Sesc Pompeia]

Liberdade: panfletos distribuídos na rua

Eu encontrei um papelzinho no chão, impresso com a palavra liberdade. Guardei no bolso e esqueci. Poderia ter acontecido de eu pôr a calça pra lavar e nunca mais vê-lo, um papel desmanchado em sabão em pó, mas foi diferente: estava distraído quando fui pegar minha chave e encostei no aviso. Retirei ele entre meus dedos e as argolas de metal. E aí, quis caminhar entre multidões. Entrar em filas. Sentar ao lado de outros na espera de consultórios. E, com minhas próprias mãos, pôr papéis como esse nos bolsos alheios, sem perceberem.

(cheque seu bolso)

[Nos arredores e nos locais de circulação intensa do Sesc Pompeia, panfletos foram distribuídos, ao modo como são anunciados cotidianamente empreendimentos, campanhas políticas, restaurantes locais. Sua mensagem, contudo, era mais afeita às mãos que encostam sem querer ao entregar o troco, ao toque fortuito dos dedos em meio às multidões. E de como, em meio a isso, algo pode ser passado de uma para outra pessoa, num gesto furtivo.]

[fotos: Regiane Pinheiro / Sesc Pompeia]

Para Vivian Borges

[publicada no livro DSR, descanso semanal remunerado, que v branco criou em 2023 e que chegou às minhas mãos hoje]

Vivian,

Não te conheço, mas já vi seu rosto duas vezes.

(não sou um stalker, tá?)

Na primeira, estava na página de Instagram dum restaurante. Desci e encontrei um post que celebrava seu aniversário. Te chamavam de incrível, declararam que todos na empresa a amavam, e os parabéns nos comentários vinham aos montes, de muitas pessoas, como uma confirmação, sabe? A foto de seu busto mostrava você uniformizada, com um sorriso tranquilo, contra um fundo neutro, uma parede de tijolos pintados de branco. Uma foto que compunha a grade de imagens com que o restaurante se apresentava na rede social. Fotografias profissionais, de comidas bem empratadas, pessoas gargalhando, embalagens chiques, letterings feitos por algume designer, sorvetinhos, donuts, pães gostosos… e, salpicadas entre uma postagem e outra, algumas pessoas uniformizadas, sorrindo. Transmitia-se a ideia de um ambiente agradável, bom de se comer e de se trabalhar (vocês aceitam currículo?).

Não cheguei até esse Instagram à toa. Um artista conversou comigo. Trabalhador das cozinhas, um antigo funcionário daí, fotografou os rostos de colegas de trabalho e, com as fotografias feitas, compôs este livro, entremeando-as à algumas páginas que registram a carteira de trabalho de seu avô. Retratos quase todos em preto e branco, enquanto a carteira colorida, em suas cores sépia, com o amarelado da passagem do tempo, só me fez pensar que o trabalho de base é atemporal, envolve complexidades transatlânticas, sindicalismos e quilombos, hoje, amanhã, depois. As fotos estão em 3×4, seguindo o tamanho e o posicionamento de uma marca de fotografia na antiga carteira de trabalho, vazada para o verso de uma página. Ele, esse artista, foi quem falou seu nome para mim. Sua 3×4 é a última do livro.

Foi a segunda ocasião em que a vi. Seu sorriso me transmitiu a mesma tranquilidade. Seu uniforme, o mesmo padrão quadriculado. Mas havia uma bandana em sua cabeça, um avental preso em seus ombros, e o enquadramento no seu rosto tornou quase como um monumento seu olhar direcionado para baixo, não para a lente da câmera. Da primeira foto então percebi algo para além de seus cabelos trançados e de sua presença exaltada. Percebi que só na segunda imagem criei alguma ideia do que seria a amizade e o trabalho contigo. O que me fez sonhar o que estaria para além do enquadramento na 3×4: você, apoiada num balcão, abrindo um sorriso após gargalhar sobre qualquer piada, talvez compartilhando com es colegas o cansaço da rotina, ou a satisfação de mais um dia entregue com excelência. Ou absorta em seus próprios pensamentos, num momento de introspecção.

De certo, sei que eu, imaginando isso, pude olhar de frente o que geralmente está em segundo plano: algumes trabalhadories de uma cozinha. E tenho neste livro uma espécie de envelope para esta carta, que um artista, um dia, me pediu para escrever à você.

Muito prazer. Um abraço.

Jandir Jr.

[abaixo, algumas fotos, feitas por v branco]

Fruto do encontro com o artista Felipe Nunes, 𝘔𝘦𝘯𝘴𝘢𝘨𝘦𝘮 é uma publicação resultante da exposição individual de Jandir Jr., que aconteceu no espaço independente A MESA, no dia 26 de abril de 2024, das 17h às 21h.

Para além dos papéis que foram fixados nas paredes, reunindo algumas das mensagens encaminhadas por Jandir para desconhecidos, este .pdf se faz entre o catálogo e o livreto, o analógico e o digital; entremeando aos registros da ocupação dispositivos inventados, luzes, brilhos de flash, soluções visuais B2K, máquinas comunicantes.

Junto à mostra, aconteceu um encontro com leituras de poetas convidados; uma proposta mantida pela A MESA desde seu início, em 2015, nas exposições que propõe e sedia.

𝗔 𝗠𝗘𝗦𝗔
Bianca Madruga
Cesar Kiraly
Letícia Tandeta
Yago Toscano

𝗘𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗲 𝗽𝗼𝗲𝘁𝗮𝘀 | 𝗖𝘂𝗿𝗮𝗱𝗼𝗿𝗶𝗮
Set

𝗘𝗻𝗰𝗼𝗻𝘁𝗿𝗼 𝗱𝗲 𝗽𝗼𝗲𝘁𝗮𝘀 | 𝗣𝗮𝗿𝘁𝗶𝗰𝗶𝗽𝗮𝗻𝘁𝗲𝘀
Carol Luisa
Inês Nin
Lívia Aguiar
rafael amorim e Lucas Canavarro
Set
Téia Porto

𝗙𝗼𝘁𝗼𝘀
Rafael Salim

𝗗𝗲𝘀𝗶𝗴𝗻 | 𝗣𝘂𝗯𝗹𝗶𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼
Felipe Nunes

𝗜𝗦𝗕𝗡
978-65-01-23449-6

[Recomenda-se a leitura no computador, mas com alguma paciência é possível ler no celular]

Documento deixado pelo vão de algumas portas

Trânsito apinhado, dia anoitecido, demoravam os ônibus. Era uma noite que me incomodava em tudo, quando uma ideia me tomou de assalto e me espantou: e se, um dia, eu sentisse saudade até mesmo do que eu mais desprezo neste mundo? Sei lá, eu devo ter olhado alguém pedindo dinheiro, pensado na fome e me indignado, ao passo que reconhecido que não conheço nada, nenhum outro mundo, nenhum outro lugar. Até firmar uma posição e te envolver, demorei umas semanas. Entre escrever, imprimir este documento, enfiar ele num envelope embaixo da sua porta, como se fosse uma renovação no contrato do seu aluguel… Mas peço, caso esteja de acordo, que não assine na linha abaixo. Ao invés disso, escreva nela a palavra saudade, com sua própria caligrafia. Com isso, quem sabe, cada traço vacilante das suas letras nos desterraria daqui, deixando-nos com a vontade de uma volta apressada. Como se, lá na frente, decidíssemos viajar no tempo, do fim do mundo pra hoje, para ver novamente a fome, o suor escorrendo da têmpora, a buzina dos carros, UTI’s sem funcionar, bares abertos, o debate eleitoral, a unha do dedão com sangue pisado, as pedras portuguesas, a pele lacerada, o chorume na rua, a lágrima nos olhos dos outros, o jeito como o corpo treme de frio, a faca cortando legumes, o velho caído na frente do shopping, a fina camada de cutícula antes da pincelada com esmalte, o óleo ungido, a bala perdida, uma camisa manchada de sangue, a pétala daquele crisântemo.

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Carta ao Prêmio Jabuti: Stella

Niterói, 22 de junho de 2024

Oi.

Vocês já conhecem Stella do Patrocínio. Um livro atribuído à sua autoria foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2002. Foi na categoria Educação e Psicologia, e não na de Poesia Brasileira, onde a vemos consagrada. Digo que foi um livro atribuído, e não que ela mesma foi indicada, porque foi produzido ao largo de sua agência, muito depois de sua passagem. Vivendo entre internações compulsórias em hospitais psiquiátricos, Stella faleceu aos 51 anos na antiga Colônia Juliano Moreira, enterrada como indigente. Sem posses identificadas, números de documentos, sem familiares, foi trancafiada sob o jugo da doença mental e considerada ninguém no registro de sua morte. Mas como uma mulher que dormia em quartos coletivos, num amontoado de gente, cuja até as vestes eram marcadas com a alcunha da instituição que a aprisionava, tem um livro publicado e é um sólido nome entre poetas e literatos? 

O caminho até a publicação é longo, atravessa décadas. Mas interessa a esta carta seu ponto de partida: Stella teve sua voz gravada na década de oitenta, no contexto de oficinas de arte que aconteceram no núcleo em que esteve presa. Em quatro faixas de áudio divulgadas na íntegra só em 2022, percebem-se as falas posteriormente organizadas em forma de poesia no livro indicado ao Jabuti, mas também tudo que escapou à transcriação de quem converteu os sons em textos. Ruídos de fundo, testemunhos de como soava aquele manicômio, burburinhos, conversas paralelas, as vozes das interlocutoras de Stella, que não constam no texto final, como entrevistadoras, ou algo assim, mas que a notaram e quiseram gravá-la quando foram convidadas para dar aquelas aulas. E o que mais me mobilizou: perceber como Stella disse muitos nãos. 

“Eu já falei o que podia, num tenho mais voz” 

“Eu não sei mais”

“Esqueci”

“Você tá me comendo tanto pelos olhos, só pelos olhos pelas palavras, que eu fico sem força”

As recusas eram insistentes. Ora saídas sinuosas, ora confrontações diretas às perguntas que pediam para ela cantar, falar qualquer coisa, que a elogiavam para, em seguida, lhe extrair algo. Num dos trechos mais ostensivos, Stella fala: “Cê me pega sempre desprevenida, hein? Quando eu tô com vontade de falar tenho muito assunto, muito falatório, num encontro ninguém pra quem eu possa conversar. Quando não tenho uma voz mais, num tem um falatório, uma voz mais, vocês me aparecem e querem conversar conversar conversar conversar”. 

Penso que o silêncio de figuras públicas é estranho. Quando muito, sabemos do clamor contra certo famoso que não se pronunciou sobre um caso polêmico, no que fica evidente que sua relevância é feita, sobretudo, de palavras. Ainda que calar não entre no que consideramos ao eleger a importância de alguém, ressalvo: a quietude me parece de certo modo resguardada como um direito – convivemos com os hiatos de bandas famosas ou com estrelas fugindo de paparazzis. Mas não podemos conviver com o silêncio de Stella do Patrocínio, cuja vida pública foi praticamente desvinculada de sua vida orgânica. Não digo do silêncio obsequioso, imposto como castigo, ou da falta de ressonância dos que não são ouvidos. Falo daquele silêncio desejado, de quando queremos e podemos aquietar. De quando alguém se recolhe e reconhecemos, nisso, autocuidado e calma. Sei que não podemos conviver com o silêncio de Stella, uma das tantas espoliações que seu corpo sofreu ao longo da vida. Mas em suas recusas, audíveis nesses arquivos em .wav, pude vislumbrar sua pretensão à quietude numa importância tão grande quanto a de seu falatório.

Eu não sou tão envolvido com literatura. Minha relação com prêmios e assuntos literários é lateral, para ser generoso. Mas não pude deixar de pensar em Stella ao reabrir um dos meus livros de formação, importante à área que me vejo relacionado – às Artes Visuais –, e ver, nele, o sobrenome de um artista estrangeiro, em posição de importância. Omito seu primeiro nome de propósito, e do capítulo que carrega suas falas – de uma entrevista transcrita, com a devida presença transcrita de seus interlocutores – retirei tudo, numa edição que subtraiu e embranqueceu as páginas, com exceção do que até então era um sobrenome: Stella. 

O resultado me parece uma constelação. Estrelas e o silêncio do espaço sideral. Envio as páginas em que intervi junto a esta carta. Acredito que o Prêmio Jabuti, que a Câmara Brasileira do Livro, acabaram cumprindo um papel legitimador, instituidor da evidente força das palavras de Stella. Mas só ouvindo Stella pude entender algo que escapa ao que entendemos como importante à humanidade. Algo que segue no fôlego que tomamos entre uma palavra e outra, nos momentos em que calamos por desejo, em quando dizemos não. Envio esta carta, e as páginas que seguem, como quem diagnostica uma só força nos silêncios e nos falatórios. Das que foram vitimadas e das que não serão. E em Stella, que num dos poucos gestos de resistência que se tornaram públicos, me fez pensar que não só as palavras da humanidade merecem prêmios, mas também os silêncios (ou a busca por eles).

Carta pra Malu

Malu,

Demorei 25 anos pra responder. É tanto tempo que envio uma cópia da carta que cê me mandou, tô certo que você já esqueceu. Eu mesmo esqueci: você elogiou um desenho que fiz, e já não lembro qual foi. Você me convidou para participar do jogo das profissões, mas quais eram as regras? De todo modo, também mando uma fotografia minha, com décadas de atraso e, portanto, com um rosto envelhecido em relação àquele menino de dez anos que, quando recebeu a carta, respondeu ao seu pai que preferia não ir ao estúdio participar do programa. A distância entre Penha e Ipanema eu medi, naquela época, pela necessidade de sairmos de madrugada para pegar o primeiro ônibus. Hoje, sei que a distância também tem por medida um quarto de século e, por isso, talvez você que recebe esta carta não se chame Malu, apesar de responder pelo mesmo endereço. Se for o caso, não se preocupe, ignore a mensagem. As cartas, às vezes, se extraviam para conversar com seus próprios descaminhos.

fotos: Rafael Salim, 2025

[Esta carta foi um dos capítulos da revista ‘plin plin’, lançada na ocasião da exposição homônima de Felipe Barsuglia no Projeto Vênus em junho de 2024. Tiragem de 200 exemplares. Venda proibida]

mensagens escritas por mim, Silvana Marcelina e André Vargas para a exposição individual de Rodrigo Ferreira, Arapuca-cascabulho, que inaugurou no dia 11 de maio no Ninhu, em São Paulo, e encerrou no dia 1 de junho

Ban [Jandir Jr.], [13.4.2024, 12:24]

deré, tiba, lembro daquela conversa sobre a mochila do bledo. Aquela que inspirou uma pintura da Silvana. Uma bolsa preto-e-branca, trançada de um jeito que não se vende em lojas, mas nas ruas. Uma mochila que, como um ícone, fazia vislumbrar uma coisa difícil de pôr em palavras, sobre as pontes que descem entre o nordeste brasileiro e o subúrbio carioca. Como uma rede pendulando entre cá e lá, com uma ponta fixada no oceano atlântico e outra naquela parte, quase-tordesilhas. Lembro da mochila, mas também lembro que nunca percebi sotaque no meu pai. Que certo jeito de falar, de escrever, de comer, de dançar são para mim uma expressão tão cristalina que me surpreende quando outros veem uma coisa estrangeira no que me parece, sui generis, sudestino. Aí penso no que o trabalho do bledo diz sobre as faixas do André, as minhas performances, sobre o quartinho que Silvana fez numa exposição. Nosso ambiente de formação é qual? Para além das academias que frequentamos, aposto que nossas escolas são contínuas às escolas de chão de terra batida que nossos antigos pisaram. Nosso humor vem embalado por uma quentura que a antiga capital brasileira nunca experimentou. Escrevemos rimas que foram sonhadas por rimadores descalços. E assim, cosmopolitas estranhos, pendulamos entre cá e lá, com identidades feitas não do enraizamento, mas da migração. O que, certamente, fala sobre um todo maior; uma multidão caminhando sem parar, já cansada, mas que, ao olhar suas próprias pegadas, pensa seu andar feito não só do que aponta no horizonte, mas também do que se afastou. Dedão e calcanhar: duas setas.

Tiba [Silvana Marcelina], [03.05.2024, 08:54]

Ban, eu li tuas palavras a primeira vez e senti uma certa emoção na alma porque me vi absolutamente representada quando você diz das identidades feitas na migração e não no enraizamento, “dedão e calcanhar: duas setas”. O desejo foi de soltar aquele *orra beeem carioca, justo eu que sou fluminense. Na tua mensagem há um mapa que vai sendo desenhado nas e pelas miudezas, tal qual os trabalhos do bledo [Rodrigo]. Há muita poesia no gesto de olhar a paisagem e sacar dela um pedacinho qualquer em que se encontre um sentido, um verso, uma brincadeira, um afeto. Porque, afinal, é nesses miúdos que a gente se inventa, constrói laços e cria raízes (fixas e móveis). Mas também é nesse espaço-tempo que a gente é compelido a, violentamente, só olhar a paisagem e tentar se integrar na ilusão do todo, negando a parte. Aí fico pensando que as obras do bledo são também do gesto diminuto do cuidado e da cura, como quando a nossa mãe passava merthiolate no machucado. Uma mão leve fazendo uma pequena espátula roçar na ferida aberta, a ardência tomando conta e gesto mágico do sopro para aliviar a dor. Eu olho para as pinturinhas, as fotins, as palavritas, os versos e é como se essa brisa da boca de mãe soprasse no meu coração. E aí eu me conecto com a cadeira de vó de uma vó que nunca pude ter por perto, mas que mesmo assim eu a vislumbro balançando sob o sol da tarde, num cá e lá.

Deré [André Vargas], [06.5.2024, 15:56]

A cadeira que balança a vóinha e o povo todo a caminhar com os pés de bússula. de cá pra lá, de lá pra cá. Um balancê danado nesse conversê que a gente tá dando sequência desde o dia em que nos conhecemos. Nós quatro, andando feito bobos, conversando sobre tudo, de uma sala de exposição para outra quando éramos educadores do mesmo museu, fazendo o tempo passar mais amigo da gente, na burla clara de mais um dia de corpo em riste. É assim que eu sinto esse texto, uma sequência de uma conversa que começou no primeiro dia de trabalho e seguiu vida afora, amizade adentro. Rompendo os traumas da labuta pelo poder do papo furado feito água mole em pedra dura. 

Há, de fato, como o Ban(Jandir) bem disse, um nordeste forte e magnético puxando a seta da bússola do subúrbio, e do suburbano, sudestino ao seu destino mais promissor: ser caatinga, restinga e sertão. Mas há também uma ilha no existir de quem trilha a andança como forma de vida. Uma sensação estranha e estrangeira que permeia toda a  pertença que possamos experimentar em qualquer lugar em que nos aquietamos. É o que vejo nos trabalhos do Bledo(Rodrigo), um rebuliço entre um nordeste que puxa para seu seio e uma insularidade indissolúvel no olhar de quem o ama. 

Achar, por exemplo, na Ilha de Ferro a madeira e outras maneiras de resolver a vontade, além de achar as pedrinhas miudinhas que alumiam suas passagens, paragens e olhar – o tal miúdo essencial que pauta bastante dos processos do Bledo, como bem lembrou a Tiba(Silvana) – é mais um sinal de que as ilhas se revelam aos que, como ilhas, são capazes de se sentir. O olhar de ilha, como o do Bledo, é interessado no segredo e apruma as oiça pra ouvir a ladainha. Vê no que está fora tudo o que está dentro. A fachada como convite a entrar, o varal como um portal a atravessar e outros lugares onde seu olhar espera e espreita de fora a força interior, como uma ilha que, cercada de mar, sente a maré como quem respira.  

Dentro e fora; Interior e exterior; Lá e cá… são falsas dicotomias, uma vez que são resultados de um mesmo ponto de vista. Acredito que a ideia de sudeste e nordeste também assim o seja e, portanto, não é na diferença que reside a fronteira, mas no que há em comum entre essas duplas de sentidos: o segredo. E a única coisa que podemos saber de um segredo, sem que ele deixe de ser segredo, é que o segredo é palavra. E o segredo é palavra que precisa sempre ser inventada, reinventada, escrita, borrada e apagada sem dó para manter-se secreto, e Bledo, ciente de que este é um jogo de azar, joga os dados, costura frases, pinta e rasga fita crepe e manifesta como um convite para conversar sobre as rotinas mais simples e nada secretas, pois é na fachada que está o convite para entrar. 

Na rasura, no rascunho, na garatuja e no descartar, assim como no interior de si, no interior do só e no interior que é só o interior daqui. Jogando com as palavras, andando e conversando o mais simples para o tempo passar amigo, como nós quatro faziamos de uma sala de exposição a outra, Bledo é um artista e educador dos espaços onde habita, sensível a todo entorno que entorna em grandes ondas de suor e frescor, no mar dos desconfortos e confrontos da vida, uma ilha.

Bilhetes deixados no chão

Este bilhete foi escrito por um educador que demora quase três horas para ir ao museu onde trabalha. Que demora quase três horas para voltar para casa. Que acorda às cinco da manhã e, nos dias mais escuros, tem dúvidas se conseguirá dar um beijo de despedida no rosto de sua companheira ou em sua cabeça, ou no seu ombro, enquanto ela dorme. Que, quando sai de casa, caminha por um trecho com muitas pessoas catando pequenezas no chão. Pega barcas, ônibus, vans. Passa por cartões-postais e áreas de milícia. Vê recorrentemente um homem com uma mancha roxa na cabeça sentado na sua frente, no ônibus; parte da paisagem rotineira de árvores, prédios históricos, estampidos de armas, cavalos, pinos de pó caídos. Quem trabalha conduzindo visitas tem, antes, seu próprio roteiro de visitação.