André Vargas <andrevargasantos@gmail.com>  23 de julho de 2018 18:45
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

Tivemos uma crítica negativa de caminhar Ão o que é positivo… Ao se pensar que foi feita por um amigo do irmão do Tunga, que fez com que este falasse com a direção do museu e chegasse, então, Janaína.

Aeeee!

Eles não entendem nada, porque também estão caminhando e estão caminhando até agora naquela sala de exposição!

Dia desses te conto melhor.

 

 

 

___

– Valendo, valendo! Vai lá…

– São dois caras, meio com um paletó marrom, um terno, um negócio assim… descalços, que ficam andando num… num num… assim… em meio que… em ziguezague, entre as pessoas e as obras, pisando… andando meio rápido, pisando meio pesado, como se fosse uma coisa… como se fosse uma performance pra perturbar o… o espectador de alguma forma. Tipo… é uma coisa que eles ficam… aí de vez em quando eles batem uma palma alta e continuam andando. Cabô. É isso.

– É uma… é uma performanc…

– Mas isso constante! Constante.

– Constante.

– Sem parar.

– Eles chegam a encostar nas pessoas ou não?

– Não. Eles passam bem perto…

– Como é que eles são? Fisionomia deles?

– Ah, cara… são dois carinhas jovens lá, meio com cara de estudante de arte, sacou?

– Tá.

– É… e…. e…. passam bem perto. Se você tá em frente a uma obra, ele passa entre você e a obra. Passa na tua frente, assim… tipo…

– Sei… Não é agradável.

– … andando rápido. É, parece que é uma coisa provocativa…

– Porqu… Ahn, entendi.

– … Uma performance pra te…. te…. pertubar. Cê fica até meio encabulado de olhar pros caras, entendeu?

– Uhum.

– Eles ficam andando olhando… olhando pro infinito, assim… sacou?

– Valeu.

programa performativo: como resposta ao abuso de autoridade/assédio moral/solicitação indevida, retirar e entregar nas mãos d_ superior_ que o/o/a realizou; o seu crachá, uniforme e calçados, coisas assim, saindo logo em seguida, descalç_ e seminu_, em direção ao rh ou seu equivalente institucional, afim d formalizar pedido de demissão.

Hoje, escutei barulhos baixos no meu quarto. O vasculhei e encontrei em três caixas de papelão, onde guardada minha coleção de coisas que não desembalarei, cupins que já atingiam o rodapé de madeira e o chão de taco próximos. Pus as caixas na calçada, onde colocaria o lixo da semana. Limpo meu quarto agora com querosene. Vejo meus indícios materiais se esvaírem pouco a pouco. Que alívio poder virar outra coisa. E bom cumprir a promessa, de modo a mudar o tempo verbal. Não desembalei.

Museu de Arte do Rio

12 de julho às 12:56

Não perca as atividades do final de semana aqui no MAR!

Neste sábado, às 15h, venha participar da atividade educativa Caminhar
Ão. Algumas pessoas circularão pelo espaço expositivo sistematicamente
e, como na obra “Ão” de Tunga, caminharão infinito. O público será
convidado a participar de uma ação performática criando sua própria
trajetória e se relacionando com os demais caminhos construídos na
exposição.

Atividade realizada com André Vargas

Registro fotográfico de Edmilson Gomes

unnamed

(desenhado por Rodrigo Ferreira)

Definição, em até 150 palavras, do termo “coletivo”;

Coletivo: quando dois, duas ou mais devem definir-se usando as mesmas palavras, a mesma métrica nas frases, o mesmo ritmo gramatical, os mesmos erros de digitação. Dessa forma, prescindindo até mesmo do uso da primeira pessoa no plural, cabe tanta gente, mesmo que pouco visível, no lugar que finda num ponto final.

trecho de uma inscrição em um edital que realizamos nós, a Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda.

Tenho sentido uma forte dor na parte inferior de minha mão direita ao tê-la apertada com força por outra pessoa quando em um cumprimento. Não sei precisamente quando isso começou. Faz pouco. Mas hoje, ao apertar as mãos com outro homem e sentir novamente essa dor, decidi deixar cumprimentos de mão e somente me disponibilizar aos abraços: com as mãos arejadas, sem apertos portanto, enquanto envolvo o tronco dum corpo nos meus braços, tendo o meu também envolvido por sua vez. E eu penso: quem são emissor e receptor em um abraço, assim como quem o são nas mãos quando apertando-se? É que busco me esquecer do aperto em que devo apertar. Dessa forma, forjamo-nos um elo. Por isso me enlaçarei de todo para me distrair de qualquer desmedida, para me convencer que constituímos um.

Ou aperto uma mão com as minhas duas. E aí só sou eu, mas ainda um abraço.

Após ver um pequeno documento de Paulo Bruscky em exposição – uma folha amarelada, tamanho A4, com duas fotos preto e branco da estadia de Helio Oiticica em Recife coladas ali, e pequenas anotações escritas à mão, em caneta bic preta, sendo a última uma inscrição mínima no canto inferior direito da página: “Arquivo Paulo Bruscky” -, decidi deixar de chamar aqui de portfólio, que chamei por tão pouco tempo assim, que antes chamei por processofólio, de 2015 a 2018.

Agora chamo de arquivo. O que muda alguma coisa, ainda que não mude nada.