gostaria de ter  terei ainda um pouco menos de pretensão com relação à minha publicização.

“como não mudar o mundo?”

(3/1/17 deixei um desenho q fiz no banco do onibus e saltei.)

limpando meu quarto só com água e subtraindo dele certas coisas, de modo a me manter com o mínimo possível.

 

(não tenho interesse em propagar prerrogativas morais sobre a arte, já que me interessa olhá-la como conceito em disputa e, por afirmá-la em disputa, me posicionar próximo aos que são periféricos à ela enquanto hegemonia mas, ainda assim, buscam tomá-la em suas próprias mãos, fazendo-a ferramental a si. contudo, constantemente me recordo do que ouvi do mestre franz manata quando fiz suas aulas: que, quando nos perguntamos sobre o que mais colocar num trabalho de arte que julgamos quase finalizado, devemos parar ou talvez devêssemos retirar-lhe algumas coisas, pois nos perguntar o que mais pôr pode ser o indício de que colocamos demais ali.)

Escrever pode ser, ou é, a necessidade de tocar a realidade que é a única segurança de nosso estar no mundo – o existir.

Iberê Camargo

I am still alive.

On Kawara

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>29 de dezembro de 2016 21:25
Para: André Vargas <andrevargasantos@gmail.com>

antipoesia

[Texto das mensagens anteriores oculto]


fé e fogo

 

(não pretendo mais conjugar o verbo querer. o desejo me situa em condição abstrata: no ideal, no futuro, no devir – por exemplo, quando falo “quero morar sozinho”. já pensar a partir do que posso fazer, situando minha pulsão no que me é alcançável agora, evanesce o me localizar em abstração. posso exemplificar dizendo, ao invés do “quero morar sozinho”, “vou morar sozinho”. e, se por acaso morar sozinho não é possível, se não possuo as condições materiais ou atitudinais para impulsionar essa realização, me detenho a lançar minha ação numa outra empreitada que posso realizar no agora, destituindo o “morar sozinho” da condição de algo que eu queria para que ele esteja em sua condição ideal puramente; sendo ideia, sendo nada real para mim, que eu possa revisitá-lo em outro momento em que seja possível o tornar factual, e não que eu permaneça nele em sua condição de desejo, que me impulsiona a mantê-lo em mim e me manter nele, numa união que só o sustenta como meu objetivo longínquo, no qual não consigo estar totalmente engajado – logo, como abstração que se reivindica em minha realidade -, e nada mais produtivo e factual. em princípio, pensei em escrever que não quero mais conjugar o verbo querer, mas percebi o equívoco, já que não pretendo mais conjugar o verbo querer.)

(27.12.2016 – Alguém está numa situação em que ainda não assumiu compromissos sociais. Se sua conduta for simples, permanecerá livre deles. Estando satisfeito e evitando fazer exigências aos outros, ele poderá seguir calmamente suas predileções. o significado desse hexagrama não é estancar, porém seguir adiante. Alguém se encontra, ao início, numa posição insignificante. Mas possui a força interna que possibilita o progresso. Se ele se contenta com a simplicidade, poderá seguir adiante sem culpas. Quando um homem está insatisfeito com condições modestas, torna-se inquieto e ambicioso, querendo progredir, não para realizar algo de valor, mas apenas para escapar da pobreza e, ao atingir sua meta, torna-se arrogante e apegado ao luxo. Por isso seu progresso é acompanhado de culpa. O homem capaz, ao contrário, está satisfeito com sua conduta simples. Ele quer avançar de modo a executar alguma coisa. Uma vez alcançado seu objetivo, algo é realizado e tudo fica bem)

mas deveria estar me preocupando com as poucas pessoas de 5 anos com quem, talvez, tenha interlocução lá na frente, e não com a utopia em fazer um desenho que só – mas todas – as pessoas dessa idade consigam ver.

planos para 2017: fui convidado a desenhar e os mostrar para pessoas de 5 anos, no que me indago: como fazer desenhos que só os dessa idade vejam?

Deixei a bandeira com uma pessoa que sentia frio – e que mal conheço para além de seu primeiro nome – com o intuito de que cobrisse seu corpo. Possivelmente esta bandeira não mais será hasteada, o que me faz acreditar que, apesar de nossos desejos por bandeiras à vista, precisemos delas servindo como agasalhos que são; já que tessituras, podem se fazer junto às peles. Por pensar desta maneira, não pretendo mais hastear bandeira alguma. Descubro preferir arriá-las.

https://www.facebook.com/novaspoeticas/photos/a.479342908864042.1073741828.477719042359762/949919588473036/?type=3&theater

Como se mostra um trabalho?

A ideia de que há espaços e condições ideais para expor trabalhos de arte é um pensamento que normatiza e engessa; evita o sopro e tolhe a imaginação. Parte dessa noção se deve ao ranço modernista, que ao solidificar a concepção do cubo branco — modelo ascético isolado do mundo —, fundou um conceito tautológico: se está no devido contexto é arte, e é arte porque está no devido contexto. Naturalmente, promoveu-se uma esfera institucionalizada, gerida principalmente por museus e galerias. Outra parte dessa pressão indesejável vem dos processos que achatam as ambições ao ponto da homogeneização, empurrando as vontades na direção de um sistema já reconhecido e bem estabelecido. Diante das tantas possibilidades ventiladas por mais de seis décadas de revisões dos espaços institucionais idealizados e experimentações de toda sorte, em que foram mostradas obras em casas, ateliês, na rua, em teatros, lojas, ao ar livre, em sítios ecológicos ou em livros e revistas, temos que manter a visão aberta para que seja possível criar meios e produções que se desenvolvam com autonomia em relação às forças conservadoras que agenciam a concentração de toda forma de capital, afeto e atenção.

O Novas Poéticas, como espécie de convocatória-encontro-laboratório surgido dentro de um ambiente acadêmico, pode sempre transformar-se, adaptar-se e encontrar novas maneiras de existir. Este ano optou por alcançar outras fronteiras geográficas e conceituais. Deixa o eixo do Sudeste em direção ao do Sul, ao passo que também decide se aproximar do mercado. Nesta investida que explora outras formas de conceber sua existência, reúne artistas de diferentes cidades do país, e que se valem de distintas pesquisas e mídias. Em comum, no entanto, todos compartilham o mesmo desejo de estudar e entender o mundo, e expor seus pensamentos e práticas. Encontram então na chamada do programa uma oportunidade para arriscar-se num contato com o público e os fluxos comerciais.

Trata-se de uma ocasião para ensaiarmos juntos os possíveis distanciamentos e conexões entre atividades independentes e acadêmicas e o dito circuito profissional; mas também para tomarmos fôlego e pensarmos outros caminhos ainda não imaginados. Que o presente diálogo incentive a busca de mais espaço nos modelos já conhecidos, e que possa igualmente gerar uma energia capaz de formular e executar proposições insólitas. Que dê entusiasmo para que se mostre mais, e impulsione novos lugares para além dos campos convencionais, provocando ações capazes de apontar outros modos de se fazer e mostrar um trabalho de arte.

Germano Dushá
Curador (Novas Poéticas, 2016)

(pares)