Fé e fogo

–x–

Bandeira:

André me convidou para confeccionar uma bandeira que, num dia a ser marcado, sairá em marcha, comigo a empunhando, junto com outras pessoas, cada uma com sua bandeira. Contudo, suas regras para a confecção da bandeira foram: que não fossem utilizadas letras; e que suas cores se limitassem ao preto, vermelho, amarelo e branco.

Falei para ele que gostaria de retornar a fazer coisas como se eu mesmo não as tivesse feito, através de uma ação questionável, ou patética, ou involuntária, ou.

Tendo esse desejo de fazer uma bandeira sem fazê-la, lembrei dos sudários; tecidos de linho que são utilizados para secar o suor dos corpos, ou embalá-los. E soube que é a bandeira de nº 2, que mede 1,30 m x 0,90 m, que é a que é carregada por alguém em marcha: a bandeira que mede o que um corpo deve levar.

Decidi comprar um tecido de linho branco de 1,30 m x 0,90 m e carregá-lo junto ao meu corpo, para secar o meu suor. E ter isto por bandeira.

(ininterruptamente)

VIVO

A

URGÊNCIA

DOS

DIAS

“O Sudário é um dos acheiropoieta (grego bizantino: “não feito pelas mãos”)“

 

Esta será uma bandeira que, tanto hasteada quanto arriada, terá por suporte o meu corpo.

acho que to nessa de escrever por aqui porque me incomodei com o subjetivismo das artes visuais em querer, ainda que trabalhando na plasticidade das matérias, comunicar algo indicial de sígnico e de linguagem ao mundo, como se lançassem uma garrafa-mensagem a um mar de observadores imersos em sinestesia.

o dia começou com uma ligação de minha companheira, que me disse ter visto um homem baleado num ônibus a frente do que cotidianamente pega. falou sobre ter medo, porque aquilo poderia ter acontecido a seu outro companheiro, com quem mora, num caso desses de reação a um assalto.

durante a tarde, soube que o homem que espancou minha irmã transgrediu a medida que o obriga a se manter afastado dela em trezentos metros. a perseguiu secretamente até uma festa onde estava, esperou ela começar uma conversa com um cara, tirou uma foto de longe e foi até ela, a agarrando pelo braço. depois de ser afastado e ameaçado pelo outro que conversava com minha irmã, ele partiu aceleradamente com seu carro e, no dia seguinte, enviou a foto que fez ao meu sobrinho via whatsapp, numa clara estratégia para afastá-lo de sua mãe. nisto, ela foi com essa fotografia até o fórum onde seu processo contra ele está em tramitação e ouviu da juíza, advogada ou sei lá o que, que esta temia por sua vida, pois, com a recorrência de agressões que ele já havia cometido contra mulheres, não seria estranho que tentasse matá-la.

à noite, fui a um festival de cinema organizado por amigos numa universidade na zona sul deste estado. ali passou um filme que muito me incomodou, por aspectos formais, mas, sobretudo, por reificar uma narrativa sobre certa classe média branca de artistas e seus esquerdomachistas de estimação. ali, mais uma vez, via a pele alva e seus hábitos sendo massivamente enfiados nos meus olhos e só pensava, enquanto isso, naquela cena do laranja mecânica do cara com umas coisas prendendo as pálpebras dele enquanto residia inerte frente a uma tela. pensei que a condição de invisibilidade – inexistência, morte simbólica e real – dos produtores culturais negros, pobres, periféricos-etc. só se dá porque olhamos para estes filmes, que mostram, inescapavelmente, uma realidade que nada diz para nós; sempre estas mesmas pessoas e seus interesses. e escrevi no meu celular, enquanto as cenas do filme seguiam: Nos ainda podemos virar õ rosto

cheguei a ser convidado para uma cerveja com as pessoas que assistiram a sessão, mas preferi a companhia das ruas desertas e dum caminhar solitário do que um diálogo masturbatório sobre as qualidades e defeitos daquelas coisas que passaram por aquela tela somente. cheguei a parar para tentar comprar uma pizza vegana pelo caminho, e, infelizmente, ouvi um homem, desses com dinheiro no bolso, agredir verbalmente as duas mulheres que o atendiam, só porque elas não lembravam qual fatia de pizza ele tinha pedido há muitos minutos atrás. me enchi de raiva: pensei em minha mãe trabalhando como empregada doméstica quando ela era menor de dezoito anos; pensei no meu pai tentando amenizar o peso dum trabalho extenuante com álcool; pensei nos meus irmãos e sobrinhos que tem de trabalhar subservientes a tantas pessoas problemáticas; e pensei em mim mesmo, ao ser agredido por visitantes ricos nas galerias no museu de arte do rio. tive vontade de dizer que ele era um merda, que ninguém ali era a mãe dele, e só esperei que ele virasse o rosto na minha direção para que eu começasse isso. mas ele não virou. e foi melhor assim, pois só geraria violência com isso. e quero o pacífico.

peguei um ônibus até o centro e, quando entrei no ônibus que cotidianamente uso para ir à minha casa, me dei conta do que o motorista falava a outro rodoviário: que, ao meio dia de ontem, um homem reagiu a um assalto naquele carro e efetuou um disparo com uma pistola. a marca residia no vidro da frente do ônibus e só aí me dei conta dela: um pequeno círculo perfeitamente cravado no vidro próximo ao motorista. isso se deu em bonsucesso. e me lembrei de outra história: um dia, voltava com um amigo de ônibus para casa e, quando estávamos na altura de bonsucesso, uma menina muito branca um banco a frente do nosso se voltou para trás e nos perguntou onde estava. quando dissemos que estávamos em bonsucesso, ela começou a chorar, ligou para sua mãe e desceu do ônibus desesperadamente. rimos muito desse fato, e de pensar também que o desespero dela era fundado por seu preconceito com a zona norte e a região suburbana. mas hoje sei que ela estava pensando no medo que sentia de morrer baleada assim como todas essas pessoas pobres, como nós, que morrem cotidianamente em lugares como ônibus e subúrbios.

tem sido foda dormir com essa sensação que, simbólica e fisicamente, seguimos sobrevivendo, ao invés de vivermos e nos sentirmos protagonizando a vida, como alguns sentem e conseguem.

escrevo isso agora porque não consigo dormir.

De: Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>
Data: 9 de dezembro de 2016 14:27
Assunto: Re: Se deus fosse o curador, em qual lugar você exporia?
Para: Mariana Paraizo <paraizoborges@gmail.com>

me identifico com seu email, mari. tenho pensado bastante nesses últimos tempos numa noção de circuito e trabalho expandidas, como se fosse realmente deus – abstração que põe nossa existência numa constante condição de mistério, por se dar pela vontade insondável de um ente superior que nos gera e organiza – o único curador possível de nossa disposição no espaço expositivo-mundo; através da efemeridade e nomadismo destas nossas práticas em arte, já não é possível outra localização que não a do ocupar todo o espaço, de considerar todo o espaço, de encarar-nos como mais um quinhão de matéria nestes lugares etc.

por exemplo, pretendo pedir para algumas pessoas próximas que desenvolvam estampas para saquinhos de cosme e damião, no que imprimirei estes saquinhos e darei parte para estas e ficarei com o resto, para distribuir doces no dia 27 de setembro. estas pessoas tem relação direta com esta prática, seja por ligação territorial, religiosa… ou tudo isso junto. e só me animo a fazer isso por saber que construo uma exposição coletiva dessa forma; direcionada para crianças, em relação clara com um sincretismo negro… um outro circuito, enfim.

mas, com relação aos espaços institucionais – como a galeria vermelho, na qual já desejei expor também -, só tenho desenvolvido trabalhos para esses locais com o amador e jr. segurança patrimonial ltda. – http://cargocollective.com/amadorejr -, pois é o único trabalho que me deixa confortável nesses locais, por sua dimensão crítica que tanto me diz respeito. de resto, individualmente, prefiro criar (n)esses circuitos não profissionais e frágeis pelos quais, com muito esforço, tenho sonhado novas formas de visibilidade para mim e para outras pessoas queridas.

um beijão!

Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>21 de novembro de 2016 14:51
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

. este e-mail é um convite .
. Te convido a realizar um trabalho, na medida de até 10 x 10 cm, a ser entregue na rua riachuelo, 32, 610, lapa, rio de janeiro, até o dia 15 de janeiro.
. a entrega compreende todas as vias possíveis: em mãos, via correio, via terceiros .
. você também pode sugerir que eu retire o trabalho em outro lugar, dentro de outro acordo .
. também estarei disponível a te ajudar a produzir o trabalho, buscar materiais, conversar, ou qualquer outra coisa negociada por nós, sem envolvimentos financeiros .
. o trabalho também pode acontecer sem qualquer aproximação minha .
. outras 14 pessoas estão convidadas .
. os 15 trabalhos desencadearão uma exposição portátil ainda sem corpo, espaço ou previsão .
. todos os trabalhos serão armazenados numa caixa, circulando por períodos negociados em espaços expositivos, praças, bares, casas, salas de aula etc .
. você pode solicitar seu trabalho de volta quando desejar, ou deixá-lo itinerar .
. qualquer outro aspecto não dito aqui pode ser esclarecido entre nós .

 

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>24 de novembro de 2016 23:05
Para: Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>

ei polly! quero ir compartilhando contigo

pensei numa coisa mas não estou convencido. é essa aqui:

image

Parede
2016
nanquim sobre papel
10 x 10 cm.

pensei nisso pq tive a ideia de roubar o texto de parede de alguma exposição e, como essa proposta não tem paredes pra ter texto de parede, criei uma parede (o título do trabalho, que nomeia o papel como um todo) para colocar um texto lá (um texto bem estranho, aliás; pq uso várias sentenças diferentes, que não usaria, pra simular uma certa dissonância e minha relação de amor e ódio com a democracia burguesa rs).

to indeciso com isso pq acho que crio um precedente que não existe na sua proposta – o tal texto de parede, e a parede em si – para produzir na minha zona de conforto. isso me mostra o quanto eu to acostumado pensar na lógica da crítica institucional e como eu to chato, meio monotemático com as coisas ahhaha.

enfim, vou continuar te dizendo sobre o que vou pensando. pensei em fazer algo escrevendo em primeira pessoa, pq é o que eu mais to fazendo por mim mesmo. também passou pela minha cabeça retomar alguma coisa que ja´tivessse feito. mas vi que tudo que fiz era meio que fomentado pela relação crítica com o espaço expositivo tradicional. então… to assim, meio deslocado do que reconheço facilmente, lidando com isso por causa dessa sua proposta. rs

beijooo!

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>27 de novembro de 2016 12:47
Para: Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>

ahhhh!! e eu acabei de achar um caderninho de menos de 5 x 5 cm. acho que vou comprar e… sei lá, usar pra documentar essas coisas sobre texto de parede e parede.

 

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>3 de dezembro de 2016 23:47
Para: Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>

sobre o projeto de levar as miniaturas p o bar (q é tipo tua vontade de levar um francis bacon p bar rs) fiz uma nova versão, final, eu acho:

image

Parede
2016
nanquim sobre papel
10 x 10 cm.

e vou te dar o caderninho. 🙂
bjo

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>5 de dezembro de 2016 22:41
Para: Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>

image

seu caderninho! vou enviar p ti.

eu ficaria triste se vc não fizesse o seu texto, ou algo assim. nem acho interessante interromper gestos com o que faço. então queria te convidar também, dentro do seu convite, a não deixar de fazer alguma coisa com relação a essa vontade de escrever um texto 10 x 10, seja escrever ou não isso q vc irá fazer.
e, por favor, compartilha comigo o que vc fizer?

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>6 de dezembro de 2016 11:00
Para: Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>

né? ahhahaa, ele é lindo.foi o wallace ramos qm fez. enfim, já estará nas suas mãos.

Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>7 de dezembro de 2016 12:46
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

“Portanto, ser realmente experimental exige rigor na pre­paração de uma intervenção. Talvez devamos passar a pensar o termo “experimental” em sentido científico mais do que artístico. Aquele que experimenta o faz para descobrir algo, não para produzir um resultado predeterminado; porém, ao mesmo tempo, não o faz sem estipular cuidadosamente as condições do experimento, levando em conta aquilo que este exige ou pode envolver, dividindo-o em etapas progres­sivas, buscando antecipar possíveis impasses e revisando seus caminhos, ou mesmo os critérios segundo os quais julgá-lo 47 Mesmo que nada disso esteja imune às transforma­ções que a própria intervenção acarreta, e tampouco se deva ter muito apego a qualquer plano ou projeto, isto significa que experimentar de verdade não é fazer qualquer coisa, e cer­tamente não é uma desculpa para o diletantismo (que supõe, justamente, que a identidade daquele que experimenta não se transforma com a experimentação). A política deve ser “ex­perimental” no sentido de “um ato cujo resultado é desconhe­cido”,48 e não no sentido de estar “sempre experimentando, nunca descobrindo nada, sempre examinando, mas nunca vendo – sempre mudando, sempre permanecendo igual”

http://www.revistaserrote.com.br/2016/11/anonimo-vanguarda-imperceptivel-por-rodrigo-nunes/#

Pollyana Quintella <quintellapollyana@gmail.com>7 de dezembro de 2016 12:54
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

4. Também a abertura exige algum grau de estruturação. Pa­rafraseando aquilo que Deleuze e Guattari dizem da música con­temporânea, há sempre um risco de que, enquanto se crê estar abrindo a política “a todos os eventos, todas as irrupções, [ … ] o que se está reproduzindo no fim é uma confusão que impede qualquer evento de acontecer”.50 Pior ainda: nada garante que, diante de coisas deixadas inteiramente em aberto (para que se faça “aquilo que vem naturalmente”), não se acabe reproduzindo padrões de comportamentos entranhados altamente problemá­ticos.51 Por exemplo: uma reunião sem qualquer estrutura pode facilmente acabar sendo controlada por algumas pessoas com mais experiência, ou não conduzir a nada além de frustração; ela não é necessariamente mais aberta que uma reunião bem estru­turada. A solução está sempre em tentar manter um máximo de tensão: suficiente estrutura para que as coisas funcionem (tanto quanto a tarefa exigir), mas sem sufocar a transversalidade das relações e a possibilidade do imprevisível. Trata-se de garantir o contexto para que todos possam “tocar o que não está lá”

 

sem título (série Goeldi)

2016

nanquim sobre papel

21 x 29,7 cm.

 

Os desenhos da série Goeldi foram realizados durante meu período de trabalho monitorando as galerias do Museu de Arte do Rio, e foram dados somente para pessoas que trabalham ou já trabalharam lá.

“Tudo é ordenado de tal forma que só o público apareça como fato relevante, ficando completamente separado da rede à qual se articula como acontecimento humano e cotidiano. O privado está por definição condenado ao esquecimento e ao anonimato.”

Luis Carlos Restrepo, O direito à ternura.