Notas sobre um memorial.diário

– Tal memorial.diário foi escrito entre o dia seis de abril de dois mil e dezesseis e o dia doze de junho de dois mil e dezesseis;

– Apesar de ter sido feito com tinta de uma caneta sobre algumas folhas de papel almaço, sua forma final não é de matéria palpável; é .pdf, e foi direcionado a alguns e-mails de visitantes, funcionários (e ex-funcionárias) do Museu de Arte do Rio, amigos e amigas com quem tive contato durante esses três meses;

– Sobre esses três meses (e sobre mim): residi na instalação que José Miguel Casanova criou para ser a agência do Banco dos Irreais no Museu de Arte do Rio e fui seu gerente, o que o apresentava e o esclarecia ao público. A instalação existiu do dia quinze de março de dois mil e dezesseis ao dia doze de junho de dois mil e dezesseis (meu nome é Jandir);

– Já havia feito um memorial.diário antes, o que justifica que utilize artigo indefinido para anteceder este nome no título que apresenta estas notas;

– O memorial.diário antigo foi realizado para documentar o período de quatro meses em que tentei viver de forma experimental os usos possíveis do meu perfil no site facebook.com;

– Atualmente, não mais uso o site facebook.com;

– O memorial.diário recente, do Banco dos Irreais, foi, a princípio, criado para ser um caderno de anotações dos depoimentos de visitantes a respeito deste projeto de José Miguel Casanova, coisa que não conseguiu ser plenamente;

– O memorial.diário recente, do Banco dos Irreais, tratou sobre quem trabalha durante horas nas galerias deste museu que me sediou, disponíveis ao público – assim como fiquei – ou responsáveis pela segurança do patrimônio Museu de Arte do Rio;

– O memorial.diário recente, do Banco dos Irreais, tratou de minhas inconstâncias entre o binômio ócio e trabalho durante meu período de estadia na agência; sobre como, por vezes, não sabia se era a própria instalação de José Miguel Casanova que borrava as fronteiras entre esses conceitos que poderiam me submeter ou se eu mesmo era quem fazia isto;

– O memorial.diário recente, do Banco dos Irreais, foi espaço para críticas, anônimas e assinadas, às instâncias tais como o capitalismo, o tempo, o público médio, os funcionários – próximos ou hierarquicamente superiores – o próprio Museu de Arte do Rio e o próprio Banco dos Irreais;

– Nota importante: o memorial.diário recente, do Banco dos Irreais, não foi escrito somente por mim, mas também por funcionário(a)s e visitantes que tomaram contato com ele a partir desta agência;

– O memorial.diário recente, do Banco dos Irreais, ainda reuniu impressões sobre a estrutura física da agência – uma instalação simulando uma praia, com uma metade de ampulheta içada acima dela, que funcionava como um dispositivo relacional: a partir do ingresso no Banco dos Irreais, o ou a nova correntista-banqueira era convidada a jogar a areia, que residia até então no chão da praia, em um buraco na parte de cima da semi-ampulheta pendurada, fazendo-a escoar novamente à instalação – e de suas mudanças ao longo dos meses;

– Hoje é dia vinte e um de junho de dois mil e dezesseis;

– Olho para o lado e percebo que a pergunta “Como viver no capitalismo sem dinheiro?” – que era vista logo na entrada da instalação de José Miguel Casanova no Museu de Arte do Rio – foi escrita por mim em um espaço próximo da parede do meu quarto;

– Desde cedo, pensava em outra pergunta que me assola há alguns anos: Como não mudar o mundo?;

– (Não vejo imbricação entre todas as coisas que escrevi por aqui);

– Carrego a pergunta de José Miguel Casanova comigo. Quero saber como viver sem dinheiro no capitalismo. E sei que, se carrego esta pergunta, é porque o método utilizado até então para responde-la é pergunta-la ao maior número de pessoas possíveis. Ninguém possuirá a resposta, mas, a partir do momento de enunciação da questão, quem a ouve já a carregará consigo, assim como eu;

– Sim, as notas falaram sobre um arquivo de texto que não está aqui presente. Assim como o banco do qual sou gerente existe por ir contra ao coercitivo e o aparentemente invencível capitalismo, o memorial.diário recente, o do Banco dos Irreais, existe por ir em embate às estruturas de trabalho, suas jornadas extenuantes e tudo o que de capitalista subjaz de modo silente nossas relações mas, sobremaneira, existe por ir contra à ânsia da informação, cara ao estágio da economia em que vivemos globalmente, e à ampla visibilidade, cara aos produtos artísticos relacionados à instâncias como grandes museus, que este memorial.diário poderia ser, mesmo enquanto documentação sobre o Banco dos Irreais no Museu de Arte do Rio, caso tivesse se proposto a isso. Mas este não é o caso;

– Ainda não sei porque escrevi a pergunta “Como não mudar o mundo?” notas acima desta última nota. Por não saber a reposta, procedo como José Miguel Casanova, espalhando o “Como viver no capitalismo sem dinheiro?” para outras pessoas. Sou menos propositivo: “Como não mudar o mundo?” não gerou algo como “Como viver no capitalismo sem dinheiro?” gerou o Banco dos Irreais. Mas aprendi na agência do banco que a indagação sobre viver sem dinheiro no capitalismo só pode ser respondida coletivamente. Deixo em aberto: talvez não possa responder mais nada. Convoco uma fala uníssona, unívoca ou uma gagueira mundial. De qualquer forma, acho que perguntamos coisas que só um sem-número de pessoas juntas poderia responder porque não escutamos ainda essa voz sonora e firme e, creio eu, bela, que é a voz de todos nós, uma voz nossa. Ainda não. Ainda não… ainda escuto poucos. E eles falam por mim, trocam minhas letras por números… não localizo minha ideia. E condeno nossa voz por pensar que a voz deles é essa voz…  nossa, o espanto seria bem-vindo.

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Perdoar é importante. Fundamental para que eu consiga seguir botando meus pés nesse chão, sem almejar outro. Perdoar o mundo para, então, amá-lo.

Escrever pode ser, ou é, a necessidade de tocar a realidade que é a única segurança de nosso estar no mundo – o existir. Iberê Camargo escreveu isso num texto seu chamado Gaveta dos guardados. Sempre me tocou, do dia em que li esta frase até então, que ela tenha sido feita por um homem que foi notório por trabalhar com óleo e tela, não com letras. Me vi na frase à época, pois entendi que a escrita era o que permanecia a me comprovar minha existência sensível. Quando desanimei com o modelo de exposições nas artes visuais, ou quando duvidei do que fazia, quando estive preguiçoso deitado a pensar em que merda significa buscar viver norteado pela sensibilidade – algo não somente producente ao capitalismo, mas contra ele – que encontrei no produzido em artes visuais, a escrita era o lugar em que permanecia; não precisava de mais do que o alfabeto para sinalizar a mim mesmo e a quem desejasse me ler que eu existia ainda, que resistia aos critérios que discriminam dentro e fora e seguia a afirmar que estava em arte.

Dizer estar em arte, em parte, é aceitar o inegável: que estudei arte. Passei alguns seis anos entre instituições, entendendo este front do viver ambiguamente, que aprendi próximo aos que produzem na chamada arte contemporânea. Arte me é inescapável. Possuo algum capital cultural, o que faria uma tentativa de fugir do artístico para uma pretensa vida pura uma bobagem (vide certas apropriações da dicotomia arte-vida brasileira dos anos 50, 60). Contudo, estar em arte também diz respeito à vida que busca mais correspondências ao sensível que encontramos historicamente na égide arte que na pragmática da organização social corriqueira, macro ou micro política.

Por isso, comecei a crer que poderia escapar ao circuito tradicional artístico que me formou. Me alimentei da crença que me preparava durante este período de formação em artes não para me tornar um artista profissional, mas para ser um ser humano problema, um ponto crítico à sociabilidade com o meu próprio corpo humano; móvel, algo autônomo, ora capturado pelas zonas de interesse social, ora me rebelando e fugindo disso, impondo problemas tais que era expulso de certo corpo social como um corpo estranho que acabara de entrar no organismo. Como na adolescência escutei prioritariamente músicas produzidas independentes às gravadoras e circuitos mainstream e li alguns textos bem pueris sobre anarquismos individualistas – mas que depois me instigaram, e instigam ainda, uma certa fome por conhecimento do libertário e da autonomia popular -, quis, desde o princípio de meus estudos, descobrir formas de circular artes visuais de forma independente ao institucional e ao fomento público, corporativo e privado que determina nosso acesso e articulação enquanto cena. Mas nunca me contentei com o que era chamado de cena independente nas artes visuais. Seja por que reproduziam modos de existir tais como processos seletivos, relações cordiais com o institucional, dependências financeiras para com o privado e público, crença sólida em critérios que, ainda de modo não percebido, correspondem ao que segrega por classe, gênero, lugar, raça, o que determina a inexistência de produtores outros na cena etc., seja por, noutro polo, se negarem ao posicionamento político e ao critério, gerando desbunde em plataformas abertas que pouco criaram lastro coletivo aos artistas que participaram dela, e por se comprometerem menos com a criação e o fortalecimento de pequenos e populares grupos artísticos articulados que com seus próprios fortalecimentos enquanto referenciais únicos, acabei necessitado por gerar uma resposta a mim – na falta de identificação com as cenas independentes na arte – sobre como existir em arte alheio a tudo isso, institucional ou independente. Daí essa perspectiva sobre mim mesmo como meu lugar de atuação, sobre estar e me dedicar à ação em meu corpo e o que me circunda e me faz em curto raio de distância, sem o auxílio de amplificadores.

Isso implicou no que chamei de endereçamento estrito. Desejar realizar dessa maneira implicava que eu abandonasse a pretensão ao público – endereçamento difuso – e me dedicasse a construir a visibilidade como parte do meu trabalho visual, o que não desejei realizar para um sem-número de pessoas, que acessariam minha realização sem possibilidade de réplica, de invasão aos meus próprios olhos, de articulação comigo mesmo, em suma. Daí, quis endereçar estritamente, saber pra quem faço, desejante assim de relações mais diretas, colaborações não convocadas por mim, diluições de minha venenosa vontade de autoria e de mais-valia simbólica e artística, diferente da constituição de público – geral ou específico, como num site-specific -, em que não há indivíduos, nem grupos sociais profundamente e a longo prazo conhecidos e próximos, mas só há, no máximo e no melhor dos casos, preocupação em tornar acessível para muitos (já não mais uma só população, mas ainda muitos para sabermos quem são pelo nome de cada um) o que foi feito por poucos.

A princípio, percebi minha escrita de artista publicizada como uma parceira à vontade do endereçar estritamente. Já que não a reconhecia como minha produção artística, ela poderia ser um modo de, sem dar a ver o que então faria para pessoas específicas, divulgar ao público o produzir desta maneira endereçada, e não de outra ansiosa por gente desconhecida. E via que escrever sobre o que se faz era acessar um outro lugar, mais amplo, onde tanto os trabalhos realizados quanto as dúvidas que surgiram em seu processo de desenvolvimento, as desistências, o ócio em seus intervalos de concepção e demais situações periferizadas pelo que o artista determina como obra final se tornavam um só. Assim, na escrita, o artista coloca em xeque sua própria identidade, critério e produção. Mas, para escrever – e, nisso, falar mais do que ambicionavam dizer -, os que trabalham plasticamente algumas matérias no mundo, no uso das letras, em prosa, via de regra, não utilizaram da ficção. É então uma escrita em primeira pessoa e biográfica que reconhecemos como a produção textual de tantos artistas, pois, livres de tarefas historiográficas ou de busca por qualidade literária, ainda assim estavam comprometidos a escrutinar, no mínimo que fosse, a si mesmos no que fizeram ou planejaram fazer.

Ao mesmo tempo, relembro Iberê, pois pela escrita provamos a nós mesmos nossa existência. E foi por relembrar de Iberê também há algum tempo que tive medo de permanecer escrevendo quando me determinei realizar artisticamente em endereçamento estrito. Já que pública, através deste processofólio, minha escrita, ainda assim, talvez fosse obra, talvez fosse criação artística, quem sabe estivesse prenhe de intencionalidade formal, de minhas investigações no campo das outras materialidades que encontrei pelo mundo, ou ainda mais: escrever seria a forma de comprovar a mim que ainda era artista; por não acreditar no meu endereçar estrito, por ter medo de não ser visto pelo público, por não querer desenvolver minha identidade como artista somente com a meia dúzia de pessoas que francamente conseguiria interlocução neste programa anti-público, escreveria, tal qual o Iberê Camargo frasista, para tocar a realidade do meu existir. E, dito isso, foi por crer que mentia para mim mesmo ao dizer que minha escrita era completamente oposta a vontade de me tornar público ou tornar público meu trabalho que ambicionei interromper completamente todo investimento público que poderia realizar para existir, abandonando, por fim, este meu processofólio.

Só que creio ter negligenciado a gravidade dessa cisão. E, neste momento, sinto desejo. Dá vontade não só de escrever, mas também de participar dos editais, de ambicionar vender coisas, de ser bajulado, admirado à distância por quem eu não conheça, de ter como facilmente agradar minha família ao dizer que tem pessoas por aí valorizando com dinheiro e reconhecimento as coisas que faço e que quase nunca mostrei para eles, parentes. Deu vontade de ter forças suficientes para escrever num SMS Perdoo, mas nao quero ter mais nada com vc. Apesar de o desejar profundamente, preciso estar e produzir o q faço de mais sensível longe de vc, como num término dum relacionamento. o q é isso q nao terminar um relacionamento, afinal. O fim é dramático e eu insistia em o tratar como algo corriqueiro. N é assim. Por isso, retorno aq, para evidenciar minha vontade minha dor, meu perdão e te dizer, aquém disso tudo, q n desejo reatar. Talvez a gnt se encontre em segredo – se é q é possível -, n mais q isso, já q reafirmo meu compromisso com todos e todas q não são vc; muitos, eu diria.e, Por serem tantos, não te comportam; Vc n faz parte desta nem de nenhuma poligamia. Um beijo com desejo e parcimônia em vc, público. Daquele q ja foi seu, jandir jr. Mas isso seria mentira. Não é tão fácil assim. Não é justo que eu encene que esteja tudo bem, sisudo, frio como a liga na escultura de aço inox ou mínimo como a instrução em certo trabalho conceitual.

Talvez o que caiba é perdoar. Buscar, um a um, os que me machucaram e machucaram aos meus e os perdoar. Perdoar o racismo, a periferização, perdoar minha falta de grana, perdoar se por acaso senti fome e cansaço alguma vez para conseguir estudar percorrendo longas distâncias com pouco tempo, perdoar o tempo correndo mais rápido para mim, perdoar as desigualdades sociais, o classismo, meu ódio de classe, perdoar a misoginia que me favoreceu por vezes – se me é possível -, perdoar o circuito artístico, o mercado, os professores que foram negligentes ou de posição inocente para com a estratificação socioeconômica de seu alunado, perdoar o capitalismo, perdoar a comoditização dessas coisas maravilhosas, perdoar o mundo todo, talvez. Perdoar até mesmo a porra dos escravizadores contemporâneos, que não tem nada a ver com o texto até então, mas sinto que é só com um perdão absurdo e gigantesco como esse que poderia, então, amar. E só dá pra seguir com isso, com essa vida desapegada e resistente que gostaria de levar com o que mais gosto de fazer, no trabalhar endereçando em estrito em que gostaria de me satisfazer, com os pés no presente e nada mais comigo, com pobreza financeira e sobriedade na minha circulação social, se for amando. Só dá pra produzir em dádiva num mundo permutador amando. Só amar muito seria suficiente para olhar para isso tudo sem desejar possuir, dominar ou destruir, se mantendo alheio, acreditando que minha própria existência também se situa além do sistema econômico e social que subjaz meu corpo. Mas eu ainda não amo assim. Não, eu não consigo perdoar. Mas estou tentando, porque não vejo outra forma de resolver isso, apesar de parecer difícil, quase impossível.

De pensar em perdoar, lembrei das pessoas para quem devo pedir perdão e não o fiz. Não diria aqui quem são, pois creio que pedidos de perdão devem ir para seus destinatários e para mais ninguém; endereçamento estrito, não difuso, afinal. Mas me recordo de uma pessoa que já não sei se vive ou morre, ou se permanece com a mesma face que adotava quando a conheci. Cogitaria, por isso, pedir perdão para ela aqui, já que não sei se existe ainda, fisicamente ou como a vi. E percebo: talvez tornemos certas coisas públicas para que sejam como cartas que são enviadas para entidades sem carne, habitantes do passado, fantasmas não humanos, pessoas mortas, recém desconhecidas.

Escrever publicamente talvez seja provar nosso existir para esse tipo de existência a qual não podemos endereçar estritamente, já que nunca conheceremos seu endereço. Para viver próximo ao que se faz em distância; talvez escrever publicamente seja ser um vizinho absurdo, até então impossível. Imagino a ânsia por escrever para ser não só a si mesmo, mas para ser às coisas que parecem não existir até as vermos emergirem em nossas próprias justaposições com o alfabeto. Ou, quem sabe, escrever publicamente sirva para eu tocar a existência do meu endereçar estrito, tão imaterial quanto os que já não sabemos se existem ou não. Talvez eu escreva à vista de todos para me avizinhar dos que não conhecerei ou do que ainda duvido que exista em mim. E talvez aí você possa me ver em momento de escrita, público. Talvez, pois tendo a acreditar que o endereçamento estrito é minha única chance; sem facebook para me criar em timelines alheias, sem querer curadores para me proteger entre quatro paredes brancas ou em parágrafos, sem o ímpeto pessoal de atingir quem não lembrarei ou saberei pelo primeiro nome.

Confesso, ainda assim, que concebi endereçar estrito oscilando entre a vontade que aqui anunciei dum autoexílio e a incapacidade de estar no campo artístico, por falta de profissionalismo meu, ou algo assim. Creio, com isso, que há um lado medíocre no que disse até então e que talvez eu tenha enfeitado um pouco a coisa toda que escrevi para não lidar com este lado. E é possível que eu tenha falado de perdão por estar sob efeito de uma relação indireta deste com o desejo; talvez pedir perdão seja ambicionar ser desejado, e, perdoar, desejar. Quem sabe? Acho que sou eu que vejo a coisa assim. Não há como comprovar isso para além da minha acepção pessoal. Quem quiser crer no que creio aqui, terá que ter fé no que digo. Apenas isso.

O Cassio me mostrou uma vez David Bohm falando, por sua vez, estou sugerindo que nos enfoquemos no aprendizado. Não sabemos ainda o que fazer com isso. Temos de nos interessar pelo aprendizado por si só, pois, se for por qualquer outro motivo, isso acabará por entrar no condicionamento. Dizia ele para apenas observarmos nosso pensamento, viciado como é; não há ainda escapatória para pensarmos de maneira nova. Temos que aprender em contemplação.

Nisso, pretendo ainda observar o resselvagizar do meu pensamento, para desejar de modo tão instantâneo que ele, o desejo, só exista a mim no momento em que, sem nunca lhe ter desejado antes, o conseguir realizar quase que por acidente. E, no mais, eu prefiro ir dizendo que continuo vivo por aqui, em arte, escrevendo com o mesmo alfabeto em que On Kawara disse I am still alive, neste nosso alfabeto em que ele, eu e você, público, conjugamo-nos inescapavelmente na primeira pessoa do plural.

Oi,

Quero dar uma guinada em direção a endereçar estritamente minha pratica artística. Para isso, vou encerrar todos os trabalhos que desenvolvo publicamente (abertos a qualquer pessoa), dos quais esse processofólio faz parte. Caso não consiga, eu volto pra cá. Mas, em todo caso, meu e-mail é mailexpressivo@gmail.com. Este é um dos meus canais de documentação, reflexão, expressão, comunicação que permanecerão, já que restrito e privado.

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“Hoje, 08/10/2015, há mais de um ano sem usar outros calçados que não chinelos, tive que voltar a calçar um de meus antigos tênis para voltar a trabalhar. Ao observá-lo, pude relembrar que todos esses tênis que não calçava até então conservavam em sua superfície espessas camadas de poeira, acumuladas neste ínterim de ociosidade. Decidi, visto isso, calçar meu tênis tal qual o encontrei, empoeirado. E calçarei todos esses tênis empoeirados, já que retorno a usá-los por conta do trabalhar.”

Excerto do meu Portifólio (1989-2015)

Shall we talk about art?

Rio de Janeiro, 2016.

videomaker: Michel Schettert

performer: Jandir Jr.

“To numa agora de seguir uma guinada à independência com relação aos meios de exposição e circuito. Não sei se tenho fôlego pra isso ou se quero realmente essa parada, mas a todo momento me assalta a ideia de que realmente meu interesse – passional – por arte é extensivo ao meu interesse anticapitalista. Dai estar difícil me imaginar me profissionalizando nisso… Me parece q arte p mim temsido um meio de sumir com elegância.”

Excerto de um e-mail que enviei há um tempinho.

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>                    10 de maio de 2016 06:46
Para: Renato Gadioli <renato.gadioli@gmail.com>

Oi, Renato,

cara, um grupo do qual participo está organizando uma exposição para acontecer neste sábado, dia 14, no Juscelino Kubitschek, escola onde você estudou, onde você me levou na caminhada mais perrengue da minha vida e onde está atualmente ocupado por em torno de 30 estudantes (nesse movimento de ocupações de escolas pelo Rio de Janeiro).

Queria te fazer um convite: que você escrevesse uma carta para esses estudantes e para a JK, contando sua história e falando o que você gostaria de falar para este grupo e para as paredes da escola que te abrigou. Daí esse texto ficaria lá, a partir dessa exposição. Pensei em ti porque me convidam a participar desse ato, mesmo que distante (estarei trabalhando no dia) e você, como extensão do que sou – minha influência na vida – me parece uma voz muito mais necessária de se fazer presente por lá do que a minha. Bem, mas a decisão final é sua. Ficaria feliz com sua presença, mas você teria pouco tempo para escrever essa carta, até sexta-feira, no máximo.

O que acha?
Abração.
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Renato Gadioli <renato.gadioli@gmail.com>           12 de maio de 2016 18:55
Para:  Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>

Olá guerreiros! Meu nome é Renato Gadioli, e um dia estive aí (para ser exato há uns 15 anos) onde vocês estão agora. Bom, não fui como vocês aí dentro, na verdade, posso me enquadrar melhor como um ‘covarde’ na época. Ao terminar o meu primeiro grau (hoje em dia ensino fundamental), tinha um sonho que estava prestes a ser realizado: seguir alguma carreira na área médica. Passei na concorrida prova para o curso de patologia clínica no até então desconhecido para mim Juscelino Kubitschek, e segui em frente nessa aventura. Um menino pobre, morador da Vila da Penha que até tinha um potencial escolar, mas que encontrou aí, na sua escola, grandes dificuldades de um mundo novo. Mas o que chamei de covardia foi um acerto na minha vida, pois descobri que não havia nascido para a área médica, com isso, desisti do curso e do ensino de qualidade que me era oferecido. A partir da minha covardia, parti para o mercado de trabalho e, somente após dez anos, conclui meu Ensino Médio e entrei para a Universidade para fazer o que descobri ser meu sonho: a docência. Hoje estou no sexto período de licenciatura em Geografia e me sinto feliz pelas escolhas que fiz. Se um dia não houvesse me enganado a respeito do meu sonho, se não tivesse desistido e se não me afastasse da escola por tantos anos, bem, não estaria feliz como hoje estou. E a razão de estar contando essa parte da minha para vocês? Porque acredito em um futuro onde os alunos não sejam covardes como fui, pois acredito em um futuro onde guerreiros lutam por seus ideais, como hoje sou, e como vocês já são (levei uma década para ter o engajamento que vocês já possuem), e isso me faz acreditar na função do professor, formador de cidadãos que lutam por seus ideais. Me vejo satisfeito em ver um movimento como o de vocês que se espalha pelo Estado, que aterroriza os que não dão a mínima para o futuro de vocês, que não se preocupam com o presente dos seus professores… Continuem firmes nesta luta e sigam em frente!

“Oi, ZoNa,

Gostaria de comunicar que não estarei mais presente durante a residência, nem durante a exposição aberta ao público. Ao escrever minha chamada aos artistas na parede do galpão e participar da reunião com vocês, me dei conta, aos poucos, que não deveria estar presente no És Uma Maluca enquanto espaço expositivo que me proponho, mas sim estar em qualquer outro lugar que não aí; expandir a possibilidade de atuação para além muros, ampliar o debate que está acontecendo por aí para os outros setores da minha vida. Sim, isso é uma deliberação exclusiva minha, porque, enquanto espaço expositivo aberto a propostas, tenho interesses a defender. E o mais premente deles, neste momento, é o de afirmar nossos corpos, periferidades, fragilidades e psiques como lugares de realização artística tão potenciais quanto qualquer espaço de exposições – experimental, como o És, ou não -. Por isso, me coloco aqui como espaço autônomo e alternativo ao ZoNa.

Logo, estou aberto ao diálogo. Meu e-mail está escrito na parede. E, se disse que pretendo mais negar as propostas que receber do que as acolher irrestritamente quando estive com vocês, é para ratificar o diálogo – isto é, o ato de investigarmo-nos em nossa completude – como o produto que privilegio, em detrimento de ser como uma tela em branco a ser preenchida. Não sou um meio expressivo neutro, nem uma galeria cubo branco. Espero que eu, problemático como me apresento, ainda assim seja de interesse.

Um grande abraço, desculpem não ter manifestado o conteúdo desta carta em reunião (só pude desenvolver esta fala a partir de nosso encontro) e obrigado pela convivência,

– hoje, 9/5/2016, eu penso que faço arte como um modo de viver a espiritualidade e de produzi-la. como ateu, busco uma maneira de viver o mundo pela mística e isso se dá através de um duplo movimento, entre a imanencia das coisas e a transcedencia que se dá na transpiração delas, já que não posso mais conviver com uma espiritualidade teísta ou dentro de preceitos espirituais distantes de meus habitos sociais ocidentais-suburbanos. dái a arte me tem sido um modo de chegar nisso. fiz uns anos de graduação em artes, uns anos de cursos de arte livres, e agora tenho vontad de mastigar isso tudo que aprendi. enegrecer a branquitude da episteme-epiderme arte. deturpar o meu procedimento muitas vezes conceitual – informado pelo conceitualismo norteamericano e pelo conceitualismo gauche brasileiro – com a falta de palavras da experiência espiritual… mas tenho um longo caminho pela frente, porque pensei nisso hoje. antes eu nem sabia que fazia arte pra me espiritualizar… mas talvez eu esteja errado.