Podemos muito bem imaginar sistemas de mídia e de difusão que não pertençam a esse sistema piramidal. Isso não me parece absolutamente utópico pois, afinal de contas, durante milênios a difusão dos mitos, dos contos, etc., não passou nem pela Globo, nem pelos dois ou três críticos que fazem a lei no mercado. E essas produções não deixaram por isso de encontrar seu campo máximo de difusão.

[…]

É preciso compreender bem o seguinte: quando nós, que nos recusamos a nos submeter a esses parâmetros, dizemos que não queremos fazer rádios profissionais, isso não significa que queremos ser amadores ou produzir coisas medíocres, mas apenas que não queremos nos tornar profissionais da nossa prática – o que não impede que estejamos afins de nos consagrar inteiramente a isso.

Publicado originalmente em Micropolítica: Cartografias do Desejo. p. 113-115. Organização Suely Rolnik, 1986. Editora Vozes, Petrópolis.

https://revistausina.com/2017/01/29/por-uma-midia-menor-felix-guattari/

 

Por uma mídia menor

Félix Guattari

 

Seria importante tentar ampliar a noção habitual de mídia. A noção de mídia, enquanto exposição de produtos, como numa espécie de supermercado, é algo que determina não só as formas de consumo da literatura, da arte, etc., mas também modeliza as formas de produção artística e literária.

Consideremos Kafka, por exemplo. É muito claro que Kafka nunca terminou uma obra, a não ser talvez, no máximo, uns dois contos. Ele tinha um certo ideal de forma literária, aliás bastante clássico, mas quando planejava um romance, era em Dickens e Kleist que pensava. Até seus romances mais trabalhados ficaram inacabados. É notável o fato de que, quando se considera a obra de Kafka em seu conjunto, vê-se até que ponto os mesmos elementos de criação permeiam tanto seus esboços de romance e de contos, quanto seu diário e sua correspondência. E o todo está sempre marcado por uma espécie de vontade latente de destruição. O que se complementa pelo fato de que, efetivamente, ele nunca terminou nada.

Algumas semanas antes da sua morte, ele continuava a recomendar às pessoas próximas, àquelas que conheciam seus manuscritos, que destruíssem tudo, mesmo sabendo que, provavelmente, elas não o fariam. Pode-se imaginar que, com esse desejo de não acabamento de expressão, o que ele visava eram as formas identificáveis de criação. Há uma frase no diário, pelo que me lembro, que expressa uma espécie de iluminação presente em toda a criação de Kafka, algo assim: “a gente pode escrever tudo”. E acho que o que interessava realmente a Kafka era isto: a gente pode sempre escrever tudo o que acontece em nossa existência. E quando ele conseguia demonstrar para si próprio que poderia captar, em um enunciado, algo que de início não lhe parecia semiotizável, nesse momento a obra caía, literalmente, de suas mãos. Ele já tinha atingido seu objetivo, e a ideia de ir além disso, de acabar um romance ou um conto, não lhe interessava absolutamente. Isso é um paradoxo do ponto de vista do mercado da mídia num sentido amplo.

É esse tipo de obra fragmentária (e quando se pensa em fragmento, imediatamente pensa-se em Nietzsche) que eu e Deleuze chamamos de “menor”. É exatamente esse tipo de obra que rompe com as grandes identidades literárias, que teve uma grande expansão na mídia, talvez muito maior do que todas as grandes obras constituídas, fechadas e amarradas em torno de si mesmas.

Tenho a impressão de que em todos os grandes autores poderíamos encontrar pontos de fuga da identidade literária. Joyce provoca a impressão de que há uma espécie de ponto de fuga no final da sua obra. Finnegans Wake, por exemplo, está de certo modo numa espécie de linha de fuga em direção a uma produção quase que a-significante – ou, pelo menos, nesta obra, Joyce tenta recompor uma linguagem que não é falada por pessoa alguma, que potencialmente poderia ser escutada pelo conjunto do planeta.

Em outras palavras, esse atributo “menor” para qualificar determinado tipo de expressão de caráter local, essa noção de “expressão menor” no campo da produção literária, não é forçosamente sinônimo de um degrau numa suposta hierarquia de tipos de expressão, numa espécie de divisão de trabalho literário. Hierarquia que permitiria dizer coisas como: “se você quer escrever só para você mesmo, ou para sua vizinha, muito bem, mas outros, escalando degraus superiores, vão poder chegar a grande literatura, e vão poder se impor nos grandes mercados da mídia”. Na verdade, o que se passa é o contrario: é exatamente a produção de uma pessoa que não escreve para alguém, nem mesmo para si própria, e que até, em alguns casos, vive seu processo de escrita como algo de estranho a seu ego, como uma espécie de intrusão produtiva, como um processo que pode ser ameaçador para seu sistema de representação de mundo – é exatamente essa produção singular e menor, esse ponto singular de criatividade – que terá um alcance máximo na produção de mutação da sensibilidade, em todos esses diferentes campos que chamei de revolução molecular.

Os sistemas de difusão de produção literária, artística, etc., são sempre concebidos como pertencendo ao domínio de uma pirâmide de controle e de seleção, que se encarna no fato de que há sempre um professor para corrigir as copias, um crítico para selecionar textos, um editor e assim por diante. Esse modo de difusão é muito segregativo do ponto de vista das produções selecionadas. Podemos muito bem imaginar sistemas de mídia e de difusão que não pertençam a esse sistema piramidal. Isso não me parece absolutamente utópico pois, afinal de contas, durante milênios a difusão dos mitos, dos contos, etc., não passou nem pela Globo, nem pelos dois ou três críticos que fazem a lei no mercado. E essas produções não deixaram por isso de encontrar seu campo máximo de difusão.

A mesma problemática se coloca em relação à imprensa alternativa e às rádios livres. O movimento das rádios livres na França sofreu os efeitos das intervenções do poder de Estado, a partir do momento em que ele parou de reprimi-lo. O Estado socialista na França disse: “muito bem, agora vocês vão fazer rádios livres numa boa, mas todas as rádios livres vão se submeter a um estatuto. Vamos subvencioná-las, mas para isso é preciso que elas tenham um mínimo de audiência, de qualidade e de utilidade social”. Com isso, noventa por cento das rádios livres francesas, caindo na tentação, se precipitaram num funil, com exceção de algumas poucas rádios (vinte ou trinta em toda a França, inclusive a Radio Tomate). Essas disseram: o que estamos afim não é de fazer grandes rádios livres, mas de fazer nossas rádios livres. O que estamos afim não é de difundir com meios sofisticados, nem de ampliar nosso alcance, mas simplesmente de que parem de encher nosso saco em nossa frequência de onda. Também não estamos preocupados nem com reconhecimento nem com eventuais julgamentos de valor; estamos pouco ligando para o índice de audiência, pois quem quiser que nos escute; se não basta virar o botão. Queremos ser os únicos a garantir aquilo que nos agrada, aquilo que é a nossa produção, sem nos referirmos aos novos tipos de julgamento da mídia que se instauraram há mais ou menos um ano”. Aí, a reação a essa atitude consiste em dizer coisas do tipo: “esse pessoal de radio livre tá pirado”. É preciso compreender bem o seguinte: quando nós, que nos recusamos a nos submeter a esses parâmetros, dizemos que não queremos fazer rádios profissionais, isso não significa que queremos ser amadores ou produzir coisas medíocres, mas apenas que não queremos nos tornar profissionais da nossa prática – o que não impede que estejamos afins de nos consagrar inteiramente a isso.

Voltando a Kafka: ele nunca se tornou um profissional do kafkismo. Depois é que apareceram muitos profissionais do kafkismo, pelas universidades e por toda parte…

 

necessário dizer – a mim mesmo também – que reconheço agora, com um tanto mais de sobriedade e calma, construir com este processofólio menos um trabalho em arte que uma tese em arte.

[Jandir] Tenho pensado em algo como arte sem trabalho, mas sob outra perspectiva: do escrito de artista, esse texto que dá a ver não só certa documentação do feito artístico, mas o que antecede sua feitura, os estados de espírito do artista, suas vacilações, suas projeções sobre o que aquilo irá ser ou quem irá impactar, o que mudou e o que se manteve do projeto primeiro etc.
[Pollyana] Hoje falamos sobre o gesto eficiente em arte, e fiquei pensando no seu interesse pela escrita do artista. Acho que você está buscando evitar o gesto eficiente, talvez. Fazer arte na persistência de um não objeto. Eficiência do gesto não eficiente. Também lembrei que o Hans Ulrich Obrist gosta de perguntar aos artistas quais são seus projetos não realizados, e seu desafio é realizá-los. Mas agora acho que isso resolve demais as coisas, que alguns projetos guardam potência exatamente porque ficam quietinhos lá nas gavetas-cabeças. Não é isso parte da história da arte brasileira?
[J] Eu sigo acreditando que os projetos não realizados e os artistas que existem fora da vista do circuitão são todos fundamentais. Afinal, é assim que a maior parte da produção artística está: não realizada ou não vista de modo amplo. Lembrar disso é lembrar de tudo que não vimos do que foi produzido por gente de pele preta, por exemplo. Aliás, tava hoje fazendo uma visita com um grupo escolar do município, e conversando sobre coisas que eles queriam falar quando estavam em frente a uma pintura. Realmente fico feliz de poder conversar sobre arte com pessoas que pegam ônibus para a Zona Norte, que tem uma vivência corporal outra a da postura comedida do visitante médio do museu, que estudam numa escola pública, que são episteme negra. Pareceu que conversar sobre arte com eles era subverter a instrumentalização clara e o lugar de gênese daqueles objetos artísticos, frutos de uma experiência social de gente rica, erudita.
[P] Eu também sinto falta de conversar sobre arte com gente que tem esse outro corpo. É curioso, mas acho que a gente vai ficando menos exigente na medida que conversa com mais gente do meio. Se a arte é uma linguagem, como alemão, afeto e tupi, só falar de arte com gente de arte é como deixar de se espantar com a língua, não reconhecer o absurdo de uma nova palavra que te joga no abismo dos sentidos, nesse exercício de entrar e sair da língua. É como ver certos trabalhos um pouco anestesiada pelo circuito. Ou, como no português, não estranhar mais ARANHA, CAMUNDONGO, PEIXE FRITO, ARROZ DOCE. Deve ser saudável evitar a constância. Circular.
[J] Pô, mas que lindo isso que você diz sobre a linguagem, de entrar e sair dela ao conversar com outros grupos sobre arte. Penso no que você disse no outro e-mail sobre a matéria estar disponível para a produção de sentidos diversos, e é isso. Me dá uma esperança pensar que ela está aí para quem tiver dispositivos sensíveis – olhos, ouvidos, pele – para tomá-la para si. Mas, já repensando o que acabei de dizer, acho que a matéria tem algo de poder nessa relação, e que nos submetemos a ela também nisso. É meio o que me faz acreditar que, se um Morandi sobrevive à uma feira como a Artrio, ele iria mergulhar o ruidoso Bar da Cachaça num ambiente de silêncio metafísico com muito mais facilidade, caso adornasse suas paredes.
[P] Eu quero levar o Morandi pro bar! Rs. Lembro de quando fui trabalhar numa galeria de arte. Passava dias sem um visitante sequer. Eram horas vendo o vento mexer a folha do vaso de planta, vendo os executivos saírem pra fumar, estudando seus sapatos, sua classe, a maneira como levavam o cigarro à boca e como guardavam os androids no bolso. De algum modo, eu era paga pra fixar meus olhos nas obviedades, até estranhá-las, junto de certa exploração. A exposição era ruim, mas acredito ter aprendido muito sobre arte naquela experiência.
[J] Entendo. Mas penso também no que há de traumático nisso de quando estamos monitores, que evoca nossa imobilidade quando nesta função versus o estado de ação a que associamos os artistas em suas obras expostas. Isso me faz pensar também numa amiga, que foi monitora comigo num trabalho, quando disse uma vez que ver imagens por tanto tempo, como aquelas expostas, faz mal. Não me esqueço disso.
[P] É que talvez as exposições se esforcem a nos fazer ver. A situação de perceber o olho vendo. E daí os dilemas de como fazer ver, ou ainda, o que se quer ver e quem tem o poder de fazer ver. Mas esse cansaço é também a experiência da vida. Experimente ir ao Saara. A vista fica cansada. Não se vê mais nada, ao mesmo tempo que se está imerso. Uma instalação que deu certo. É impossível distinguir objetos, texturas, presenças. Por outro lado, é também um exercício maravilhoso. Algo mais interessante que parte do feed autoreferente do instagram. O desafio é pensar como a arte se coloca diante do frenesi das imagens. Ou como as imagens se colocam diante da pretensão da arte.

 

“Trabalhar monitorando um museu me evoca minha imobilidade quando nesta função versus o estado de ação a que associo os artistas quando olho suas obras expostas. É estranho crer essa condição de ação permanente nestas pinturas, esculturas, nestes não objetos. É como se, a cada mirada numa obra, ela se ressemantizasse como a presença da ação de um outro, em antítese ao nosso estado sedentário, já que espectadores. Claro que associar sedentarismo como condição do espectar incorre numa redução grosseira da vigilância do olhar à nada, como se fruir fosse pouco, uma condição inativa. Mas fruir, frente a corpulência do pintor que emerge de sua pintura, é só olhos. É disso que falo, dum fato estritamente relativo ao movimento da mão que pincelou uma tela, da extensão do braço que desbastou no alto da escultura, do dedo que clicou na câmera fotográfica, ou mesmo das pernas e da voz indo de lá a cá para viabilizar a exposição das obras que olhamos. Vemos a cinética do artista ao olharmos suas peças inertes. Já nosso corpo, ainda que em ação constante, não reside deste modo indicial num objeto público. E ver imagens faz mal.

 

 

Jandir Jr. <mailexpressivo@gmail.com>              10 de janeiro de 2017 22:24

(e o rodrigo do mar veio  me mostrar um texto que estava no verso de uma
das escalas de hoje no mar e que tinha sido eu mesmo, propositalmente,
quem tinha feito ela parar lá, atrave´s dessa proposta q fiz c max:

uso do idioma

Eu escrevo, e falo, para conviver

sem dúvidas,

convivemos noste idioma .

COMO

IDIOMA: PRETENSA CONVIVÊNCIA

QUANDO EU USO DO IDIOMA, É PRA CONVIVERMOS

 

CONVIVER

Escrevo, falo oralizo

Estou no IDIOMA para conviver

IDIOMA

A convivêrncia é inerente à  a pretensão em qualquer idioma.

Tô escrevendo para convivermos

Escrito – Caminhada para o Jandir. Janeiro 2017.

Robnei Bonifácio <robneibonifacio@hotmail.com>
Para: “Jandir Jr.” <mailexpressivo@gmail.com>

“(…) A amizade diminui a distância entre as pessoas. Para mim, é uma das coisas mais importantes do mundo (…)”
Keith Richards, em seu livro “Vida”.

Deve ser a 5 ou 6a caminhada que faço até a casa do Jandir.
Desta vez, porém, usei meus tênis que calcei para caminhadas/visitas mais longas.
(Jandir mora na Vila da Penha, bairro vizinho à Irajá).

De início o que motivou nosso encontro foi a devolução de um tecido.
Uma bandeira, na verdade. A carreguei no ombro esquerdo. Na mão direita, meu guarda chuva. Estava equipado para uma provável chuva de verão. Foi uma caminhada pós-chuva.

Conforme me deslocava entre Irajá e Vila da Penha, meu corpo já cansado aquecia-se cada vez mais, ignorando o frio tímido do Rio de Janeiro. A bandeira mantinha o suor de meu ombro. Ela, que já protegeu outro corpo contra o frio, agora era carregada entre estes dois bairros do subúrbio.

Pelas ruas eu me perguntava o que fazer por Jandir. Neste ritual do caminhar, penso naquele ou naquela que vou visitar. Mesmo tendo ido em sua casa mais de uma vez, me senti inseguro sobre qual caminho tomar. Ora, foram inúmeras vezes em que passei pelo Largo do Bicão, seja a pé ou de ônibus! Como pude me sentir confuso nos primeiros minutos de viagem? Para além da direção a ser tomada, precisei encarar a realidade violenta dessa cidade cartão postal. Há poucos dias uma criança de 2 anos foi baleada no Habib’s de Irajá, vindo infelizmente a falecer.
O horário em que saí de casa também não me agradava muito (Saí por volta das 21h).

A bandeira que carreguei nos ombros me ajudava a manter o calor. Seu potencial porém, não era apenas físico. Seu poder simbólico me acalentava. Ao lembrar de sua cor branca, pude compará-la aos gestos nobres que vi pelas ruas, onde algumas pessoas distribuíam comida àquelas que não tinham o que comer.

Pensei também na cor negra da pele de algumas pessoas que vi na rua. E que espaço elas ocupavam. Que espaço eu ocupo? Acho que essas são questões que eu e Jandir temos em comum. Também compartilhamos características em alguns trabalhos artísticos. A carga afetiva presente nos objetos, a troca, encontros pela cidade e a imaterialidade que atravessa tudo isso preocupa a nós dois. Em meio a esses pensamentos, me vi com meu melhor guarda-chuvas na mão direita. Durante o caminhar eu o trocava entre minhas mãos. Ao encontrar Jandir na porta de sua casa, deixei o guarda chuva em suas mãos. Há pouco ele lia um email que recebera de uma amiga perguntando sobre o paradeiro de sua bandeira. Ela havia acabado de voltar.

Eu poderia voltar para casa carregando o peso da chuva. Numa troca não planejada, Jandir me deu bolinhas de gude que havia me prometido semanas atrás. Neste mesmo dia, havia recebido bolinhas de gude das mãos de meu primo. Choveu bolinhas de gude.

Durante nosso encontro falamos sobre amizades e projetos. Jandir estava doente. Ardeu em febre durante um dia de folga do trabalho. Estava abatido pela doença e pelos remédios. Nossa conversa se estendeu até Jéssica, uma amiga em comum. Mesmo virtualmente, seu carinho foi sentido de perto. “Amo vocês”, ela se disse se despedindo com voz carregada de sono. Já eram 23h. Espero que Jandir tenha voltado para casa um pouco melhor.

Voltei andando com o corpo extremamente pesado.
Algo estava mais leve.

(carimbagem realizada na 13ª edição da exposição Abre Alas, n’A Gentil Carioca, pel’As carimbeiras.)

esta imagem foi utilizada como divulgação da oficina de antipoesia, que andré vargas e eu concebemos, e que foi realizada no museu de arte do rio, onde trabalhamos como educadores. criamos esta imagem rabiscando este papel com lápis, carvão e borracha, escaneando-o posteriormente e editando-a, agora como esta imagem, em detalhes básicos como espelhamento, brilho e saturação. este papel, onde começou esta imagem, tenho levado ao pavilhão de exposições do museu de arte do rio, e deixado lá com um lápis, uma borracha e um carvão. os visitantes intervém neste papel ora como se o rabiscassem em segredo, como se nele fossem anotações de alguém que o esqueceu ali, ora como se fosse um suporte pleno para suas expressões, usando toda sua extensão e suas duas faces. pouco usam a borracha neste papel e, conforme as informações que rabiscam se sobrepõem, uma de suas faces já não é a mesma que apresento nesta imagem. então mostro esta imagem na vontade de mostrar este papel, que, em sua mutação, nunca poderia doar à vista aqui. mas ontem, dezenove do um, uma visitante levou este papel, e resta esta imagem, e este papel é outra coisa.