
Sem título | 2015 | Intervenção de uma fotografia inserida em painel do Museu D. João VI | Registro fotográfico por Beatriz Pimenta Velloso | Vista da montagem na exposição PROVOCAÇÕES, no Museu D. João VI
Jandir Jr.

Sem título | 2015 | Intervenção de uma fotografia inserida em painel do Museu D. João VI | Registro fotográfico por Beatriz Pimenta Velloso | Vista da montagem na exposição PROVOCAÇÕES, no Museu D. João VI
A partir dos dados disponibilizados pelo Museu D. João VI para o agendamento de visitas, de suas condições específicas de acesso e da história do meu próprio acesso ali criei diversas documentações falsas exibidas ao lado de documentações verídicas relacionadas às condições de acesso e visitação ao Museu.
Documentação do acesso e das divulgações de agendamento de visitas ao Museu D. João VI |2015 | Instalação com vitrine do Museu D. João VI e materiais diversos | Registro fotográfico por Beatriz Pimenta Velloso | Vista da montagem na exposição PROVOCAÇÕES, no Museu D. João VI.

Intervenção na contracapa e texto de orelha, realizados em colaboração com Beatriz Pimenta Velloso, no livro Coleções de arte: formação, exibição e ensino, organizado por Ana Cavalcanti, Marize Malta e Sonia Gomes Pereira | 2015 | Este livro compôs a instalação Documentação do acesso e das divulgações de agendamento de visitas ao Museu D. João VI.
PODE PARECER UMA PEDRA. PARA O RIO É O SÍMBOLO DE UMA TRANSFORMAÇÃO. FRAGMENTO DE ASFALTO RETIRADO DA AVENIDA RIO BRANCO PARA IMPLANTAÇÃO DO VLT CARIOCA | 2015 | Base, impressão sobre papel e fragmento de asfalto retirado da Avenida Rio Branco para implantação do VLT Carioca | Registro fotográfico por Bia Martins | Vista da montagem na exposição PROVOCAÇÔES, no Museu Nacional de Belas Artes.
PODE PARECER UMA PEDRA. PARA O RIO É O SÍMBOLO DE UMA TRANSFORMAÇÃO. FRAGMENTO DE ASFALTO RETIRADO DA AVENIDA RIO BRANCO PARA IMPLANTAÇÃO DO VLT CARIOCA foi a reprodução livre da base instalada pela Prefeitura do Rio de Janeiro na Praça Cinelândia, região onde também se encontra o Museu Nacional de Belas Artes e que passa por mudanças urbanísticas por conta das obras para implantação do VLT – Veículo Leve sobre Trilhos – que cruzará parte do Centro da cidade e de sua região portuária.

Registro fotográfico da base instalada pela Prefeitura do Rio de Janeiro na Praça Cinelândia
Amigas de PAC, Efrain, Marcelo, muito prazer. Meu nome é Jandir.
Faltei aos nossos dois primeiros encontros. No primeiro estava numa residência. No segundo não me lembro, o que endossa a teoria que tenho para mim de que acabei dormindo nesse dia. Mas o que gostaria de destacar é que, ao chegar ao terceiro encontro, fui tomado de surpresa pela proposição de escrever cartas e, sobretudo, pela leitura que algumas pessoas aqui presentes fizeram das suas. Destas, as que leram diálogos que realmente existiram ou suscitavam existir com interlocutores reais foram as que me chamaram mais atenção. Ulisses, Maurício e Bia são as que me vêm à cabeça neste momento. Mas confesso que foi a carta da Bia que me impactou. Ela falou com praticamente toda a família naquela ligação! E eles, vó, vô, cachorro, falavam sobre o trabalho dela de maneira tão leve, tão familiar mesmo… que só foi ali, ao ouví-la ler seus diálogos, que percebi o quão sozinho eu tenho estado desde 2010, ano em que entrei na faculdade e comecei a fazer coisas em contato com as artes plásticas e visuais. Eu nunca falei sobre o que faço para minha família, pouco converso sobre isso com meus amigos de infância ou de outras áreas que não essa e nunca resolvi um problema num trabalho graças à sugestão de alguém (e, quando tentei incorporar generosas soluções de outras pessoas, abandonava o trabalho tão rápido quanto o tinha dado por terminado, por um desgosto profundo e imprecisável que se abatia em meu olhar para ele).
Pensando nessa solidão, lembro que antes de entrar na faculdade tinha um sonho: ter uma banda. Tentei realizar isso como uma meta de vida, sempre sem sucesso, dentre os circuitos que frequentei: na igreja católica, no emocore, no hardcore e na cena de música independente suburbana. Ao ver minha última banda se desfazendo, após 2 anos de ensaios e sem ter feito um único show até então, pensei que seria interessante entrar na faculdade naquele ano e ter contato com pintura, escultura e coisas assim, porque poderia fazer sozinho, sem depender de outros para concretizar meus sonhos de vida, sem depender de outras motivações, como numa banda, alheias à minha. No primeiro semestre de 2011 vendi minha guitarra, amplificador e outros equipamentos que usava, e desde então tenho esquecido gradualmente os acordes das músicas que compus.
Amigos do PAC, Efrain, Marcelo. Acho que, escrevendo esta carta, entendi que continuo buscando estar sozinho e essa liberdade que ansiei na solidão lá em 2010 e 2011… talvez por isso tenha me sentido sozinho ao ouvir a Bia ler a carta dela, e talvez isso signifique que estou dando certo nesse empreender solidão. Ou talvez signifique que estou absolutamente errado, e por isso me senti mal por essa sensação de solidão que me abateu.
Contudo, vocês são inteligentes. Devem já estar pensando que é impossível estar só. Eu mesmo penso agora no absurdo que é falar que se almeja a solidão aqui, num programa que reúne tantas pessoas (uma centena, imagino) em contato tão intenso, de tanto compartilhar, habitar-se, de se “estar junto”. Não tenho forma de amenizar ou pensar mais meu absurdo em dizer que busco a solidão. E acho que prefiro rir com vocês de tudo isso e tudo o mais ao continuar rendendo minhas palavras aqui.
Imaginando que neste momento eu esteja ansioso e um pouco nervoso por terminar a leitura e erguer meus olhos desta página aos olhos de todos vocês, dato, assino e dou um ponto final a esta carta.
20/08/2015
Jandir.
Carta às amigas e amigos do PAC, Efrain e Marcelo, realizada em proposição de Efrain Almeida e Marcelo Campos no programa de Práticas Artísticas Contemporâneas – Nível II, da Escola de Artes Visuais do Parque Lage | 2015

A Galeria Transparente é um projeto do artista Frederico Dalton, que criou um ambiente imaginário para mostras de arte e fotografia. Ela ocupa de maneira virtual um retângulo suavemente elevado e plano na calçada da Rua da Glória, próxima à esquina com a Rua Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Esta área foi possivelmente preparada pela prefeitura para uma banca de jornal. Até agora nenhuma se instalou lá.
Sem título | 2015 | Intervenção na Galeria Transparente | Fotografia de base: Frederico Dalton – Unorthodox Street Photography ©2014
Através de um pergunta geradora – Eu sou negro, branco ou…? – gravei as respostas de conhecidos, apresentas aqui em sequência.
Este áudio-documentário foi inspirado no vídeo Você é Macunaíma Colorau?
Sem título (para Macunaíma Colorau) | 2015 | Áudio-documentário | 24 min.
–
Um dia fui ao cinema com um grupo de amigos. Enquanto conversava com um deles sobre etnia e cor de pele percebi que ele se referia a mim e a ele mesmo não como mestiço, negro ou como pardo. Visto isso, perguntei a ele qual a minha etnia e, rapidamente, ele respondeu que eu era branco, já que minha cor de pele era branca. Isso me transportou para dois momentos distintos, que culminaram, direta ou indiretamente, no trabalho que aqui apresento.
O primeiro momento foi retornar a uma mostra do acervo que o Museu de Arte do Rio constituía em torno do Norte Brasileiro1, em suas questões, querelas e modos de fazer. Nessa mostra, um dos trabalhos me foi pungente: um vídeo-documentário, chamado Você é Macunaíma Colorau?, em que se inquiria a diversos sujeitos (diversos aqui fenotipicamente) do interior de Pernambuco questões como “Você é branco?”, “Você é índio?”, documentando essas respostas. Me impactou esse documentário por situar, sobretudo, a escolha identitária num espaço de conflito: se vemos alguém de pele morena e cabelos lisos negar uma identidade índia, autóctone, isso pode ser lido sob a chancela da deliberação individual; mas, se vemos essa mesma declaração ao lado da de uma pessoa de características étnicas semelhantes afirmando-se veementemente enquanto indígena, a simples justificativa da deliberação individual se desmantela; constitui-se uma arena.2
Já o segundo momento para o qual a resposta do meu amigo sobre minha etnia me transportou foi lembrar de um insistente questionamento que um outro amigo, Julio, sempre me fazia. Julio, negro, integrante de coletivos negros, pesquisador de Abdias do Nascimento3, dentre outras tantas atividades que remetiam às questões do afro-brasileiro, me inquiriu uma dúzia de vezes se eu me considerava negro. Ao modo do vídeo Você é Macunaíma Colorau? Julio me trazia para a arena da identidade, já que declarar-me negro ou outro nesse contexto não diria respeito somente a mim, mas a ele, inquiridor, partícipe do porquê do meu enunciar-me.
Disso tudo, ficou em mim a confirmação dura de que, ainda que a deliberação individual sobre identidade seja pedra fundamental donde se constituiu e se constituem nossas histórias e lutas minoritárias, há um disputa complexa sobre o “ser”, que ultrapassa nossas afirmações determinantes sobre nós mesmos. Há uma discordância entre meu amigo que me considera branco e a polícia que vez ou outra me para nas ruas como potencial suspeito (que, sabemos aqui, se constitui numa identificação fenotípica – leia-se no corpo do preto ou do pardo) e essa discordância é que tem constituído minha subjetividade identitária, a ficção da singularidade sustentada por mecanismos jurídicos (pessoa física, sujeito de direitos), culturais (“diga-me com quem andas e eu te direi quem és.” – Ditado popular brasileiro), geográficos, etc.
Com isso, tive a vontade de me alimentar da empresa do vídeo Você é Macunaíma Colorau? para reinventá-la numa perspectiva sobre apenas um sujeito – eu, suburbano no Rio de Janeiro, universitário, filho de branca e negro e com uma circulação por estratos sociais diversos razoável – perguntando a conhecidos e desconhecidos “Eu sou branco, negro ou…?” e registrando suas respostas em áudio. A opção pelo áudio veio em função de pensar a recepção deste trabalho: enquanto Você é Macunaíma Colorau?, sendo em vídeo, gerava sua densidade no enfrentamento entre a autoimagem do sujeito que respondia, sua aparência para nós, audiência e na comparação com os outros excertos-respostas, no áudio-documentário que construo a ausência de minha imagem é fundamental para desestabilizar qualquer referencial fixo. Quem foi gravado aqui não respondeu “Eu sou …”, como em Você é Macunaíma Colorau?, por exemplo, mas respondeu, olhando para mim, “Você é …”. Logo, esse “você” dito pelo áudio-documentário pode se referir a qualquer corpo: ao meu, ao de quem escuta, ou a vários. Mas isso é só uma perspectiva minha sobre o resultado final disso tudo. De concreto há o trabalho e mal posso saber sobre o que ele dirá ao corpo de quem escuta, se falará sobre mim ou não.
Contudo, fazendo isso pude descobrir que dentro de minha própria família sou considerado branco, pardo e negro; que alguns amigos só viam minha negritude e acharam até mesmo ofensivo que eu perguntasse algo assim; que também sou considerado indígena ou mesmo amarelo, terra de siena, cor de areia; e que essa mesma questão poderia gerar tanto respostas categóricas quanto prolixas. E, ainda assim, quando escuto as respostas gravadas em sequência, não reconheço minha imagem se formando, tal qual um espelho. Mais vejo se formar, na imbricação entre culturas, geografias, histórias, concepções jurídicas, encontros, dentre outros vetores, a delineação de um campo estético, no seio dos conflitos e acordos que constituem o social.
Brincaria comparando essa variação toda sobre um tema – minha etnia, cor, identidade – à entropia, transformações em um sistema que, atuando dentro dele, são irreversíveis. Desordens que, por assim dizer, seriam constitutivas da natureza própria daquele sistema; a entropia enquanto caos que constitui. Lembro-me do trecho final do texto Um passeio pelos monumentos de Passaic, Nova Jersey, onde Robert Smithson descreve a entropia da seguinte maneira:
Imagine com o olho de sua mente a caixa de areia dividida em duas com areia preta de um lado e areia branca do outro. Pegamos uma criança e a fazemos correr no sentido horário dentro da caixa completando 100 voltas, até que a areia se misture e comece a ficar cinza; depois disso a fazemos correr no sentido anti-horário, mas o resultado não será a restauração da divisão original e sim grau ainda maior de cinza e aumento da entropia.
O branco e o negro da areia se misturam, assim como o branco e o negro em mim também. Mas, ao contrário da areia para Smithson, minha matiz não se torna cinza. Com o aumento dessa “entropia”, minha cor pluraliza. Se há uma unidade em mim me parece estar tão somente nessa expansão, que vem de fora pra fazer crescer por dentro, no meu eu, diferencial, incontrolavelmente, de forma irreversível.
Inspirada na Verb list de Richard Serra, que descreve 108 contextos e ações a serem realizados em material qualquer, minha Lista de verbos descreve 108 ações que nos ocorrem involuntárias à nossa vontade, o que permite correlacionarmo-nos ao material qualquer na lista de Serra e promover com isso um vislumbre de um enfrentamento: do que em nós é força geológica a alterar todo o planeta contra o que em nós ainda resiste em ser matéria a ser sulcada e moldada pelos agentes que não dominamos, resilientes às nossas investidas de adaptação.
Sonhar
Piscar
Esquecer
Respirar
Acordar
Dormir
Tremer
Ver
Ouvir
Sentir
Viver
Morrer
Pensar
Suar
Chorar
Calejar
Sofrer
Engasgar
Gargalhar
Desmaiar
Escorregar
Enfartar
Adoecer
Envelhecer
Nascer
Menstruar
Tossir
Remelar
Desesperar
Pulsar
Arfar
Salivar
Espreguiçar
Ser
Digerir
Sangrar
Divagar
Vomitar
Bocejar
Enrubescer
Arrepiar
Arder
Cansar
Cicatrizar
Constipar
Exasperar
Aturdir
Desfalecer
Entristecer
Enfraquecer
Engordar
Definhar
Ovular
Deprimir
Alegrar
Convulsionar
Cheirar
Distender
Pigarrear
Estrebuchar
Enrugar
Peidar
Afogar
Extasiar
Sufocar
Engolir
Arrotar
Calcificar
Golfar
Doer
Surtar
Enlouquecer
Coagular
Estremecer
Cariar
Roncar
Fungar
Gestar
Adormecer
Desgastar
Memorizar
Prurir
Gozar
Metabolizar
Contrair
Atrofiar
Inchar
Estalar
Bombear
Inflamar
Soluçar
Pinicar
Resfriar
Espirrar
Paralisar
Apodrecer
Luxar
Crescer
Enrijecer
Ensurdecer
Emudecer
Emagrecer
Subnutrir
Confundir
Bronzear
Sarar
Lacrimejar
Secretar
Lista de verbos | 2015 |Texto | Publicada na segunda edição da revista ClimaCom Cultura Científica – pesquisa, jornalismo e arte

Sem título (detalhe) | 2015 | Políptico – 53 fotografias | 3 x 4 cm. cada
Lugar das Dúvidas é um conjunto de cinco vitrines localizado na lateral da Casa Daros (Av. Lauro Sodré, Botafogo, RJ), de frente para a rua e que tem como objetivo a aproximação da produção artística latino-americana contemporânea ao transeunte, habitantes do bairro e o público da cidade em geral.
Pequena coleção de coisas que não desembalarei | 2015 | Objetos diversos | Dimensões variáveis | Vista da montagem no Lugar das Dúvidas/Casa Daros | Registro fotográfico por Alline Ourique
COMUNICADO: É PERMITIDO APROPRIAR, MANIPULAR E INSERIR PEDRAS NESTE ESPAÇO. GRATO, JANDIR JR. | 2015 | Ocupação realizada no Espaço Vórtice, na EBA/UFRJ | De cima para baixo: registros fotográficos por Jandir Jr. e Mônica Coster, comentários no http://facebook.com por Yuri Dias quatro dias após o término da ocupação e intervenção anônima em cartaz de divulgação afixado em um mural.